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19 de jun de 2013

Eterno e torturante utilitarismo existencial: para quê existo? Reflexões sobre o filme A Invenção de Hugo Cabret

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"Se o bem é um complexo de bens reais e de objetos necessários e não-necessários, chamados esses também de bens, é necessário tentar procura-los. Mas, se o fim é necessariamente um só e não muitos – porque então procuraremos os fins, mas não o fim – é necessário considerar como único fim o fim último, o mais precioso, aquele que a alma tenta acolher em si."*

Recém assisti o filme "A Invenção de Hugo Cabret" e me vi com pulga atrás da orelha sobre a sofrida questão da finalidade existencial. Ela permeia a vida dos sujeitos desde que o homem deixou (elevou os olhos ao céu) de se preocupar estritamente com a reprodução e sobrevivência.

Estamos fadados a algum terminalismo teleológico, ou apenas estamos aí no mundo sem eira nem beira, marionetes passivos no desenrolar do pano da existência? Acho que aí reside a diferença cardeal entre ateus e crentes, enquanto os primeiros podem se omitir tranquilamente das reflexões sobre a sua função no universo, os segundos moralmente não devem sonegar que estão no mundo para desempenhar um papel – não significando necessariamente que estejam dispostos a fazê-lo.

Paradoxalmente, enquanto se observa muitos ateus às voltas com a questão do finalismo, grande parte dos crentes delega às mãos de Deus as questões existenciais mais nevrálgicas, ou seja, achar uma resposta satisfatória à pergunta fundamental: para quê existo?

Como é um filme baseado num livro (não li o livro), mas como um filme costuma ser um produto com tudo embaladinho para pronto consumo, os personagens ao final da trama descobrem o seu papel lindo e maravilhoso e vivem felizes para sempre enquanto baixam os letreiros.

Lamentavelmente, as coisas na vida prática não são tão esquemáticas e bem resolvidas, pois o impulso teleológico primordial jamais é inteiramente satisfeito. Um jardineiro deverá alcançar a quintessência da jardinagem? Um compositor deverá atingir a música absoluta? Um médico terá conseguido ao final da carreira a cura para todos os males ou, se olhar para trás, verá tão somente uma trilha de sucessivas tentativas e erros? Um homem de filosofia terá encontrado respostas às questões ontológicas? Um homem comum de ofício indeterminado almejará pelo menos se tornar um homem melhor?

Se melhorar é considerado uma meta aceitável, então há pelo menos um fim lato sensu, independentemente da grande finalidade em si mesma. No entanto, o que contemplamos à volta é justamente o contrário, os sujeitos se estropiando física e moralmente ao longo da vida num longo decair. Deve ser a luta contra a decadência o derradeiro e verdadeiro fim?

No filme "A Invenção de Hugo Cabret" a ocupação do garoto Hugo é acertar, dar corda e manutenir os imensos relógios da estação ferroviária central de Paris e ele o faz para cumprir o ofício imposto pelo tio bêbado e omisso. Depois do sumiço do tio, ele continua a fazê-lo para garantir o frágil status quo, mesmo que de garoto sozinho e vadio, para garantir um lugar para ficar que não seja o orfanato. É uma boa metáfora! Talvez sejamos Hugos em algum lugar do espaço e tempo meramente desempenhando funções que caíram nas nossas mãos, enquanto nos embatucamos para achar o fim definitivo, se é que ele um dia se mostrará acessível.

* Citação de Plotino feita no livro "O fim último do homem" de Idalgo Jose Sangalli, página 129.

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