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10 de out de 2013

Dimensões da interpretação pianística com exemplos

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Reconhecer as qualidades de uma execução é um dos grandes prazeres reservados aos ouvintes. Normalmente, quando vemos críticas sobre uma determinada peça, termos como "paleta de cores", "fluidez", "respiração", "clareza" costumam ser empregados. O que a princípio parecem ser julgamentos apriorísticos e puramente subjetivos, são instâncias que se repetem e que o ouvido pode começar a vislumbrar, desde que tenha acesso ao treinamento adequado e este treinamento só é obtido ouvindo, estudando, perscrutando e ouvindo mais ainda.




Fraseado: Maria João Pires
Fraseado significa incorporar na execução o ato da respiração e isso concede uma fluidez toda especial, cativando o ouvinte pela organicidade. Uma das pianistas detentoras de um dos fraseados mais lindos que conheço é a portuguesa Maria João Pires. Veja como ela faz o seu Scarlatti respirar, um compositor visto tradicionalmente como autor de 555 sonatas pedagogicamente áridas.

Precisão: Arturo Benedetti Michelangeli
Clareza, regularidade rítmica e fidelidade à partitura são qualidades não raras vezes transformadas em pejorações do tipo "pianista cerebral", "pianista metronômico", "pianista robótico", etc. Entretanto, é essa classe de pianismo que pode nos descortinar quiçá as reais intenções do compositor. Intérpretes do porte de um Artur Schnabel, Josef Hofman, Claudio Arrau, Alfred Brendel, Rudolf Serkin, Wilhelm Kempff, Pierre-Laurent Aimard e, naturalmente Michelangeli além de nos concederem o seu lirismo, nos legaram o total respeito à obra dos autores, sem se deixarem cair na tentação dos rasgos perfunctórios e dos rubatos egocentristas.

Articulação: Glenn Gould
A capacidade de destacar as notas de maneira límpida, situando a execução entre o staccato e o legato, foi a marca registrada deixada por Glenn Gould, que desenvolveu arduamente esta técnica conjuntamente com o seu mestre Alberto Guerrero. Uma das herdeiras dessa escola é a fantástica pianista e professora canadense Angela Hewitt.

Dinâmica: Ernst Levy
O poder de fazer o piano emitir sons fracos e fortes constitui a essência do instrumento e os grandes contrastes caracterizam o périplo musical de Beethoven. O pianista do vídeo acima exemplifica o triunfo da técnica e o terror dos técnicos de estúdio que se meteram a gravar a façanha.

Colorido tonal: Guiomar Novaes
Estranhamente, mesmo o piano disponibilizando notas fixas e estanques por acionamento indireto através de teclas, há todo um jogo de sonoridades possíveis a ser explorado pelo uso sutil e intensivo dos pedais. E na história da música não há que mais tenha convertido em realidade a famosa técnica de uso dos pedais do professor Luigi Chiaffarelli do que a grande Guiomar Novaes. Assim, aliando o toque de natureza única à destreza do uso dos pedais, esta pianista consegue exprimir uma fecundidade tonal jamais vista na história do piano!

Cantábile: Vladimir Horowitz
Um dos grandes paradoxos que cerca o piano é a possibilidade de se fazer cantar um instrumento fundamentalmente percussivo. Contudo, este dom só é permitido aos titãs dos teclados, aos que imortalizaram seus nomes na história do piano. A execução privilegiada com cantábile mais comovente e arrebatador nos foi legada por Horowitz, único e eterno!

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