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28 de fev. de 2015

Concorra a 1 milhão!



Eis que estava comprando 5 chocolates 85% na Cacau Show quando a vendedora apareceu com a proposta de gastar mais de 50 reais para que eu concorresse a 1 milhão em barras de ouro. Na verdade faltavam 6 reais para 50, mas dispensei a promoção no ato.

Disse para a vendedora que me recuso sequer a conviver com a ideia de ganhar, me faz mal a expectativa. Prefiro viver com os pés no chão dos recursos que disponho, do que andar nas nuvens do sonho fantasmagórico.

Se é certo que não vou ganhar, mais certo ainda é a vã esperança de repente ser sorteado. O simples ato de preencher um cupom já representa uma assinatura de contrato com o Diabo, já é a perigosa entrada no mundo lamacento do jogo.

Eu disse para a vendedora que sou ruim de jogo (sorte no amor?), que se dependesse de mim Las Vegas iria à falência. Pois assim, graças à minha incorrigível preguiça de preencher formulários, passei a adotar como filosofia de vida não preencher cupons de sorteios e tenho sido feliz desde então.

Quando a promoção se dá em termos de comprar 5 barras de chocolate e ganhar uma, vá lá, é o toma lá dá cá que não faz mal a ninguém. Acho que o barateamento do preço incentiva mais o consumo das pessoas do que os sorteios quiméricos, pelo menos pra mim funciona assim.

25 de jan. de 2015

O preço do medo



Em tempos de globalização das informações o medo nunca esteve tanto em voga campeando pelo mundo. Se antes sofríamos sob os terrores do fogo do inferno durante a idade média, hoje temos medo de Ebola, Estado Islâmico, falta d’água, apocalipse climático, perder o emprego, terrorismo, envenenamento alimentar, insegurança...

O medo alimenta uma indústria trilionária, provavelmente a mais lucrativa do mundo. Ele fomenta as guerras, é moeda de troca da imprensa, fortalece o belicismo, provoca êxodos, dizem até que provoca câncer devido à constante opressão sobre as suprarrenais.

Então qual é a utilidade do medo?
A rigor além dele ser inútil, é prejudicial. Tanto é prejudicial, que quando você faz um retrospecto da sua vida, seu maiores arrependimentos vêm dos medos fúteis havidos. Por que não enfrentei? Por que não chutei o balde? Por que não fui mais despojado? Perguntas como essas são vermes que remoem aquilo que chamamos de experiência de vida e que, quanto mais se acumula o monturo de medos, mais produz arrependimentos.

Por isso, jogue uma luz sobre os seus medos atuais e sinta no sangue o peso da sua inutilidade e prejuízos causados, não deixe que se transformem em arrependimentos de uma vida que foi miseravelmente sufocada pelo medo de problemas que nunca vieram a existir.

20 de ago. de 2014

O sucesso é não sonhar com o sucesso

Frustrando a eterna expectativa, hoje não aconteceu nada. Não sonhei com ninguém, não ganhei, não perdi, não fiz novas amizades, não me tornei mais alegre ou triste. Às vezes é bom dar umas férias a expectativa, que mina as nossas energias e nos força a prosseguirmos inflados de vãs esperanças.

Não, hoje não, ela não prosperou. Talvez se eu tivesse tido a expectativa de não ter expectativa, talvez tivesse falhado, não sei, mas ela é a melhor terapia do fracasso que conheço. Também não posso eleger tal sensação ao status de modus vivendi, pois outrossim seria cair na negativa da expectativa, o que seria a perpetuação da aporia.

Esperar sexta-feira, dinheiro, verão, emprego, loteria, aumento de salário, sexo, viagem, amizades, tudo isso são vanidades perto da força motriz gerada pelo ato de alcançar a imobilidade num determinado ponto do universo. Talvez os suicidas persigam justamente o estado de ente imóvel, sem expectativa, só desfrutando desse instante, mesmo que efêmero de nada ser.

Ser ou não ser É a questão permeante à dor do viver e a expectativa se agudiza de tal maneira, que só nos resta o confortável caminho do embrutecimento pela via do sonho. Sonhei muitas coisas, entre elas ser astronauta, mas estou aqui apenasmente soterrado pelo Ser, sobressaltado pelo tique-taque do relógio que não dá conta das horas, mas das batidas do coração avançando noite a dentro as vãs expectativas.

29 de jul. de 2014

Nossa única prioridade moderna



Só recentemente tenho despertado do torpor profundo comum à nossa civilização. Esporadicamente acompanho um programa matinal de uma rádio de Porto Alegre, quando descubro estarrecido que praticamente 90% das pautas versam sobre estradas, asfalto, buracos, trânsito, alças de acesso, viadutos, duplicações, congestionamento, etc. Por outro lado, leio num jornal que o problema do lixo em Porto Alegre está em situação caótica, com o poder público desativando as poucas iniciativas de tratamento na própria cidade em prol da solução mágica (e caríssima) de exportar o lixo para longe.

Portanto, lixo, desde que não esteja empestando o seu pátio, não incomoda ninguém, não é prioridade, como também esgoto, saneamento, transporte público, vias para pedestres... Por falar nessas vias, invariavelmente as cidades que tenho visitado pecam no tratamento ignominioso que reservam aos pedestres. Mesmo as cidades planejadas do centro do país, alocam 90% das vias de tráfego aos tão adorados veículos, ao passo que os 10% restantes ficam entregues às traças, mais precisamente, ao mato, à caliça, aos entulhos e aos buracos de dar medo.

Inventamos de fazer uma caminhada urbana na pequena cidade de Bonito-MS e a experiência se revelou um desastre. Do hotel-fazenda até o centro nos deparamos com uma estrada extremamente larga, bem asfaltada e bem cuidada, margeada de calçadas descontínuas e intransitáveis, terrenos da lua, por vezes até totalmente obstruídas, fato que nos obrigava a disputar espaço com o todo-poderoso automóvel, motos e bicicletas ensandecidas.

Será que nós, poucos, estamos errados e o resto do mundo certo? Espero pacientemente que o atual regime automobilicista atinja uma era de caos pós-apocalíptico, para que as pessoas descubram que têm duas pernas embaixo da bacia, que servem também como um sensacional meio de transporte, não só para apertar alavancas de freio e embreagem, que não sintam vergonha de poderem caminhar livremente.

23 de mar. de 2012

Como descobri que o sedentarismo é um pesadelo


"couch potato"
As pessoas fisicamente ativas enfrentam vez por outra um efeito colateral: devido às lesões fisiológicas próprias dos amantes dos exercícios, são obrigados a cessar por completo as atividades, sob pena do agravamento do problema.

Foi o que aconteceu comigo. Sofri uma possível lesão no músculo piriforme e em consequência dela o nervo ciático e uma artéria que passam através dele ficaram comprimidos e causaram grandes dores na perna e várias noites sem dormir horizontalmente - coisa que qualquer mortal tem direito. A dor aliviava quando me sentava numa cadeira de espaldar reto.

Pois bem, depois de algum tempo com o problema não foi possível escondê-lo dos meus parentes, por isso fui obrigado a cessar todas as atividades físicas até desinchar o músculo e recuperar por completo a funcionalidade dos músculos do quadril.

Os médicos dizem que a recuperação muscular leva 3 semanas, a recuperação dos ligamentos dura 3 meses e a dos nervos consome 6 intermináveis meses. Coloco esta tabelinha só para exemplificar o quanto as pessoas podem agravar os seus males, ao não darem o tempo certo de convalescência, em suma, não parando com boa, amada e necessária atividade física.

Decorridas 3 semanas de molho, comecei a experimentar sério sinal de recuperação, bom por um lado e ruim por outro, pois com ele vieram também os desconfortos de dores típicos daqueles que vivem mergulhados no mais profundo sedentarismo. Hoje sofri ao amanhecer uma forte cãibra na panturrilha da perna boa, ontem, devido a uma pequena apressadinha na caminhada, senti cãibra nos músculos anteriores da coxa.

Afora tais mazelas, também começaram a me surgir desconfortos nas costas, enfim, me descobri na pele de um sedentário irridento, apesar dessa condição estar prestes a mudar porque voltei a fazer exercícios. O saldo positivo da experiência é a compreensão porque os remédios mais consumidos pela humanidade pertencem ao grupo dos analgésicos.

Seria lícito supor que uma grande parte das dores sofridas pelas pessoas tem como pano de fundo o estilo de vida sedentário? Acredito nisso e posso afirmar que dores musculares e nas juntas se devem ao carro, escada rolante, elevador, sofá, etc., ou seja, a todos os confortos da vida moderna que terminam por deixar as pessoas cada vez mais inativas. É o preço a ser pago pela preguiça nossa de cada dia!

Enquanto me despeço, mando uma saudação especial aos sedentários porque eles merecem, afinal, a vida deles é uma merda!