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31 de mar de 2014

Não merecemos ser estupradas, assim como...

Autor:
Não merecemos ser roubados quando saímos do banco com a bolsa recheada de dinheiro.
Não merecemos ser mortos quando portamos arma acintosamente em lugares suspeitos.
Não merecemos ter os dedos arrancados quando usamos joias caríssimas na rua.
Não merecemos ser assaltados quando ficamos de bobeira na hora errada no lugar errado.
Não merecemos ter o lar arrombado porque insistimos em guardar dinheiro em casa.
Não merecemos ter um membro da família sequestrado por causa da nossa ostentação.

As mulheres reclamam justamente o seu direito de vestirem o que quiserem e até nada vestir, contudo, a exposição do corpo é uma arma poderosa que tanto atrai olhares sadios, quanto doentios. Se eu entrasse numa favela portando explicitamente um revólver, certamente tal ato seria considerado uma insanidade. Por que então o fato de uma mulher linda trajando pouca roupa, exposta a um público heterogêneo, não pode ser considerado um ato insano?


Essa é a triste realidade de sermos obrigados a ocultar publicamente a nossa beleza, recursos, nossas armas, posses e até a nossa alegria de viver. Nada impede de continuarmos a lutar pela utopia de ninguém meter a mão no bem alheio.

4 de mar de 2014

O sucesso da cara

Autor:
Algum apressadinho poderia dizer que nos nossos tempos a coisa mais importante é o corpo. Ledo engano, pois é a cara. Uma vez, na Idade Média, era a alma que importava e a cara, usualmente marcada pelas pestilências típicas da época, não tinha nem sombra da importância que lhe devotamos hoje.

Eis o motivo do sucesso de empresas relâmpago que saltaram diretamente do quarto de adolescentes nerds prenhes de acne para o berço bilionário dos megaempreendimentos. Essa é a razão do sucesso do Facebook, uma rede de caras e bocas e tudo o mais relacionado ao grande interesse do momento.

Por isso uma revista chamada "Caras" faz sucesso, por isso os vídeos de caras falantes no Youtube são mais vistos do que livros. Quando leio que a imagem mais compartilhada da história foi um selfie batido na festa do Oscar, definitivamente a cara superou o corpo no quesito celebridade.

Por isso, quando vejo pessoas batendo selfies na rua enquanto caminham perigosamente entre carros, começo a entender o sucesso dos peelings, cremes anti-aging, botox e outras artimanhas criadas para deixar a cara por cima da carne seca.

Hoje em dia cara é tudo (pobre Eric Schmidt, que apesar de ser um dos bilionários donos do Google, tem a cara detonada)! Se você não tem cara não vai a Roma! Na hora de pleitear um emprego cara é tudo, pelo menos tudo concernente à "boa aparência".

E os rostinhos bonitos que triunfam na TV, vazios de talento, só por serem a cara certa no lugar certo, comprovam a nossa superficialidade em termos de profundidade cultural construída à flor da pele.

Portanto, num mundo dominado por carinhas de bebê, tenho pena dos adolescentes estampados de crateras da acne, pois eles se sentem instantaneamente rebaixados da categoria de pretendentes a humanos para a classe de coisas vermelhas de vergonha por não terem a cara do momento cinzelada a peeling de diamante.

Até onde arrastaremos a nossa vacuidade moral que reduz o ser à efemeridade das aparências? Qual é o lugar reservado num mundo desses a uma cara velha? Nenhum! E provo isso através dessa propaganda que encontro amiúde num site meteorológico. Como uma imagem vale mais do que mil palavras, tirem as suas próprias conclusões: