O ato de aquisição de um piano envolve toda a família, tanto
no dispêndio de recursos financeiros, quanto nas preocupações e cuidados
posteriores. Afinal, um piano passa a ser um membro da família e merece ser
tratado como tal. Agora, imagine um membro da família inteiramente paralisado
que fosse sistematicamente deixado aos desmandos de faxineiras, crianças bagunceiras,
visitantes relapsos... isso seria considerado um ato intolerável. Então, vamos
cogitar por um momento que o piano é um ser dotado de inteligência e veremos o que ele pensa sobre as vicissitudes a que é submetido.
Pianista me tocando com dedos de estivador
Sabe aquele visitante eventual dotado de dedos de ferro que gosta de dar uma tocadinha? Ele me desafina, provoca sulcos nos meus martelos e até achatamentos irreversíveis. De quebra, ele até consegue me quebrar alguma corda no furor dos seus Liszts inflamados.
Sabe aquele visitante eventual dotado de dedos de ferro que gosta de dar uma tocadinha? Ele me desafina, provoca sulcos nos meus martelos e até achatamentos irreversíveis. De quebra, ele até consegue me quebrar alguma corda no furor dos seus Liszts inflamados.
Faxineiras, minhas algozes mais encarniçadas!
As faxineiras são os animais superiores meus inimigos nº1 (a
contraparte dos seres vivos inferiores, traças, brocas, cupins, mofos, etc.).
Elas riscam os meus tampos, limpam meu móvel pintado de poliuretano com álcool, deslocam-me
temerariamente, engorduram o meu teclado com lustra-móveis, batem, riscam, esbarram, etc.
Nosso antigo piano vertical passou maus bocados. Como ele
era torto na base, devido à torção exercida pela tensão das cordas contra a
chapa, me obriguei a fazer um balanceamento com toquinhos de madeira, de modo
que a alinhar os 4 apoios. Além disso, como o piso é de madeira e os rodízios afundavam por serem muito estreitos, os tacos serviam também para suspendê-los do chão.
Pois bem, diante de toda essa precária engenharia, a
faxineira simplesmente moveu o piano do lugar e, logicamente, jamais conseguiu
repor os tocos nos seus respectivos lugares. Só aí me dei conta de que ela
eventualmente movia o piano, apesar das ordens expressas terem sido taxativas justamente para não mexer naquela coisa monstruosa.
Diante da inevitabilidade dos fatos, quando compramos o novo
piano de cauda e depois de descobrir que a faxineira começava a desenvolver uma
verdadeira obsessão em trabalhar ao redor e embaixo dele, passei a cerca-lo
previamente com um fio vermelho e encher de tralhas o espaço do cercadinho. Assim, no
quadrilátero do piano limpamos tão somente eu e a minha mulher. Logo, qualquer coisa
que aconteça é da nossa exclusiva responsabilidade. Taí a foto do cercadinho que construo religiosamente a cada vez que a faxineira vem guaribar o nosso cafofo.
Mães ou parentes desastrados que me deslocam no afã de preparar uma festa
Em hipótese nenhuma permita que qualquer pessoa leiga me desloque,
pois certamente a coisa acabará em m...
Foi o que aconteceu com essa mãe, que no calor da febre de
decoração da festa de halloween, moveu o piano de cauda alguns centímetros, o
suporte rompeu e a perna quebrou. O piano só não se esborrachou no piso porque
havia uma caixa de brinquedos embaixo que o amparou.
Entenda no link abaixo que, pelo fato do encaixe da perna de
um piano de cauda ser frágil, ele não pode ser movido frequentemente, menos
ainda por pessoas atabalhoadas.
Minhas teclas engorduradas com lustra-móveis (mais um capítulo da
história das faxineiras)
As minhas teclas não podem ser ásperas demais, nem lisas
demais, tanto que o marfim foi durante muito tempo o único material cabível,
justamente por apresentar o balanço exato entre a aspereza e a lisura. Logo,
quaisquer produtos químicos são uma verdadeira desgraça e podem causar danos
irreparáveis
O pianista Álvaro Siviero nos conta no vídeo o resultado
funesto do zelo excessivo dos ajudantes de palco. Por essas e outras, os pianos
de sala salas de espetáculos acabam se arruinando.
Tranqueiras me soterrando!
Sou um instrumento musical e não um anteparo de bagunças!
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Acredite, embaixo de tudo isso jaz um piano de cauda! |
Transportadores de piano
Acreditem-me, não existe experiência pior para mim do que
uma mudança executada por seus lacaios brutais! Por isso dizem que desafino depois do
transporte, também pudera, passo por tantos abalos emocionais traumáticos, que levo no mínimo dois
meses para me refazer!
O proprietário de piano que passa por uma mudança nunca
esquece! Para o bem, ou para o mal, são os minutos mais angustiantes das nossas
vidas. No vídeo a seguir Die Martins-Passion, veja o rosto encrespado do nosso
grande pianista João Carlos Martins contemplando o terror do seu lindo Petrof
orquestral balançando perigosamente na ponta de uma corda bamba no rumo incerto do seu apartamento de cobertura.
Crianças endiabradas derramando coca-cola nas minhas entranhas
Deixai vir a mim as criancinhas diz Cristo! Já a mim, que
venham apenas as que estão tendo aulas de piano!
As crianças são adoráveis! Desde que permaneçam longe dos
pianos! Por isso, a regra aqui em casa é muito simples: crianças são tocam no
piano para estudar e não para socar as teclas, esmurrar, chutar, derramar
líquidos, etc. Uma vez uma menina, que já tivera aulas de piano, depois de
tocar comportadamente, resolveu apatifar batendo nas teclas de qualquer
jeito... naturalmente ela foi "convidada" a retirar as suas mãozinhas enquanto o tampo era respeitosamente baixado.
Pessoas que mexem nas minhas entranhas
Minhas cordas enferrujam só de olhar, imagine alguém encostando
nelas!
Isso acontece principalmente com piano de cauda com o tampo
aberto. Certas visitas abelhudas tendem a meter os pés pelas mãos, ou melhor,
meter as mãos no que não deve dentro de piano, aliás, dentro do piano não há
coisa alguma que possa impunemente receber mãos curiosas.
Um raio de sol só me deixa pálido
Pode até ser poético um raio de sol, mas para mim isso é uma
calamidade!
Pianos devem estar localizados em lugares sem umidade, luz solar direta, correntezas de ar, calor excessivo, frio excessivo, mudanças bruscas de
temperatura. Piano, na qualidade de "ser vivo", se dá bem no mesmo
local em que você vive bem e tem a sua saúde preservada. Portanto, ele viverá
bem compartilhando o mesmo espaço que lhe traz bem estar.
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