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14 de dez de 2013

Zen da arte de matar lacraias dentro de teclados e reflexões sobre técnica pianística nesses aparatos

por Isaias Malta
Comprei o meu Yamaha DGX-300 em 2004 e de lá para cá nunca havia "aberto o capô". Pois bem, num belo dia desses percebi que o feltro usado para recobri-lo estava com mais poeira do que a cidade de Pompeia soterrada pelo Vesúvio, logo, a limpeza imediata se tornou imperativa.

A lacraia fagueira...
Estando sem feltro, observei mais atentamente o teclado e percebi uma lacraia andando toda fagueira por entre as reentrâncias de plástico. Certamente que tentei mata-la no ato e, logicamente, ela escapuliu agilmente e sumiu numa fresta entre as telas. Acabava de ser decretada a desmontagem do dito cujo, caça à lacraia, e limpeza geral da poeira juntada depois de todos esses anos.

1000 parafusos depois...

Mesmo permanentemente tapado, o teclado sofreu com a imundície do tempo. Seus alto-falantes tinham uma grossa camada de poeira, embaixo das teclas idem. Tive que liquidar a lagarta com o infame inseticida Rodox Mortein, pois mesmo com a buchada do teclado exposta, ela teimava em se esconder nas dobras de um cabo múltiplo. Uma lufada apenas de inseticida foi suficiente para demovê-la definitivamente da carreira de roedora de instrumento musical.

Por que continuar com um teclado digital depois de adquirir um piano de cauda?

Por que mantemos um modesto teclado em casa se temos um pungente piano de ½ cauda de 178 cm? Depois da morte da lacraia é importante esclarecer esse pormenor. É porque sentimos necessidade ocasional de tocar em algo verdadeiramente ruim quando vamos enfrentar um piano qualquer por aí. Também é verdade que não acho legal me viciar num instrumento apenas, sabendo que piano não é um item que você pode carregar nas costas.

Por isso, volta e meia estou lá enfrentando as molas do tecladinho em estudos de difícil resolução, até para refletir sobre a impossibilidade abismal de se desenvolver qualquer sombra de técnica pianística num troço daqueles.

A incontrolabilidade dos instrumentos de molas...

A diferença entre o meu piano anterior, um vertical antigão e prenhe de problemas de mecânica não era tão patética quanto a atual. Isso se explica porque ambos os instrumentos se baseiam num conjunto de molas projetadas para oferecer resistência à força do dedo e promover o retorno da tecla ao estado de repouso. Escrevi sobre o assunto aqui:

Logo, se o mecanismo do piano de armário pouco aproveita o princípio da alavanca, menos ainda a esmagadora maioria dos mecanismos dos instrumentos eletrônicos, cuja extrema preocupação é com a redução de custos e peso. Falo sobre o uso do princípio da alavanca nos pianos aqui:

Então, como se ter acesso às infinitas sutilezas da técnica pianística praticando num instrumento que se opõe resolutamente ao controle do pianista? Como produzir efeito de eco no estudo de Czerny (opus 299 nº 27) ou a repetibilidade brutal exigida pela sonata 141 de Scarlatti, ou aquele pianíssimo de doer requerido por algumas sonatas de Beethoven (depois vem o fortíssimo e você não consegue diferenciar um do outro)?

Não sei como os mártires que só estudam em teclados conseguem desabrochar efetivamente, há os bem dotados que conseguem, os que pensam que conseguem e os que não conseguem. Por ora, continuaremos com o teclado, desta feita limpinho, instalado num andar da casa, enquanto o pianão continuará imperando no outro, pois é sempre bom dar uma fugida no cantinho e enfrentar grandes dificuldades por um lado e facilidades por outro. Sim, pois se por um lado as teclas acionam em última análise um botão do tipo liga/desliga – fato que minimiza nota falhada, por outro os esbarrões são extremamente comuns entre pianistas puramente acústicos.

Por isso, acho que praticar também em teclado digital dá uma precisão um tanto sonegada pelo piano acústico, digamos, uma finesse própria dos organistas.

11 de dez de 2013

Termos usados comumente no universo dos pianos

Não importando se você é marinheiro de primeira viagem ou cobra criada, muitas vezes os pianistas desconhecem conceitos elementares não concernentes à atividade fim, mas ao seu instrumento propriamente dito. Ora, isto é uma falha lamentável que pode redundar inclusive em perdas financeiras, pois na hora de comprar, por desconhecimento do jargão empregado, o pianista, estudante, ou diletante pode embarcar numa canoa furada.

Voicing
O chamado procedimento de entonação consiste em trabalhar o feltro dos martelos, para eliminar os sulcos (lixando), torna-los mais duros (aplicando ferro quente), ou macios (agulhando), de acordo com o perfil de sonoridade que se quer produzir. Ao cabo de uns 4 ou 5 anos de uso moderado é necessário proceder uma entonação no piano, ou a troca dos martelos se eles tiverem sulcos muito profundos, ou se os feltros não têm mais espessura suficiente para sofrerem outra entonação.

Temperamento
Uma das principais diferenças entre pianos acústicos e digitais é que esses últimos possuem um temperamento perfeitamente igual, ou seja, terças menos doces, quintas um pouco ásperas e oitavas em uníssono – um dos motivos pelos quais os teclados soam secos. Já no piano acústico, o "sabor" da escala é definido pelo bom ou mau gosto do afinador. Então, se você gosta do resultado do trabalho do seu afinador de pianos, certamente gosta da parte humana da história de não fazer as coisas com precisão matemática.

Coroamento
Imagine o tampo harmônico do piano como um grande alto-falante. Na qualidade de transdutor, o tampo harmônico precisa ter uma curvatura (face côncava para baixo, parecido com a figura de uma coroa) para poder ressoar com a máxima intensidade. Os pianos velhos e até alguns novos acabam perdendo o encurvamento, por perdem a sustentação e a potência.

Guaribado
É comum nos anúncios de pianos usados aparecer a expressão "nunca foi guaribado" enaltecendo a vantagem do produto. Ora, um piano com décadas de existência em estado original é um verdadeiro atentado contra o bom senso. Só leigo cai nessa história de que piano "original" equivale a piano em ótimo estado, pois após dez anos um piano necessita necessariamente de trocas de alguns componentes. Logo, um piano que sofreu as devidas manutenções é desejável àquele que ficou jogado às traças. Agora, os pianos que foram mexidos por curiosos, os verdadeiramente guaribados, esses sim devem ser descartados.

Reformado
Ao cabo de um tempo, algumas das milhares de peças móveis do piano apresentam desgaste e devem sofrer ajustes e trocas. Um piano reformado por técnicos competentes é um bom sinal de confiabilidade.

Restaurado
A restauração implica, além dos serviços normais de reforma, no retrabalho do móvel. Devido ao custo da restauração, ela somente é recomendada para pianos de excelente pedigree.

Baby grand

Refere-se a pianos de ¼ de cauda cujas profundidades vão de 145 cm a aproximadamente 152 cm. Este tipo de pianos menores também são chamados no nosso mercado de "crapô" e "mignon".

Rebaixado
Piano com padrão de afinação do lá central definido abaixo de 440 hz. As razões que justificam tal procedimento são várias, entre elas:
- pianos antigos: o fato de rebaixar a afinação livra a estrutura já fadigada de algumas toneladas de pressão;
- pianos que não seguram mais a afinação padrão: há chance de funcionar baixando o diapasão antes de se partir para a solução radical e cara de trocar cravelhas e cepo;
- simpatizantes da nova onda dos 432 hz: dizem que é a frequência de ouro que produz harmônicos menos estridentes. Os pianistas que optaram por isso falam bem dos resultados.

Rebatido

Eventualmente as cravelhas passam a não segurar a gravação, então eles são batidas com um martelo com o fim de penetrarem mais profundamente no cepo. Só que este tipo de operação vale por um determinado número de vezes. Logo, na hora de examinar um piano usado preste atenção na largura entre as voltas de corda enroscadas ao redor da cravelha. As cravelhas que estiverem com as cordas encostando no cepo certamente inviabilizarão novas afinações das notas afetadas.

3 de dez de 2013

Palavras ao vento

Palavras nunca estiveram tão ao vento
Hoje elas são quase perniciosas viciosas apequenadas hashtags
Não confinadas a livros preferem a transitoriedade dos dispositivos
Nem sequer rimam em decassílabos agora soltas de formalidades
Sem eira nem beira palavras jorram a revelia de Shakespeare
Sem Machado de Assis sem o paradigmático James Joyce
Hoje elas são jornalísticas secas anêmicas raquíticas
Consumidores de fotos desdenham textos por não lhes apetecer semântica
E o mercado dominante pressiona deforma cria um novo léxico da pior estirpe
Tanto que palavras ao vento se tornou palavrão não mais metáfora poética
E o vento continua a carregar palavras vazias órfãs de densidade borgiana

26 de nov de 2013

10 defeitos mecânicos preocupantes na compra do piano

Quando você está examinando um piano para comprar, sendo novo ou usado, é muito importante que o mecanismo esteja íntegro e confiável. Por ser o elo de ligação entre a sua expressividade e a batida final na corda, deixar problemas para serem resolvidos depois da compra pode ser um ato temerário, pois o custo da reforma da mecânica pode equivaler ao valor gasto na compra do piano.

É oportuno esclarecer que vários defeitos apresentados aqui ocorrem também em Pianos Digitais. 

1) Grilo na mecânica

Todo o mecanismo emite algum tipo de ruído perceptível e não seria diferente com pianos acústicos e digitais. Contudo, o excesso de cliques e outros grilos podem ser intoleráveis no futuro. Portanto, na hora de examinar um piano, leve junto alguém que toque, para você ficar escutado ao redor e tentar ouvir ruídos espúrios que às vezes o próprio executante não percebe.

2) Folga nas teclas

É fácil constatar esse defeito, basta empurrar a tecla lateralmente. Se houver folga excessiva, significa que as buchas de feltro das cavidades que alojam os pinos estão gastas e devem ser trocadas.

3) Teclas presas

Num piano teclas presas não apontam para um probleminha e sim para o problemão do instrumento ter ficado muito tempo exposto à umidade. É pouco aconselhável comprar um piano com este perfil de uso. Como a mecânica dos Pianos Digitais é feita inteiramente de plástico, teclas presas indicam componentes quebrados, que devem ser substituídos ou colados por alguém devidamente habilidoso.

4) Teclado desalinhado

Este piano digital Kawai foi posto à venda com este pequeno defeito aparente. Quando as teclas não estão perfeitamente alinhadas, é sinal inequívoco de que o antigo dono tocou nele como se fosse piano acústico, o que é um erro, pois os mecanismos feitos inteiramente de plástico dos pianos digitais não aguentam o mesmo sarrafo que os pianistas sentam em cima dos pianos acústicos.

5) Som fanho

Num piano em estado normal de funcionamento você tem que premir um tecla e obter como reposta apenas um som límpido. Se algumas notas soam xoxas, significa que o martelo não está desgrudando da corda com a velocidade suficiente. Tal fato indica mecânica desregulada ou desgastada.

6) Toque irregular

Faça uma escala cromática usando todo o teclado e tente perceber se há diferenças de pressão para o acionamento das teclas. Nos pianos verticais é interessante fazer também a escala com o pedal de surdina acionado, pois se houver algum desbalanceamento, nesta condição ele se tornará flagrante. Uma vez detectado, a causa do desbalanceamento pode ser tanto uma simples desregulagem, quanto molas oxidadas e/ou cansadas, neste caso o orçamento do conserto pode fazer jus ao adágio popular "o barato que sai caro".

7) Notas que continuam soando

Com o tempo e o uso os feltros dos abafadores acabam se desgastando. Numa primeira instância é possível que uma regulagem dê conta do problema, mas em casos avançados só a substituição dos feltros resolve a situação.

8) Questão de peso

Para avaliar este quesito você tem que ter a exata ideia da sua pegada preferida: leve, média ou pesada. Logo, a pessoa deve ter certeza do seu toque antes de comprar um piano macio, equilibrado ou duro.

9) Teclas emudecidas

Na hora de avaliar um piano, fuja das explicações simples do tipo "é só afinar e regular". Teclas que não percutem as cordas podem significar desde defeitos bobinhos até demandar reforma completa da mecânica devido ao desgaste dos martelos e demais componentes.

10) Agudos muito débeis

Pode indicar desde problemas de entonação a martelos excessivamente gastos. Além disso, pode ser que o piano seja ruim de agudos, o por característica do projeto de escala, ou devido à perda do coroamento (curvatura) da tábua harmônica.


Toque final: numa situação ideal, a compra de um piano usado não deveria ser na base da loteria, pois o comprador tem o direito de ver o instrumento afinado e regulado no momento de examiná-lo e experimentá-lo. Na prática as coisas nem sempre correm assim, muito antes pelo contrário. Não vã esperança de aproveitar a pechincha, o comprador pode cair numa armadilha que termina custando mais do que ele pagou pelo piano.

17 de nov de 2013

Beber cerveja socialmente é alcoolismo? A doce ilusão do vício leve.

por

Com esse artigo entenda porque o Brasil é um dos campeões mundiais de mortes no trânsito, afinal, bêbados não dirigem sozinhos; carregado de familiares e amigos, se despedaçam contra desconhecidos, normal, porque aqui encaramos o ato de beber uma cervejinha como um gesto mínimo de socialização.


Tanto a sociedade quanto as redes sociais endeusam a cerveja, glamourizam um estilo de vida que pode ser doentio, doentio porque se trata do consumo contínuo de substância tóxica.

Por que deveríamos nos preocupar com um hábito tão inocente arraigado até mesmo em festinhas de comemoração de aniversário de um ano? Porque o nosso coração deve ser movido pela compaixão, porque dói ver parentes e amigos mergulhados num vício insidioso sem terem a mínima consciência.

Ao contrário dos destilados, cujos usuários desenvolvem alguma autoconsciência de que alguma coisa vai errada, os bebedores habituais de cerveja seguem a vida flanando alegremente entre happy hours, comemorações e churrascos de fim de semana.

Nas redes sociais é fácil vislumbrar o "dependente social"; a cerveja aparece como uma espécie de leitmotiv, fio condutor para a vida, o dependente constrói seu centro de gravidade em torno do ato de beber, inclusive, toma decisões em função dele.

Mas porque deveríamos nos preocupar com um hábito tão inocente? Simplesmente porque o alcoolismo crônico, além de deteriorar o organismo do sujeito, termina corroendo as relações familiares e sociais. Digamos assim, é uma bomba relógio não muito bem percebida pela sociedade porque acontece lentamente ao longo do tempo. Dificilmente alguém lembrará que aquele bebedor pesado passou anos pela fase do beber social integrado na família e no círculo de amigos, até ter seu corpo inteiramente possuído pela fissura por bebida.

Contudo, a nódoa não é somente individual, aqui não se trata apenas da decrepitude do indivíduo. Quando falamos do hábito socialmente consagrado de tomar cerveja, temos sempre que levar em conta de que o bebedor social é solidário, ou seja, ele arrasta constantemente parentes e amigos para o hábito e os lugares. Ele convida, alicia, incita, tenta, "só desta vez" é o seu lema prontamente disparado aos recalcitrantes. Ocasionalmente as pessoas do seu círculo mais próximo de relações ficam de porre solidário devido ao poder persuasivo do cervejeiro(a), afinal, ou são pessoas amadas e muito próximas, ou magnéticas e cativantes, ou tudo isso junto.

Com o tempo, as zoeiras se tornam cada vez mais pesadas, fato que afasta as parcerias menos engajadas no vício, inclusive a família. Assim, algo que nasce insuspeitadamente no seio da família, pode ganhar as ruas. Contudo, observa-se que a maioria dos bebedores, alcoólatras em estado latente, se mantém agregada e acolhida no interior da família. Enquanto isso cooptam um ou outro para as jornadas etílicas de fim de semana.

Por isso aqui vai o alerta sobre as diferenças entre consumo moderado e crônico de psicotrópicos, que por serem muito tênues, é de difícil diagnóstico. Talvez você conviva com um alcoólatra e não saiba, pior ainda, talvez VOCÊ seja O alcoólatra sem nunca ter suspeitado, parado para analisar o seu grau de dependência. De qualquer maneira, tolerar o alcoolismo de incipiente de familiares e amigos é a mesma coisa que abraçar um rabo de foguete.

Leitura adicional sobre vícios leves:

16 de nov de 2013

Consumir gorduras causa obesidade

por Isaias Malta
A esclarecedora entrevista na revista Ciência Hoje nº 309 (disponível em PDF*) com o maior especialista em obesidade do país alerta para as causas da proliferação da "onda gorda" observadas nas ruas dos centros urbanos.

Como a minha intenção não é reproduzir literalmente aqui o texto publicado, pinçarei alguns tópicos importantes e tecerei algumas reflexões que ajudarão a organizar os pensamentos sobre essa doença.

- Obesidade é um processo inflamatório causado por dieta rica em gorduras saturadas;

- o especialista não menciona especificamente a gordura vegetal do tipo TRANS, não aqueles alimentos onde está escrito bem grande "LIVRE DE GORDURA TRANS", mas aqueles em que ela vem de maneira disfarçada, salgadinhos, doces, hambúrgueres, nugets, pipoca de micro-ondas, batatas fritas industriais, etc;

- o aparecimento da obesidade é provocado pela inflamação do hipotálamo e a consequente destruição dos neurônios responsáveis pela sensação de saciedade;

- gordos têm real predisposição genética para ser gordos, isso significa que se duas pessoas com programação genética diferente comerem os mesmos alimentos, há uma possibilidade de 50% de uma engordar e a outra não;

- uma forma de provocar a neurogênese (reconstituição dos neurônios perdidos) da área destruída do hipotálamo seria a administração de doses terapêuticas de gorduras insaturadas do tipo ômega 3 e ômega 9. O que não é esclarecido no texto é que para a suplementação surtir efeito, necessariamente o paciente deverá se abster do consumo de gorduras saturadas animais e vegetais TRANS. Essa é a parte nevrálgica, pois implica em mudança de hábitos e não na cura milagrosa através da pílula mágica. Com isso caímos no deserto do real: qual é a força de vontade dos pacientes em abandonar frituras e o ritual litúrgico do churrasco aos domingos?

- a cirurgia bariátrica, apesar de ser um remédio extremado para casos extremos, revela-se de alcance limitado no decorrer dos anos. Com o fim dos efeitos, muitos pacientes voltam a ganhar peso, apesar de continuarem com as sequelas que os impede de absorver nutrientes e vitaminas.


15 de nov de 2013

O intrigante piano de molas

por
Sabe qual é o piano de molas? Por serem máquinas, todos são! Porém, alguns são mais do que outros, particularmente os pianos verticais, também conhecidos como pianos de armário.

O funcionamento do mecanismo concebido para os pianos verticais depende exclusivamente do bom desempenho de centenas de molas, pois o retorno dos martelos ao estado de repouso não ocorre por gravidade [como acontece nos pianos de cauda] e sim pela pressão exercida por molas, que devem estar intactas e equanimemente tensionadas, para que a uniformidade do toque seja garantida.

Em pianos novos tudo é uma maravilha, pelo menos enquanto as molas funcionam em uníssono, como se integrassem uma orquestra! Contudo, com o tempo de uso avança a fadiga dos metais, a ferrugem e as deformações, então os pianos verticais tendem a apresentar irregularidades no toque próprias deles. Para testar, basta tocar com o pedal abafador acionado e você poderá constatar possíveis problemas. Nessa posição em que o pedal abafador aproxima os martelos das cordas, qualquer desalinhamento entre os martelas é ampliado, ou seja, você conseguirá perceber bem melhor as irregularidades. Em pianos mais antigos, que não sofreram reforma séria nos últimos anos, é impossível usar razoavelmente o pedal da esquerda em virtude da desregulagem e desgaste das peças e a desuniformidade na tensão das molas.

A parte ruim da história é que a cessação dos sons também depende da ação de molas. Enquanto nos pianos de cauda os abafadores repousam em cima das cordas, não custa lembrar que, pelo fato das cordas dos pianos verticais estarem na vertical, os abafadores só são mantidos grudados nas cordas enquanto as molas que os empurram estiverem íntegras. Logo, é mais um fator na cadeia de fragilidades que uma mecânica construída verticalmente tem sobre outra disposta horizontalmente, esta que exige do pianista o único esforço de se embater contra a força gravitacional, que garantidamente exerce a mesma pressão sobre todas as peças.

Na cruzada contra as forças que mantém as peças da máquina pianística em repouso, quem tem mais sucesso são os felizardos que tocam em pianos orquestrais imensos, com mecanismos igualmente imensos que se aproveitam na plenitude do efeito alavanca (veja tocabilidade e efeito alavanca neste link). Assim, se tivermos que estabelecer uma escala crescente de tocabilidade no mundo dos pianos, teremos como menos tocáveis os verticais pequenos, passando pelos modelos médios até os grandes. Depois, a escala progride pelos diversos tamanhos de pianos de cauda até chegarmos ao modelo de perfeição, o rei dos pianos, o Grande Concerto, ironicamente (por ser exclusivamente destinado aos virtuoses), é o mais fácil de ser tocado porque é o que apõem menos inércia contra as investidas do executante.

Em caso de reforma do mecanismo de pianos verticais, se a coisa é encarada seriamente, TODAS as molas devem ser trocadas e não somente as detonadas, pois as novas tensionam mais fortemente do que as antigas.

Leia também:
Toques sobre reforma de pianos verticais: Replacing Upright Hammer Butt Springs
Diagrama do mecanismo: The Inner Workings of One Note in an Upright Piano

1 de nov de 2013

Cuidado com os anúncios maliciosos do Facebook!

Sabe aqueles pequenos anúncios pagos na coluna direita da página do Facebook? Alguns deles direcionam o usuário para página de phishing (página falsa que imita um site verdadeiro e cujo propósito é inocular vírus), ou página dedicada exclusivamente a fazer download de vírus no seu computador, tablet, smartphone.

Dificilmente o Facebook tem condições de checar o link de todos os anunciantes, mais ainda, como se trata de dinheiro entrando na caixinha, suspeita-se que eles não tenham lá muita vontade de fazer isso. Você não vê um botão de denúncia na coluna dos anúncios patrocinados, no máximo pode fazê-lo sumir da sua timeline apertando o "X" ao lado direito do anúncio.

O diabo é que os anúncios maliciosos são os mais atraentes! Este aqui promete revelar um vídeo do PM sendo preso depois que alvejou um bandido motoqueiro:

Aí, na suposta página do "Jornal da Globo" (http://jornaldaglobonews.com.br/) você descobre que se trata de uma clonagem da página real do Jornal da Globo, cujo endereço logicamente é diferente do site real (http://g1.globo.com/jornal-da-globo/).

Todos os links existentes na pretensa página "Jornal da Globo News" direcionam para um atualização do Adobe Flash Player. É nesse momento que o pessoal inocula o vírus, quando o usuário incauto, na ânsia de ver o conteúdo do vídeo, aceita a falsa atualização.

Outro anúncio (infelizmente não fiz o print-screen) mostra uma imagem de uma garota na frente da webcam prometendo "Tiro mais [roupa] na medida do aumento das visualizações". Quando o incauto acessa o site, um script dispara automaticamente o download do vírus "install.exe".


Em tempo: não confundir os anúncios acima com aplicativos maliciosos. Este promete revelar um vídeo bombástico de flagra, mas requer a instalação de uma "atualização de segurança", que provavelmente é uma extensão que vai transformar o seu browser numa usina de propagandas, que vai usar a sua conta do Facebook para mandar SPAM, etc.

26 de out de 2013

Piano nu: os 3 tipos de sonoridades

por
Um pouco de simplificação às vezes ajuda na escolha de um piano. Se pensamos em apenas 3 grandes grupos de sonoridades, fica mais fácil determinar para que lado pende o nosso gosto. Vale lembrar aqui que a sonoridade depende em grande parte do tipo de preparação a que o piano foi submetido. Logo, ele pode se transformar facilmente de "asiático" para "americano" depois de uma regulagem, entonação e afinação apropriados (só não espere que ele vire magicamente num Modelo D). Entretanto, isso não quer dizer que o piano não mantenha de certa forma latente a sua "personalidade" original. Por ser a primeira impressão um fator decisivo na hora da escolha de um piano, dificilmente o comprador aceitará que uma determinada peça conquistará o seu coração depois de preparado, por isso felizmente os compradores acabam optando pelo piano em função das suas características mais verdadeiras e não seduzido pelas possíveis maquilagens que o afinador possa fazer para agradá-lo.

Sonoridade do tipo "asiática"
Uma das características mais frequentes nos pianos asiáticos, japoneses, coreanos, chineses ou indonésios, é o som mais aberto, estridente até, pendendo para o metálico. Por outro lado, a grande diferença de preços entre os pianos produzidos em massa no oriente e aqueles feitos do lado de cá ditos "fabricados à mão" reside na questão da profundidade tonal. Vale a pena ler a resenha escrita pela concertista Judith Cohen contemplando 5 marcas de pianos chineses de tamanho profissional e apreciar o veredito final.

Na hora de escolher um piano para crianças e adolescentes, em atenção à característica da sua audição responder melhor aos agudos, opte sem medo de errar por um asiático justamente pela sua sonoridade brilhante.
Nota: todo o piano asiático nasce com a ambição de ser um europeu. Não é à toa que os asiáticos compraram muitas fábricas do velho continente para assimilar todo o know-how responsável pela manufatura dos melhores pianos do planeta.

Sonoridade do tipo "americana"
A sonoridade peculiar deste velho Sohmer e Co. nada tem a ver com os pianos fabricados atualmente nos EUA. Mesmo assim, ela exemplifica um tipo de ressonância mais escura, fechada, morna, aveludada, certamente não adequada para expressar os jorros lisztianos, mas plenamente capaz de emoldurar o caráter intimista dos autores franceses.

Mesmo que não seja possível generalizar uma sonoridade "americana" para os pianos americanos, é nesse diapasão que podemos avançar no assunto da diferenciação entre os pianos Steinway fabricados na matriz de Astoria-NY-USA e os congêneres produzidos na filial de Hamburgo-Alemanha. Ouça no vídeo a seguir as 2 versões do Impromptu de Schubert tocadas num Modelo D de Nova Iorque e num Modelo D de Hamburgo e depois me diga se não podemos falar de uma sonoridade americana.

Sonoridade europeia
É ambiguamente difícil e fácil de falar sobre a sonoridade europeia, pois ela é predominante na maioria das gravações eruditas que ouvimos, mais especificamente, o modelo D fabricado em Hamburgo-Alemanha pela Steinway.
Se ele é o modelo padrão a ocupar as salas de concerto do mundo todo, então podemos dizer que tal estética sonora, que podemos denominar de "grife" europeia, é o sucesso musical mais duradouro do planeta. Tal sonoridade europeia é caracterizada pelo maior foco nas notas fundamentais. Suas principais características são a tocabilidade do outro mundo, qualidade do cantábile, clareza, responsividade estonteante, robustez, riqueza e profundidade das cores tonais, sustentação longa, percussividade, precisão nos ataques (devido ao feltro empregado nos martelos ser originalmente duro e posteriormente submetido ao agulhamento, até atingir a maciez desejada). Sinceramente, os virtuoses de pedigree suficientemente merecedores para possuir um desses, atingem o estado do nirvana dos pianistas!

16 de out de 2013

O inimigo público número 1 do emagrecimento

por
Se você chegou até aqui é porque está curioso de que raios de inimigo será esse! Então façamos pouco de enrolação, não é açúcar branco, frituras, não é o tipo de alimentação, não é o fracasso da dieta, não é o sedentarismo ou falha no programa de exercícios, não é leseira do nutricionista, não é nada disso.

Meu irmão acaba de declarar todo alegre que está iniciando novamente um regime, só que dessa vez será para ir a fundo, segundo ele. Ora, mais um reflexo deste setembro (o mês hemisférico dos inícios de dieta) que nesse bombou total, pois vejo uma correria de fofinhos e fofinhas se puxando de todos os jeitos.

Só que tem um problema... o ano não é composto apenas de setembro e do seu sucessor, dias excitantes de ares primaveris, que as pessoas inalam a plenos pulmões e fazem juras eternas à boa saúde. O ano lança logo ali tentações irresistíveis para os amantes do bom garfo e da boa bebida. Novembro enfarrusca o tempo com churrascos, formaturas, jantas de firmas, confraternizações e as sonhadas festas de fim de ano, capazes de inflar quatro quilos de gordura nos setembristas bem intencionados somente na última semana do ano entre natal e réveillon!

Nessa altura do campeonato você já deve ter matado a charada proposta neste texto ao suspeitar que o maior inimigo do emagrecimento é o tempo. O tempo é o fator determinante do desmilinguir das intenções, é o pai do famoso efeito sanfona.

Para combater os efeitos do tempo, a fórmula é simples de explicar e difícil de seguir. Em 1º lugar você deve responder sinceramente se o seu negócio é conseguir emagrecer para satisfazer um motivo ou outro ou se a coisa é pra valer, mudar o estilo de vida. Caso você se enquadre na 1ª resposta, então siga algum tempo uma das dietas da moda, mas não nutra grandes esperanças de vencer o inimigo.

Agora, se a sua decisão é ir efetivamente a fundo, então faça um teste: assuma o compromisso moral de cancelar todas as comilanças de fim de ano que os endiabrados meses de novembro e dezembro carreiam. Isto significa planejamento; a única forma de derrotar o tempo é trabalhar adotando as suas próprias regras. Isso significa renúncia? Sim. Isso significa dor? Talvez. Isso significa atitude antissocial? Sim, se não gostarem do fato de você comparecer e ficar tomando água mineral enquanto todo mundo enche o pandulho.

O método para derrotar o tempo é tão banal quanto prescrever a um viciado em sexo que deixe de frequentar puteiros, ou a um drogado que abandone as bocas de fumo. Contudo, para o gordo nada disso é óbvio porque o grande palco das suas orgias é encenado no seio da sacrossanta família e entre as pessoas mais amicíssimas.

Ninguém suspeitaria de um dependente se drogando numa festinha de aniversário um ano de um anjinho! Ninguém suspeitaria de um drogado consumando seus prazeres numa confraternização de amigos! Portanto, se o rito alimentar virou drogadição, o tempo nunca será seu aliado, a menos que seja usado para decretar moratória, que sirva para você pensar em termos mínimos de 5 anos. Aí vou acreditar nas suas promessas do tipo "comecei o regime de novo e vou ver se vou a fundo desta vez...".

Veremos se nos próximos 5 anos poderemos retirar as reticências...

10 de out de 2013

Dimensões da interpretação pianística com exemplos

por
Reconhecer as qualidades de uma execução é um dos grandes prazeres reservados aos ouvintes. Normalmente, quando vemos críticas sobre uma determinada peça, termos como "paleta de cores", "fluidez", "respiração", "clareza" costumam ser empregados. O que a princípio parecem ser julgamentos apriorísticos e puramente subjetivos, são instâncias que se repetem e que o ouvido pode começar a vislumbrar, desde que tenha acesso ao treinamento adequado e este treinamento só é obtido ouvindo, estudando, perscrutando e ouvindo mais ainda.




Fraseado: Maria João Pires
Fraseado significa incorporar na execução o ato da respiração e isso concede uma fluidez toda especial, cativando o ouvinte pela organicidade. Uma das pianistas detentoras de um dos fraseados mais lindos que conheço é a portuguesa Maria João Pires. Veja como ela faz o seu Scarlatti respirar, um compositor visto tradicionalmente como autor de 555 sonatas pedagogicamente áridas.

Precisão: Arturo Benedetti Michelangeli
Clareza, regularidade rítmica e fidelidade à partitura são qualidades não raras vezes transformadas em pejorações do tipo "pianista cerebral", "pianista metronômico", "pianista robótico", etc. Entretanto, é essa classe de pianismo que pode nos descortinar quiçá as reais intenções do compositor. Intérpretes do porte de um Artur Schnabel, Josef Hofman, Claudio Arrau, Alfred Brendel, Rudolf Serkin, Wilhelm Kempff, Pierre-Laurent Aimard e, naturalmente Michelangeli além de nos concederem o seu lirismo, nos legaram o total respeito à obra dos autores, sem se deixarem cair na tentação dos rasgos perfunctórios e dos rubatos egocentristas.

Articulação: Glenn Gould
A capacidade de destacar as notas de maneira límpida, situando a execução entre o staccato e o legato, foi a marca registrada deixada por Glenn Gould, que desenvolveu arduamente esta técnica conjuntamente com o seu mestre Alberto Guerrero. Uma das herdeiras dessa escola é a fantástica pianista e professora canadense Angela Hewitt.

Dinâmica: Ernst Levy
O poder de fazer o piano emitir sons fracos e fortes constitui a essência do instrumento e os grandes contrastes caracterizam o périplo musical de Beethoven. O pianista do vídeo acima exemplifica o triunfo da técnica e o terror dos técnicos de estúdio que se meteram a gravar a façanha.

Colorido tonal: Guiomar Novaes
Estranhamente, mesmo o piano disponibilizando notas fixas e estanques por acionamento indireto através de teclas, há todo um jogo de sonoridades possíveis a ser explorado pelo uso sutil e intensivo dos pedais. E na história da música não há que mais tenha convertido em realidade a famosa técnica de uso dos pedais do professor Luigi Chiaffarelli do que a grande Guiomar Novaes. Assim, aliando o toque de natureza única à destreza do uso dos pedais, esta pianista consegue exprimir uma fecundidade tonal jamais vista na história do piano!

Cantábile: Vladimir Horowitz
Um dos grandes paradoxos que cerca o piano é a possibilidade de se fazer cantar um instrumento fundamentalmente percussivo. Contudo, este dom só é permitido aos titãs dos teclados, aos que imortalizaram seus nomes na história do piano. A execução privilegiada com cantábile mais comovente e arrebatador nos foi legada por Horowitz, único e eterno!

6 de out de 2013

Darwin caçando macacos prego??!!!

Nessa parte de seu diário Darwin descreve suas observações e experimentos com planárias terrestres. Ao final, descreve sua participação em uma caçada, quando observou a grande destreza dos brasileiros no uso da faca.

Os brasileiros são tão destros na faca que são capazes de atirá-la com certeira pontaria a alguma distância, e com força suficiente para infligir um ferimento mortal. Vi um número de meninos que praticavam a arte como meio de diversão, e, pela habilidade com que acertavam o alvo, um pau vertical, muito prometiam para o caso de empreendimentos mais sérios. (Darwin, 1832)


Estranha-se o fato de um naturalista participar de uma caçada, onde morreram macacos-prego, papagaios e tucanos, mas lembremos de que no Brasil de 1832 via-se o ambiente natural como algo inesgotável, especialmente porque e a mata Atlântica ainda era uma densa e gigantesca floresta.

Veja o texto completo “Darwin e as planárias terrestres”. 


28 de set de 2013

9 Virtudes do piano através de exemplos

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Uma das decisões mais difíceis é a escolha do piano certo. Apregoa-se que se você não for escolhido por ele, jamais tal união resultará num casamento feliz. Contrário senso se houver verdadeira afinidade, os anos vindouros serão longos e prósperos. Antigamente só havia duas opções, ou você dispunha de rios de dinheiro para adquirir um exemplar das marcas famosonas, ou tinha que se contentar com um instrumento produzido em massa e de baixa qualidade. Felizmente, o estado da arte atual diminuiu o abismo entre o impossível e o realizável, talvez porque as madeiras tenham piorado no mundo inteiro, talvez porque os instrumentos fabricados em série tenham evoluído até um patamar altamente aceitável.

1) Riqueza harmônica: os sons harmônicos parciais definem a "impressão digital" do piano. Quanto mais houver, maior é a gama de matizes e cores e tal característica atesta a qualidade das madeiras empregadas nas partes acusticamente ativas. Portanto, o gostar ou não de um piano tem a ver em grande parte não tanto com a percepção das notas fundamentais, mas dos seus harmônicos. Em geral os pianos asiáticos tendem a ter sonoridade mais plana (contudo, mais franca e aberta), enquanto os pedigrees europeus se caracterizam pela profundidade dos matizes (por conseguinte, mais fechados e intimistas).
Uma música que explora bem os harmônicos é a IIª parte "Le Gilbet" de "Gaspar de la nuit" de Maurice Ravel.

2) Repetibilidade: teclas são percutidas com velocidade impressionante e o mecanismo deve ser ágil suficientemente para transformar o impulso mecânico em tangimento das cordas.
A sonata K. 141 de Scarlatti é uma peça boa para se testar o grau de repetibilidade do mecanismo de um piano.

3) Sustentação: é o poder do piano de deixar as notas soando quando o pedal direito afasta os abafadores das cordas. Qualidade da madeira usada na tábua harmônica, projeto de escala, excelência das pontes, qualidade das cordas, tudo influencia no aumento do tempo de sustentação.
Este conhecidíssimo prelúdio em dó sustenido menor de Rachmaninoff usa e abusa das notas de pedal que ficam soando bastante tempo.

4) Clareza: as notas devem ser ouvidas limpidamente, principalmente os agudos, que devem se assemelhar a sinos.
Essa claríssima interpretação da "Alborada del gracioso" de Ravel atesta o que estou falando.

5) Tocabilidade: é a capacidade do piano em responder prontamente ao comando do executante.
O exímio pianista Hercules Gomes demonstra como "esmerilhar" um piano em busca da tocabilidade perfeita!

6) Ressonância: todo o piano é uma grande caixa de ressonância, ou deveria ser. Dependendo como é construída essa caixa, das madeiras empregadas, ela terá maior ou menor poder de ressoar de maneira verdadeiramente magnífica.
Uma música ótima para testar a dignidade de um piano neste quesito é o prelúdio número 10 de Debussy "La Cathedrale Engloutie", com seu excessivo trabalho de pedal emoldurando notas rarefeitas e ecoantes, todo o sentido da peça fica à cargo da ressonância.

7) Dinâmica: o próprio nome original piano-forte diz tudo; o piano foi concebido para expressar grandes contrastes sonoros.
A introdução da famosa sonata nº  8 em dó menor de Beethoven fornece a medida exata para se averiguar o quanto um piano consegue trealizar a sua finalidade, ou seja, ser capaz produzir sonoridades que vão desde o débil pianíssimo ao fortíssimo.

8) Canto: como é que pode um instrumento essencialmente percussivo "cantar"? Eis um dos mistérios da fé compartilhada pelos amantes deste instrumento!
A peça de Bach (transcrita por F.Busoni) "Ich ruf zu dir" traduz muito bem como o "cantar" é um tipo de demanda que um instrumento estritamente percussivo como o piano tem de enfrentar. Certamente há pianos excessivamente percussivos ineptos para o canto, logo, são instrumentos a se evitar!

9) Sensibilidade: de todos os dons esperáveis num piano esse é o mais sublime, pois traduz um dos aspectos da sua essência dualística. Assim, emitir notas nítidas e homogêneas mesmo com baixo volume requer a concorrência de vários fatores que vão desde o apuro na fabricação do piano, à preparação e à técnica impecável do executante.
Para ilustrar o pianíssimo vêm-me à mente essa execução do adagio da transcrição feita por Bach do concerto para oboé de Alessandro Marcello.

Naturalmente, as performances aqui elencadas foram realizadas em pianos orquestrais das melhores estirpes, cordas longas, possuidores de baixa inarmonicidade e preparado pelos melhores técnicos do mundo. Entretanto, resta aos reles mortais contemplar os paradigmas de comparação, que podemos chamar de perfeitos, e tentar extrapolá-los, dentro dos limites plausíveis, aos pianos comuns e correntes disponíveis nas lojas, que estão ao nosso alcance financeiro, desde os verticais aos cobiçados pianos de cauda.
Veja que, se não falo de marcas é porque não acredito no consenso universal sobre tal ou qual, mas que a infinita graduação dos gostos e sentimentos das pessoas torna necessária a miríade de opções que temos hoje no mercado. Em face disto, atribuir virtudes a um piano ou negá-las em função da marca é um atalho perigoso de renúncia à própria subjetividade.

21 de set de 2013

Principais sintomas sofridos pelos sensíveis ao glúten

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Glúten é uma palavra do latim que significa cola. É uma proteína vegetal encontrada nos grãos de trigo, aveia, centeio, cevada e triticale. É a alegria da indústria alimentícia, pois faz os alimentos descerem "redondo" assim como dizia a propaganda da cerveja. Por isso a indústria dá um jeito de enfiar glúten em quase todos os seus produtos, aliás, a cerveja só desce redonda justamente porque o glúten é um dos seus principais ingredientes.

Mas, afinal, se o glúten é uma substância de origem natural, porque há tanta gente caluniando-o? Vamos por partes, há dois grupos distintos de pessoas que não toleram glúten: o 1º é constituído pelos portadores de doença celíaca, e o 2º pelos indivíduos sensíveis ao glúten, mas não completamente intolerantes. Ora, os sensíveis representam o maior contingente, pois normalmente conseguem conviver com os sintomas nocivos ao longo dos anos sem se darem conta do quanto a sua qualidade de vida aumentaria se simplesmente erradicassem o glúten da dieta.

Alguns dizem que a espécie humana ainda não se adaptou geneticamente ao consumo de glúten, pois na história humana só recentemente as sociedades abandonaram o estilo de vida nômade e se fixaram na terra, logo, adotaram a agricultura e passaram a consumir grãos. Os médicos, naturalmente, alegam que tudo isso não passa de bobagem, pois não há comprovação científica sobre os malefícios do glúten. Entretanto, muitos sofrem anos sem saber de uma "bobagem" que os médicos se recusam sequer a experimentar, optando logicamente pela abordagem farmacológica tradicional, que apresenta no máximo efeito paliativo, mas resolve os problemas financeiros da superpoderosa indústria farmacêutica.

- obesidade mórbida: provavelmente, este tipo de obesidade extrema somente se tornou possível com o advento dos alimentos industrializados supercalóricos ricos em glúten, açúcares e gorduras.

- compulsão alimentar: por que os rodízios de pizza fazem tanto sucesso? Porque as pessoas comem como animais famintos. E por que elas comem até ficarem enjoadas? O ato de comer sem parar e sem encontrar a saciedade está diretamente relacionado à ingestão massiva de glúten, que devido às grandes quantidades de prazer provocado, demanda mais e mais ânsia por prazer.

- flatulência: essa foi a questão primária que me levou a fazer o testes de abstenção de glúten; uma vida inteira de problemas diários com gases. E os resultados foram para lá de satisfatórios!

- osteoporose: a assimilação do cálcio é mais complicada do que se pensa, por isso os organismos que apresentam dificuldades de quebrar a proteína glúten são mais propensos a ter o seu ciclo de absorção de cálcio prejudicado.

- diarreia: um problema aparentemente exclusivo dos celíacos, pode ocorrer em indivíduos que apresentam algum grau de intolerância ao glúten.

- candidíase: é impressionante a quantidade de artigos encontrada na internet relacionando glúten a esses fungos que tanto mal causam.

- enxaqueca: leia o depoimento no link abaixo e depois me conte!

- ganho ou perda de peso: nos celíacos a diminuição de peso é o resultado mais óbvio, nos portadores de sensibilidade leve o ganho de peso e o consequente aumento da circunferência abdominal é notável. Donde se conclui que o mesmo mal pode causar danos discrepantes, dependendo do grau de intolerância.

- falta de lubrificação genital: os diversos tipos de ressecamento experimentado pelos celíacos, pele, olhos, boca, configurando a síndrome de Sjogren, é observável também nos pacientes sensíveis ao glúten, mais especificamente o ressecamento dos órgãos genitais vagina e glande.

- irregularidades no ciclo menstrual: mulheres sensíveis ao glúten tendem a sofrer irregularidades menstruais.

- dores musculares e nas juntas (articulações): este foi o primeiro benefício que notei quando parei de consumir glúten, mesmo depois de exercícios vigorosos, deixei de sofrer as consideradas normais dores e enrijecimento muscular no dia seguinte.

- constipação: sintoma clássico tanto dos celíacos como os portadores de alergia ao glúten em menor grau.

- barriga inchada (distensão do abdômen): um dos grandes motivos que me levou a erradicar o glúten foi este, pois desde que me conheço por gente tenho a barriga inchada, graças à inflamação crônica caudada pela ingestão de glúten. Você já parou para pensar que alimento é mais repetido na sua dieta diária? Sim, o pão da oração! Santo alimento que também pode ser o inimigo oculto!

- diabetes: sim, o consumo de glúten pode piorar o quadro de quem é disposto ao diabetes, ou já é portador dessa doença autoimune.

- baixa libido: o estresse das glândulas suprarrenais causado pela sensibilidade ao glúten desvia a produção de precursores de hormônios sexuais para a produção de energia e o resultado é desastroso para o desejo sexual.

- pele seca (xerose): um sem número de problemas capilares estão associados ao consumo de glúten, entre eles, o mais prosaico e não menos incomodativo é o ressecamento da pele, fato que obriga principalmente as mulheres a gastarem os tubos em cremes hidratantes.

- alergias (respostas autoimunes): as pessoas mesmo com leve grau de intolerância ao glúten podem desenvolver anticorpos à proteína, fator que desencadeia repostas autoimunes de diferentes naturezas, indo da artrite à asma podendo se redundar no quadro mais grave em diabetes.

- asma: o fato de ter participado recentemente do enterro de uma jovem de 29 anos vitimada pela asma me leva a perguntar se uma morte não teria sido evitada pelo simples fato da moça ter aceitado a ideia de eliminar o glúten da dieta (se isso tivesse sido sugerido aos pais, talvez o resultado tivesse sido outro, porém, normalmente, as pessoas tendem a se fiar apenas na opinião intransigente dos médicos, que desconhecem o assunto). Seus pais alegam que ela não se cuidava e isso inclui a dieta, pois algumas renúncias dolorosas devem ser feitas em nome da saúde, principalmente dos portadores de alergias letais.

Conceito de permeabilidade intestinal
Para entender os malefícios causados pela cola formada pelo glúten que adere às paredes dos intestinos é recomendável se informar sobre a questão da permeabilidade intestinal.

8 de set de 2013

Porque odiei o filme Guerra Mundial Z?

A temática zumbi há muito tem sido frequentada pelo cinema. Em Cuba, uma taxista nos garantiu que os zumbis existem realmente (no Haiti, produzidos por magia negra) e que são utilizados em trabalho escravo. Afinal, o que você faria com um morto-vivo sem vontade própria?

Então, sendo um tema quentíssimo, me dispus a levar a minha pipoca para a frente da telona do projetor para ver mais esta produção hollywoodiana. E a experiência foi decepcionante porque é nitidamente um filme feito para ter sequência. Eles simplesmente renunciam a qualquer tentativa de explicação "científica" sobre as causas do fenômeno. Vírus ou bactéria? Como um espectador nerd, sai frustrado porque o roteiro desvia olimpicamente do aprofundamento, mais ainda, adota o pressuposto teórico imbecil de que a melhor maneira de ficar invisível aos zumbis seria a autoinfecção com uma doença mortal.

Os roteiristas perderam uma ótima oportunidade para esmiuçar o drama da zumbificação vivido nos nossos tempos. Na vida real, ao contrário do filme, vejo nitidamente a causa da proliferação dos nossos zumbis: a necessidade premente de conexão mandatória e imperativa.

Você pode passar uma semana, um mês, quiçá um ano teclando furiosamente o seu celular noite e dia, mas posso lhe garantir que ao cabo de alguns anos o seu cérebro terá se transformado numa geleia mole. Acho que no fundo e canhestramente é isso que este Blockbuster tenta nos passar; os futuros milhares, milhões de zumbis sequelados pela ansiedade provocada pela voracidade conectiva. Em tempo: quando os zumbis são deixados a esmo, sem nenhum estímulo auditivo, ficam se mexendo intranquilamente a todo o momento, mas estáticos e silenciosos, no máximo batendo os dentes – provando que nem a zumbificação elimina a ansiedade.

Não gostei daquele mar de zumbis se movimentando no filme, apesar de flagrá-los nas ruas, dirigindo carros, atendendo nos balcões de comércio, etc. Sou servido por zumbis, transportado por zumbis e almoço com zumbis, mas não gosto da ideia de ver um filme se desperdiçar tanto nos efeitos especiais de multiplicação de zumbis, que inundam as ruas e se amontoam aos milhares para sobrepujar o muro inexpugnável de Jerusalém.


Talvez eu não tenha gostado do filme por ter sido fantasioso demais ou realista demais? Talvez eu não tenha gostado porque ele não quis se apropriar do paralelo que acontece no mundo real. Estamos nos zumbificando e não nos damos conta disso, certamente, até porque a inconsciência é uma das principais característica da existência dos mortos-vivos.

4 de set de 2013

3ª parte – Comparativo entre pianos caros e baratos: Cepo e Madeiras

Nesta nossa pequena digressão sobre as diferenças entre pianos caros e baratos, chegamos ao "X" da questão, a parte onde realmente "a porca torce o rabo".

É exatamente neste item que as diferenças de preço entre os pianos disponíveis no mercado se justificam mais. Mesmo que a peça seja feita de tradicionalmente de compensado, como o Cepo, o custo de produção quando são utilizados insumos de primeira aumenta exponencialmente. Então, o abismo gritante entre Fazioli, Steinway, Sauter, Steingraeber, August Forster, etc, e os outros não pode ser relegado à uma questão de grife, pois há pormenores praticamente invisíveis definidores de qualidade, é o que vamos ver.

Qualidade do cepo
À esquerda cepo de piano caro com 7 camadas de madeira densa, à direita cepo de piano barato formado de dezenas de lâminas para compensar a baixa rigidez da madeira.
O cepo é uma prancha de madeira onde as cravelhas de afinação são atarraxadas. Apesar da sua pouca visibilidade, é uma das peças mais importantes do piano, responsável pela estabilização da afinação e uniformidade tonal. Para dizer pouco, o cepo define a vida útil do piano, pois dificilmente um usuário se sentirá incentivado a trocá-lo no caso de uma restauração, devido aos altos custos envolvidos.

CARO: devido à extrema exigência de suportar dezenas de toneladas e a fim de dotá-lo de maior resistência possível, o cepo é confeccionado invariavelmente em compensado. Uma das características que notamos nos Cepos dos pianos em geral é o número de camadas. Só para sabermos, Steinway = 7, August Forster = 5, Bosendorfer = 16. Por outro lado, a Schimmel usa 22 e a Steingraeber usa compensados de 25 camadas. Ou seja, não é pelo número de camadas do seu Cepo que vamos reconhecer um piano de excelência, mas pela qualidade das madeiras empregadas na confecção das lâminas.

BARATO: é difícil de acreditar que alguns fabricantes empreguem madeira maciça para a confecção do cepo, mas isso acontece no tumultuado mercado de pianos. Também há os que apelam para o laminado de 3 níveis em forma de sanduíche, com uma madeira grossa preenchendo o meio e finas camadas recobrindo as duas faces, arranjo que também é inaceitável devido à pouca rigidez oferecida.

Por outro lado, se o material publicitário de um piano se gaba da grande quantidade de camadas (alguns proclamam 41), logicamente isto não quer dizer nada, ou melhor, quer dizer que ao aumentar a quantidade de níveis compostos por cola, aumenta o risco das cravelhas não encontrarem madeira suficientemente rígida para mantê-las imobilizadas por muito tempo – também significa que o fabricante não quis empregar madeira de maior qualidade para fazer os laminados.

Tipos de madeiras: o uso de aglomerados
Como 85% de um piano acústico é composto de diversos tipos de madeiras, naturalmente os melhores instrumentos do mundo são construídos com as madeiras mais nobres disponibilizadas pelas nossas, atualmente, agonizantes florestas.
Amostras de compensados usados em piano de alta qualidade
CARO: como um piano de 1ª linha prima essencialmente pela qualidade, na sua feitura não são usados quaisquer tipos de madeira "fake", ou seja, aglomerados de partículas prensadas e coladas, não importa o nome que deem para eles, aglomerado simples, MDP, MDF, HDF, etc. Esta é a principal explicação para esses produtos custarem "os olhos da cara". As marcas de excelência empregam exclusivamente madeiras maciças e compensados nos seus pianos.

Cortes de soalhos de teclado: do piano mais caro, médio e barato.
BARATO: como cerca de 85% do piano é constituído de madeira e madeira é uma matéria prima muito cara, uma das grandes maneiras de encolher o preço é barateando este insumo. Logo, os pianos voltados ao grande público contêm invariavelmente o máximo de componentes fabricados em aglomerados, excetuando-se alguns poucos que não há condições de se empregar chapas de partículas: pontes, tábua harmônica e contorno (pianos de cauda).


Quina de piano de armário danificado durante o transporte demonstra como são fabricados os gabinetes de pianos baratos, por baixo do grosso recobrimento de poliéster, aglomerado de baixa densidade.
Até os grandes, tais como Steinway, Yamaha, Shigeru Kawai, usam e abusam dos aglomerados nas suas linhas de pianos populares, no entanto, os preços ficam bem além daqueles praticados pelos demais disputantes deste concorridíssimo mercado. Isto é o que chamo de peso da marca!

Diante dos fatos, a conclusão brilhante é que se você não tem dezenas, centenas de milhares de reais na mão para comprar um piano de 1ª linha, a melhor opção é não comprar? Longe disto! A intenção desta série de artigos é disseminar as informações para que o amante de piano compre sabendo que, fora o glamour da grife, há diferenças gritantes entre um instrumento de 90 mil reais e outro de 30 mil. Contudo, se a sua bolinha dá apenas para o de 30 ou o de 15, ainda assim se pode maximizar a compra através da escolha inteligente. Felizmente para nós pobres mortais desafortunados, a diferença de tom entre os pianos caríssimos e os razoáveis não é mais tão gritante quanto foi no passado, uma vez que hoje os avanços nos projetos de escala e nas técnicas de fabricação reduziram bastante o abismo de sonoridade entre os primeiros e os segundos. Quanto à durabilidade, isso já é outro problema.

26 de ago de 2013

Sonata K. 69 de Scarlatti: visionarismo antecipador de Beethoven e Chopin

Lindsay Sheldon
Uma coisa que eu já suspeitava antes de ouvir o álbum com 17 sonatas tocadas pela Zhu Xiao-Mei o fato de Domenico Scarlatti ser o compositor para teclado mais visionário da história. Podem alegar Bach, mas o alemão é único pelo conjunto da obra, vasta por sinal. Já o italiano, especificamente no que tange aos teclados, é imbatível em termos de novos caminhos desbravados nas suas 550 sonatas. Qual compositor que viveu entre os séculos XVII e XVIII eventualmente soa como Beethoven, Chopin e até como Prokofiev?

Eis uma análise da obra elaborada pelo crítico e escritor Robert Cummings:
De todas as 550 sonatas de D. Scarlatti, poucas têm indicação de andamento. Muitas dessas peças anteriores, e entre elas está a Sonata em Fá menor, são executadas geralmente em adagio. Sacheverell Sitwell, biógrafo de Scarlatti, agrupou as sonatas de acordo com determinadas características em comum e a sonata K. 69 foi para o conjunto das "sonatas Adagio".

A peça se baseia num tema recorrente, cujo núcleo rítmico provoca um efeito quase hipnótico que se acentua progressivamente. De certo modo, a peça apresenta um elã que só apareceu bem mais tarde, como observa-se no 1º movimento da famosíssima op. 27 de Beethoven. Porém aqui, na Fá menor de Scarlatti a atmosfera é mais sombria, o tema e as células rítmicas do entorno aparecem persistentes e lúgubres.

De modo geral, a peça parece um manto a recobrir algo que vai sendo revelado aos poucos, em camadas de grande profundidade e complexidade. Não obstante ritmo e melodia fluírem inabaláveis, a emoção se intensifica a partir da metade e a tensão acumulada é resolvida quando um tom funéreo é ouvido nos baixos, quando acordes sombrios e trinados soturnos encaminham para o fim fatídico.

Naturalmente, o ressoante piano moderno permite um novo lustro às velhas partituras e o caso da sonata K. 69 é emblemático, pois se você tocá-la a la tradição cravística, pouco ou nada do visionarismo scarlattiano irá transparecer, como por exemplo nesta interpretação:

Agora ouviremos toda a magnificência proporcionada pela grande Zhu Xiao-Mei, que permanecendo fiel ao espírito de sonata adagio, nos descortina um mundo de infinitas nuances e maravilhamentos.

Como você verá, a análise transcrita acima somente cabe quando esta sonata é tocada explorando a pleno os recursos sonoros do piano atual, pois certamente D. Scarlatti teria gostado de ver a sua obra prima transcendendo aos rígidos limites dos instrumentos da época, aliás, alguns revisores não têm sequer certeza de que Scarlatti tenha destinado as suas sonatas para cravo, talvez, como era costume daqueles tempos, tenha escrito para qualquer espécie de teclado, uma vez que a característica básica do gênio é trasbordar à sua contemporaneidade.

22 de ago de 2013

2ª parte - Comparativo entre pianos caros e baratos: Pontes e Barrotes

As pontes e os barrotes definem respectivamente no piano a qualidade do tom e a integridade estrutural. Logo, o corte de custo nesses itens tende a comprometer bastante a qualidade de instrumento em termos de sonoridade pobre e desigual, e dificuldade em segurar a afinação.

Estrutura das pontes
Comparação entre ponte de piano de 1ª linha com a de piano barato
As pontes são as estruturas responsáveis pela transmissão do débil som das cordas à tábua harmônica. Quaisquer problemas na ponte causam os desagradáveis "grilos" que tanto incomodam os pianistas.
CARO: os pianos de alta estirpe são equipados com pontes manufaturadas em madeira compensada com as lâminas posicionadas verticalmente, detalhe construtivo que confere extrema resistência ao conjunto.

BARATO: os pianos baratos são equipados em sua grande maioria com pontes de madeira maciça e em alguns casos (nos de pior qualidade), pontes de compensado de camadas posicionadas horizontalmente. O prejuízo acústico é fácil de entender, pois quando os 14 níveis (piano da foto) de lâminas de madeira entremeados de cola são atravessados pelas ondas sonoras, forçosamente há uma atenuação importante da potência devido ao grande número de barreiras a obstaculizar o caminho das ondas sonoras.
Número de travessões
Queda no número de barrotes de 1900 para 1990
Eles cumprem a magnífica tarefa de garantir a integridade estrutural e, por conseguinte, a estabilidade da afinação. Sendo assim, não só o número deles é um indicador de qualidade, como também a espessura e a qualidade das madeiras usadas.

CARO: os pianos verticais do início do século passado costumavam ter 6 travessões, hoje eles têm em média 5. Quanto aos pianos de cauda a questão é mais complicada, pois um Steinway modelo O tem tão somente 3 barrotes, enquanto outros da mesma categoria têm 4 ou 5.

BARATO: os pianos verticais mais baratos têm 4 barrotes. Todavia, isso por si só não define o critério de qualidade. Você tem que prestar atentar para a espessura da madeira, a regularidade da sua superfície, a granulação da madeira. A maioria dos fabricantes usa abeto (supruce) nos barrotes, logo, eles têm que ter uma cor clara e homogênea. Assim, barrotes com cores variadas, alguns escuros e outros claros são um sintoma de baixa qualidade.

Num caso curioso, um sujeito se apaixonou por um piano de cauda exposto no showroom de uma loja e decidiu comprar exatamente aquele. Quando recebeu o piano em casa, nem tom e toque coincidiam com o instrumento que ele experimentara na loja. Então ele analisou a aparência dos barrotes e do contorno e chegou à conclusão que a loja mandara um piano novo justamente por causa da cor irregular da madeira, característica que ele não havia notado no exemplar do showroom. Esta história demonstra que a pior qualidade da madeira empregada na estrutura torna o piano pior.

Há outros indicadores que somente um técnico de piano pode aferir, tais como o sistema de conexão dos barrotes ao corpo de piano e a sua extensão. O que você diria de um piano com barrotes pintados em tinta preta fosca, como é o caso do Yamaha indonésio GB1K? Também vemos alguns modelos nacionais Fritz Dobbert com barrotes pintados. A pergunta que fica é: o que estão tentando esconder?


Exemplo de involução do reforço estrutural de 1900 para cá: The China Syndrome
Referência: Everything You Wanted to Know about Pianos… Part II