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28 de set de 2013

9 Virtudes do piano através de exemplos

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Uma das decisões mais difíceis é a escolha do piano certo. Apregoa-se que se você não for escolhido por ele, jamais tal união resultará num casamento feliz. Contrário senso se houver verdadeira afinidade, os anos vindouros serão longos e prósperos. Antigamente só havia duas opções, ou você dispunha de rios de dinheiro para adquirir um exemplar das marcas famosonas, ou tinha que se contentar com um instrumento produzido em massa e de baixa qualidade. Felizmente, o estado da arte atual diminuiu o abismo entre o impossível e o realizável, talvez porque as madeiras tenham piorado no mundo inteiro, talvez porque os instrumentos fabricados em série tenham evoluído até um patamar altamente aceitável.

1) Riqueza harmônica: os sons harmônicos parciais definem a "impressão digital" do piano. Quanto mais houver, maior é a gama de matizes e cores e tal característica atesta a qualidade das madeiras empregadas nas partes acusticamente ativas. Portanto, o gostar ou não de um piano tem a ver em grande parte não tanto com a percepção das notas fundamentais, mas dos seus harmônicos. Em geral os pianos asiáticos tendem a ter sonoridade mais plana (contudo, mais franca e aberta), enquanto os pedigrees europeus se caracterizam pela profundidade dos matizes (por conseguinte, mais fechados e intimistas).
Uma música que explora bem os harmônicos é a IIª parte "Le Gilbet" de "Gaspar de la nuit" de Maurice Ravel.

2) Repetibilidade: teclas são percutidas com velocidade impressionante e o mecanismo deve ser ágil suficientemente para transformar o impulso mecânico em tangimento das cordas.
A sonata K. 141 de Scarlatti é uma peça boa para se testar o grau de repetibilidade do mecanismo de um piano.

3) Sustentação: é o poder do piano de deixar as notas soando quando o pedal direito afasta os abafadores das cordas. Qualidade da madeira usada na tábua harmônica, projeto de escala, excelência das pontes, qualidade das cordas, tudo influencia no aumento do tempo de sustentação.
Este conhecidíssimo prelúdio em dó sustenido menor de Rachmaninoff usa e abusa das notas de pedal que ficam soando bastante tempo.

4) Clareza: as notas devem ser ouvidas limpidamente, principalmente os agudos, que devem se assemelhar a sinos.
Essa claríssima interpretação da "Alborada del gracioso" de Ravel atesta o que estou falando.

5) Tocabilidade: é a capacidade do piano em responder prontamente ao comando do executante.
O exímio pianista Hercules Gomes demonstra como "esmerilhar" um piano em busca da tocabilidade perfeita!

6) Ressonância: todo o piano é uma grande caixa de ressonância, ou deveria ser. Dependendo como é construída essa caixa, das madeiras empregadas, ela terá maior ou menor poder de ressoar de maneira verdadeiramente magnífica.
Uma música ótima para testar a dignidade de um piano neste quesito é o prelúdio número 10 de Debussy "La Cathedrale Engloutie", com seu excessivo trabalho de pedal emoldurando notas rarefeitas e ecoantes, todo o sentido da peça fica à cargo da ressonância.

7) Dinâmica: o próprio nome original piano-forte diz tudo; o piano foi concebido para expressar grandes contrastes sonoros.
A introdução da famosa sonata nº  8 em dó menor de Beethoven fornece a medida exata para se averiguar o quanto um piano consegue trealizar a sua finalidade, ou seja, ser capaz produzir sonoridades que vão desde o débil pianíssimo ao fortíssimo.

8) Canto: como é que pode um instrumento essencialmente percussivo "cantar"? Eis um dos mistérios da fé compartilhada pelos amantes deste instrumento!
A peça de Bach (transcrita por F.Busoni) "Ich ruf zu dir" traduz muito bem como o "cantar" é um tipo de demanda que um instrumento estritamente percussivo como o piano tem de enfrentar. Certamente há pianos excessivamente percussivos ineptos para o canto, logo, são instrumentos a se evitar!

9) Sensibilidade: de todos os dons esperáveis num piano esse é o mais sublime, pois traduz um dos aspectos da sua essência dualística. Assim, emitir notas nítidas e homogêneas mesmo com baixo volume requer a concorrência de vários fatores que vão desde o apuro na fabricação do piano, à preparação e à técnica impecável do executante.
Para ilustrar o pianíssimo vêm-me à mente essa execução do adagio da transcrição feita por Bach do concerto para oboé de Alessandro Marcello.

Naturalmente, as performances aqui elencadas foram realizadas em pianos orquestrais das melhores estirpes, cordas longas, possuidores de baixa inarmonicidade e preparado pelos melhores técnicos do mundo. Entretanto, resta aos reles mortais contemplar os paradigmas de comparação, que podemos chamar de perfeitos, e tentar extrapolá-los, dentro dos limites plausíveis, aos pianos comuns e correntes disponíveis nas lojas, que estão ao nosso alcance financeiro, desde os verticais aos cobiçados pianos de cauda.
Veja que, se não falo de marcas é porque não acredito no consenso universal sobre tal ou qual, mas que a infinita graduação dos gostos e sentimentos das pessoas torna necessária a miríade de opções que temos hoje no mercado. Em face disto, atribuir virtudes a um piano ou negá-las em função da marca é um atalho perigoso de renúncia à própria subjetividade.

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