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21 de mai de 2014

Por que as pessoas são fascinadas por pianos velhos?



Fruto da minha convivência de 8 anos com um piano velho, foi o impulso de buscar algo mais confortável. Dito e feito! Acabamos nos apaixonando por um reluzente piano novo de cauda na loja e o adotamos, sem vícios nem grilos.

Doravante, fica difícil entender a primazia que o piano velho goza na gosto das pessoas. Certamente as madeiras de antanho são insuperáveis, logicamente os processos construtivos eram muito mais manuais e deve-se relevar que tais instrumentos possuem uma rica história, por vezes compreendendo várias gerações.
(Cá pra nós, é simples entender a mística que envolve candelabros, madeiras maciças, entalhes, marfins, ébanos, notória robustez dos gabinetes, etc.)

Por outro lado, tenho que ser suficientemente racional para levar em conta que, ao contrário do violino, o piano pode ter até dezenas de milhares de peças móveis e um nível de complicações que o torna o rei da complexidade entre os instrumentos! E isto luta contra as possibilidades de se adquirir um piano íntegro, principalmente se for daquele time que não vê um pianista desde o tempo em que a vovó era mocinha.

Se por um lado o elã das madeiras nobres e da história são elementos de sedução, por outro, os preços convidativos terminam convencendo os incautos. E o raciocínio é muito simples: “compro um piano baratinho e, se houver algum problema, mando consertar”.

Ledo engano senhoras e senhores! Pois nem todo o piano velho está logo ali ao alcance de uma reforma. Às vezes ele não tem nenhuma condição de ser resgatado do mundo dos mortos, enquanto em outras, o bilhete de resgate é tão grande que não vale a pena jogar dinheiro bom em ruína. (Por isso a assistência de um afinador de confiança na hora de examinar um piano usado é de vital importância.)

Digamos que você tenha adquirido um piano velho mais ou menos funcionando. A coisa continuará no mais ou menos (muitas vezes menos) até você se se fartar da experiência. Nesse meio tempo, pode descobrir que algumas cravelhas já não seguram mais a afinação, rachaduras na tábua harmônica, cordas enferrujadas, molas oxidadas, feltros desgastados, mecânica necessitando de uma UTI, etc.

Tal é a rotina de um proprietário de piano velho, ele decora os rangidos, mapeia os abafadores que funcionam precariamente, sente gelar o sangue nas teclas que tendem a trancar e prende a respiração a cada afinação para que umas três cordas não se quebrem. Logicamente os pianos novos têm lá seus defeitos, digamos assim, num menu muito mais reduzido e passíveis de correção.

Fale com um proprietário de piano velho e ouvirá um rosário de reclamações, imprecações contra a displicência dos afinadores, queixas de cliques, grilos intermitentes, desequilíbrio tonal, teclas xoxas ou presas, pedais barulhentos, sostenuto que não funciona, etc. No entanto, provavelmente a paixão do dono continua inalterada pelo seu matusalém e a sua desconfiança nesses modernos pianos chineses feitos em série por robôs continua nas nuvens.

Por enquanto, há coisas que não saem facilmente de cena e a principal delas é a tradição.

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