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14 de dez de 2013

Zen da arte de matar lacraias dentro de teclados e reflexões sobre técnica pianística nesses aparatos

por Isaias Malta
Comprei o meu Yamaha DGX-300 em 2004 e de lá para cá nunca havia "aberto o capô". Pois bem, num belo dia desses percebi que o feltro usado para recobri-lo estava com mais poeira do que a cidade de Pompeia soterrada pelo Vesúvio, logo, a limpeza imediata se tornou imperativa.

A lacraia fagueira...
Estando sem feltro, observei mais atentamente o teclado e percebi uma lacraia andando toda fagueira por entre as reentrâncias de plástico. Certamente que tentei mata-la no ato e, logicamente, ela escapuliu agilmente e sumiu numa fresta entre as telas. Acabava de ser decretada a desmontagem do dito cujo, caça à lacraia, e limpeza geral da poeira juntada depois de todos esses anos.

1000 parafusos depois...

Mesmo permanentemente tapado, o teclado sofreu com a imundície do tempo. Seus alto-falantes tinham uma grossa camada de poeira, embaixo das teclas idem. Tive que liquidar a lagarta com o infame inseticida Rodox Mortein, pois mesmo com a buchada do teclado exposta, ela teimava em se esconder nas dobras de um cabo múltiplo. Uma lufada apenas de inseticida foi suficiente para demovê-la definitivamente da carreira de roedora de instrumento musical.

Por que continuar com um teclado digital depois de adquirir um piano de cauda?

Por que mantemos um modesto teclado em casa se temos um pungente piano de ½ cauda de 178 cm? Depois da morte da lacraia é importante esclarecer esse pormenor. É porque sentimos necessidade ocasional de tocar em algo verdadeiramente ruim quando vamos enfrentar um piano qualquer por aí. Também é verdade que não acho legal me viciar num instrumento apenas, sabendo que piano não é um item que você pode carregar nas costas.

Por isso, volta e meia estou lá enfrentando as molas do tecladinho em estudos de difícil resolução, até para refletir sobre a impossibilidade abismal de se desenvolver qualquer sombra de técnica pianística num troço daqueles.

A incontrolabilidade dos instrumentos de molas...

A diferença entre o meu piano anterior, um vertical antigão e prenhe de problemas de mecânica não era tão patética quanto a atual. Isso se explica porque ambos os instrumentos se baseiam num conjunto de molas projetadas para oferecer resistência à força do dedo e promover o retorno da tecla ao estado de repouso. Escrevi sobre o assunto aqui:

Logo, se o mecanismo do piano de armário pouco aproveita o princípio da alavanca, menos ainda a esmagadora maioria dos mecanismos dos instrumentos eletrônicos, cuja extrema preocupação é com a redução de custos e peso. Falo sobre o uso do princípio da alavanca nos pianos aqui:

Então, como se ter acesso às infinitas sutilezas da técnica pianística praticando num instrumento que se opõe resolutamente ao controle do pianista? Como produzir efeito de eco no estudo de Czerny (opus 299 nº 27) ou a repetibilidade brutal exigida pela sonata 141 de Scarlatti, ou aquele pianíssimo de doer requerido por algumas sonatas de Beethoven (depois vem o fortíssimo e você não consegue diferenciar um do outro)?

Não sei como os mártires que só estudam em teclados conseguem desabrochar efetivamente, há os bem dotados que conseguem, os que pensam que conseguem e os que não conseguem. Por ora, continuaremos com o teclado, desta feita limpinho, instalado num andar da casa, enquanto o pianão continuará imperando no outro, pois é sempre bom dar uma fugida no cantinho e enfrentar grandes dificuldades por um lado e facilidades por outro. Sim, pois se por um lado as teclas acionam em última análise um botão do tipo liga/desliga – fato que minimiza nota falhada, por outro os esbarrões são extremamente comuns entre pianistas puramente acústicos.

Por isso, acho que praticar também em teclado digital dá uma precisão um tanto sonegada pelo piano acústico, digamos, uma finesse própria dos organistas.

11 de dez de 2013

Termos usados comumente no universo dos pianos

Não importando se você é marinheiro de primeira viagem ou cobra criada, muitas vezes os pianistas desconhecem conceitos elementares não concernentes à atividade fim, mas ao seu instrumento propriamente dito. Ora, isto é uma falha lamentável que pode redundar inclusive em perdas financeiras, pois na hora de comprar, por desconhecimento do jargão empregado, o pianista, estudante, ou diletante pode embarcar numa canoa furada.

Voicing
O chamado procedimento de entonação consiste em trabalhar o feltro dos martelos, para eliminar os sulcos (lixando), torna-los mais duros (aplicando ferro quente), ou macios (agulhando), de acordo com o perfil de sonoridade que se quer produzir. Ao cabo de uns 4 ou 5 anos de uso moderado é necessário proceder uma entonação no piano, ou a troca dos martelos se eles tiverem sulcos muito profundos, ou se os feltros não têm mais espessura suficiente para sofrerem outra entonação.

Temperamento
Uma das principais diferenças entre pianos acústicos e digitais é que esses últimos possuem um temperamento perfeitamente igual, ou seja, terças menos doces, quintas um pouco ásperas e oitavas em uníssono – um dos motivos pelos quais os teclados soam secos. Já no piano acústico, o "sabor" da escala é definido pelo bom ou mau gosto do afinador. Então, se você gosta do resultado do trabalho do seu afinador de pianos, certamente gosta da parte humana da história de não fazer as coisas com precisão matemática.

Coroamento
Imagine o tampo harmônico do piano como um grande alto-falante. Na qualidade de transdutor, o tampo harmônico precisa ter uma curvatura (face côncava para baixo, parecido com a figura de uma coroa) para poder ressoar com a máxima intensidade. Os pianos velhos e até alguns novos acabam perdendo o encurvamento, por perdem a sustentação e a potência.

Guaribado
É comum nos anúncios de pianos usados aparecer a expressão "nunca foi guaribado" enaltecendo a vantagem do produto. Ora, um piano com décadas de existência em estado original é um verdadeiro atentado contra o bom senso. Só leigo cai nessa história de que piano "original" equivale a piano em ótimo estado, pois após dez anos um piano necessita necessariamente de trocas de alguns componentes. Logo, um piano que sofreu as devidas manutenções é desejável àquele que ficou jogado às traças. Agora, os pianos que foram mexidos por curiosos, os verdadeiramente guaribados, esses sim devem ser descartados.

Reformado
Ao cabo de um tempo, algumas das milhares de peças móveis do piano apresentam desgaste e devem sofrer ajustes e trocas. Um piano reformado por técnicos competentes é um bom sinal de confiabilidade.

Restaurado
A restauração implica, além dos serviços normais de reforma, no retrabalho do móvel. Devido ao custo da restauração, ela somente é recomendada para pianos de excelente pedigree.

Baby grand

Refere-se a pianos de ¼ de cauda cujas profundidades vão de 145 cm a aproximadamente 152 cm. Este tipo de pianos menores também são chamados no nosso mercado de "crapô" e "mignon".

Rebaixado
Piano com padrão de afinação do lá central definido abaixo de 440 hz. As razões que justificam tal procedimento são várias, entre elas:
- pianos antigos: o fato de rebaixar a afinação livra a estrutura já fadigada de algumas toneladas de pressão;
- pianos que não seguram mais a afinação padrão: há chance de funcionar baixando o diapasão antes de se partir para a solução radical e cara de trocar cravelhas e cepo;
- simpatizantes da nova onda dos 432 hz: dizem que é a frequência de ouro que produz harmônicos menos estridentes. Os pianistas que optaram por isso falam bem dos resultados.

Rebatido

Eventualmente as cravelhas passam a não segurar a gravação, então eles são batidas com um martelo com o fim de penetrarem mais profundamente no cepo. Só que este tipo de operação vale por um determinado número de vezes. Logo, na hora de examinar um piano usado preste atenção na largura entre as voltas de corda enroscadas ao redor da cravelha. As cravelhas que estiverem com as cordas encostando no cepo certamente inviabilizarão novas afinações das notas afetadas.

3 de dez de 2013

Palavras ao vento

Palavras nunca estiveram tão ao vento
Hoje elas são quase perniciosas viciosas apequenadas hashtags
Não confinadas a livros preferem a transitoriedade dos dispositivos
Nem sequer rimam em decassílabos agora soltas de formalidades
Sem eira nem beira palavras jorram a revelia de Shakespeare
Sem Machado de Assis sem o paradigmático James Joyce
Hoje elas são jornalísticas secas anêmicas raquíticas
Consumidores de fotos desdenham textos por não lhes apetecer semântica
E o mercado dominante pressiona deforma cria um novo léxico da pior estirpe
Tanto que palavras ao vento se tornou palavrão não mais metáfora poética
E o vento continua a carregar palavras vazias órfãs de densidade borgiana