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1 de abr de 2013

A saga de Delorges o herói adivinhador de senhas

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Em flagrante contraste com a antiguidade, quando o "must" era adivinhar pensamentos, na idade moderna a predominância dos sistemas informáticos decretou que a grande chave de dominação consiste em adivinhar tão somente UMA pequena memória. E Delorges nasceu com um dom perfeitamente ajustado aos novos tempos: só de olhar para a pessoa ele adivinhava quaisquer senhas que houvessem caladas no seu íntimo.

Hoje em dia, quem quer saber de pensamentos se podemos "ler" integralmente uma pessoa através do acesso ao seu universo cibernético? Todavia, não podemos qualificar Delorges de hacker, porque hacker ele nunca foi. Na verdade, seu maior deslito moral foi se fanfarronar diante dos amigos e parou por aí. Apesar de jamais ter tirado proveito pessoal do seu poder, como eu disse, a fanfarronice foi o ácido letal determinante da sua ruína.

Não tardaram a aparecer amigos e conhecidos, supostas vítimas, interessados em quebrar senhas, a princípio sob os motivos mais nobres e enaltecedores. Uma esposa traída que queria escarafunchar a vida do marido, um chefe lesado pelo gerenciador do caixa 2, um pai zeloso querendo confirmar as suas suspeitas sobre a filha.

E Delorges, ciente de que um dom abstrato dado por Deus deveria ter alguma serventia prática para a sociedade, atendia aos reclames sob três condições: não cobrava nada, o motivo deveria ser justo e ele tinha que entrar em contato pessoal com o alvo. O que Delorges não se deu conta é que, se por um lado era muito fácil saber a senha de uma pessoa simplesmente olhando para a cara dela, por outro, ele nunca teve o dom de decifrar os recônditos das almas dos reclamantes.

Em breve, começaram a fazer gato e sapato do nosso bom Delorges, abusando da sua ingenuidade e violentando os seus robustos preceitos morais. Portanto, faltou a ele o contraponto de um leitor de corações corrompidos, coisa que o teria impedido de cometer atos absurdamente insanos.

A tragédia do bem intencionado Delorges foi lastimosa. A quebra de senhas no nosso mundo automatizado de hoje permite absolutamente tudo: roubo ilimitado de dinheiro, chantagens, livre acesso a segredos industriais e dados militares confidenciais, apropriação de ideias alheias, etc. Além disso, no plano individual a derrubada de senhas oportuniza a dominação de pessoas, pois como ninguém é santo na intimidade, qualquer um cai quando é lançada sobre ele a feroz lupa da espionagem, fator que municia chantagens das mais diversas naturezas.

E a maldição de Delorges foi usada das maneiras mais infames: foram derrubados governos legítimos, guerras sujas foram legitimadas, inocentes foram arrastados às barras dos tribunais, pedófilos conseguiram cravar as presas nas suas vítimas. E o corolário de desgraças teria chegado às raias do inferno, se a providência não tivesse intervindo. Algum explorador maquiavélico do dom, temeroso de que seus inimigos pudessem recorrer ao mesmo expediente contra a sua pessoa, resolveu finalizar a vida do miserável sujeito que só quis, por princípio, fazer o bem.

Delorges será reconhecido num futuro próximo como a primeira vítima da nova caça às bruxas iniciada no século XXI. Num mundo onde os segredos estão cada vez mais escassos, pessoas como ele são consideradas armas tão letais quanto artefatos radioativos e merecem ser exterminados. Seu corpo foi encontrado despido num beco do setor bancário e a suposta causa da morte foi creditada a um provável desentendimento entre moradores de rua.

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