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29 de jul de 2014

Nossa única prioridade moderna



Só recentemente tenho despertado do torpor profundo comum à nossa civilização. Esporadicamente acompanho um programa matinal de uma rádio de Porto Alegre, quando descubro estarrecido que praticamente 90% das pautas versam sobre estradas, asfalto, buracos, trânsito, alças de acesso, viadutos, duplicações, congestionamento, etc. Por outro lado, leio num jornal que o problema do lixo em Porto Alegre está em situação caótica, com o poder público desativando as poucas iniciativas de tratamento na própria cidade em prol da solução mágica (e caríssima) de exportar o lixo para longe.

Portanto, lixo, desde que não esteja empestando o seu pátio, não incomoda ninguém, não é prioridade, como também esgoto, saneamento, transporte público, vias para pedestres... Por falar nessas vias, invariavelmente as cidades que tenho visitado pecam no tratamento ignominioso que reservam aos pedestres. Mesmo as cidades planejadas do centro do país, alocam 90% das vias de tráfego aos tão adorados veículos, ao passo que os 10% restantes ficam entregues às traças, mais precisamente, ao mato, à caliça, aos entulhos e aos buracos de dar medo.

Inventamos de fazer uma caminhada urbana na pequena cidade de Bonito-MS e a experiência se revelou um desastre. Do hotel-fazenda até o centro nos deparamos com uma estrada extremamente larga, bem asfaltada e bem cuidada, margeada de calçadas descontínuas e intransitáveis, terrenos da lua, por vezes até totalmente obstruídas, fato que nos obrigava a disputar espaço com o todo-poderoso automóvel, motos e bicicletas ensandecidas.

Será que nós, poucos, estamos errados e o resto do mundo certo? Espero pacientemente que o atual regime automobilicista atinja uma era de caos pós-apocalíptico, para que as pessoas descubram que têm duas pernas embaixo da bacia, que servem também como um sensacional meio de transporte, não só para apertar alavancas de freio e embreagem, que não sintam vergonha de poderem caminhar livremente.

15 de jul de 2014

Se chegamos ao piano definitivo para quê precisamos de outras sonoridades?


As inovações de hardware e projeto de escala introduzidas pela firma Steinway foram tão tremendas e definitivas, que podemos afirmar que TODOS os pianos são mais ou menos steinways. Graças aos aprimoramentos técnicos, hoje podemos afirmar com certeza que o piano é o rei dos instrumentos! No entanto, quando se pensava que todos se contentariam com a sonoridade definitiva, surge uma tendência revisionista no século XX de retorno às raízes. Então, imperiosamente a presença do cravo se fez necessária, assim como diversos outros instrumentos de teclas que veremos abaixo, nem todos vêm para atender à demanda de peças do passado, mas também para se prestar à exploração de sonoridades exóticas por autores contemporâneos.

E isso é muito bom, pois se toda a unanimidade é burra, todo o monopólio é péssimo para os nossos sentidos tão achincalhados pela institucionalização do volume de som abusivo. Como a indústria descontinuou ao longo da história a fabricação dos instrumentos aqui elencados, eles vão sendo reconstruídos artesanalmente com base nos exemplares existentes e nos projetos remanescentes dos tempos em que o barulho ainda não era interpretado como música. A propósito, há alguns luthiers trabalhando incansavelmente por esse Brasil afora, justamente construindo instrumento esquecidos através da história.

Fortepiano
O antecessor do piano moderno tem um som delicado, cristalino e intimista, devido à o seu quadro feito em madeira e aos martelos revestidos de camurça, mais estreitos do que o recobrimento de feltro grosso adotado hoje. Como soa no fortepiano uma sonata expressiva como a Appassionata de Beethoven? Para os meus ouvidos acostumados a trovões e relâmpagos, otimamente!

Cravo
Quem se interessaria pelo volume débil do cravo e sua inexistência de dinâmica? Acredite que não são só os revisionistas estão a revalorizá-lo, como também compositores atuais do porte de um Philip Glass (ouça seus consertos para cravo e orquestra) e outros.

Cravo-pedal
O cravo-pedal foi usado nos tempos áureos do período barroco como uma alternativa para se estudar órgão em casa, ou por indisponibilidade, ou pelo desconforto causado pelo frio dos longos invernos europeus. Atualmente, estão aparecendo álbuns executados nesse instrumento extinto e o bacana disso é o ganho em nitidez de conhecidas peças de órgão ecoadas nesse aparato menos ressonante.

Piano una corda
A maioria das notas do piano moderno é composta de três ou duas cordas. Como soa um piano que tem apenas uma corda por nota? Há um nicho garantido para este piano reduzido, feito sob medida para quem precisa de um piano acústico portátil.

Lautenwerk (cravo-alaúde)
Um instrumento extinto dotado de sonoridade mágica é esse! Ainda bem que ele ressurgiu nos dias de hoje para atender peças como esta, que foi escrita originalmente para alaúde e transcrita para cravo.

Claviorganum
Você não vai acreditar na combinação deliciosa de sonoridades que um claviorganum pode dar! Nascido da mescla dos projetos de um órgão reduzido e um cravo, o que permite inúmeras combinações,  é difícil entender porque  tamanha preciosidade foi esquecida pelo gosto estético da civilização. O mais famoso cravista do século XX Gustav Leonhardt gravou um álbum inteiro executando peças de vários compositores nesse instrumento.

Piano-Pedal
Um propugnador deste instrumento é Roberto Prosseda. Imaginemos empilhar dois Steinways de concerto modelo D, destinando a um deles os graves profundos, enquanto o outro se encarrega das demais tessituras! É um instrumento “simples” conceitualmente (desde que você tenha dinheiro suficiente para comprar dois grand pianos) que pode desempenhar perfeitamente a literatura para órgão sem recorrência a transcrições.

Clavicórdio
Único instrumento de tecla capaz de produzir vibrato. Apesar do débil volume sonoro, emite uma sonoridade transparente e agradável.

6 de jul de 2014

Como trocar por maiores os rodízios (rodinhas) de pianos verticais



Quem tem um piano de armário sofre com o problema de não poder arredá-lo ou muda-lo de cômodo de maneira prática. E o motivo é muito simples: os rodízios são subdimensionados para o peso que suportam, que pode chegar a centenas de quilos.

Se o piano é antigo, então piora, pois eles costumam vir equipados com rodízios fabricados inteiramente em ferro, fator que além de dificultar a sua movimentação, risca a madeira, sulca e quebra lajotas.

A melhor solução que vi para resolver a mobilidade dos pianos verticais encontrei implantada no piano auxiliar da professora Regina Althaus Motta. Ela partiu de um dos Dollies (dolly como é chamada a peça no mercado global) disponíveis no mercado americano e adaptou às suas necessidades. Aqui está um dos modelos vendidos lá fora que mais se aproxima ao suporte do piano da professora, sem a mesma robustez:
Dollies para piano vertical
A profª Regina pediu ao serralheiro que tomasse as medidas do piano de forma que o conjunto ficasse justo suficientemente para caber uma camada de feltro entre o metal e a caixa do piano. Vemos que não há nada parafusado ao piano, já que o suporte se encaixa perfeitamente.
Detalhe do feltro
É necessário, por causa do espaço, que os rodízios originais sejam retirados. Nem sempre a visão de baixo do seu piano é lá muito agradável!

Rodízios grandes suficientemente podem ter roda de borracha
A vantagem desse sistema é preservar a altura original do piano, permitindo que rodízios maiores e dotados de rodas de borracha possam ser usados.
Conforto e robustez!
Depois de instalados, os suportes permitem a movimentação do piano por uma pessoa somente! Atualmente, se eu tivesse piano vertical, tal providenciaria essa melhoria imediatamente, pois toda a vez que tinha de arredar o piano era uma trabalheira!
Visão traseira
Nos pianos dotados de pernas, acho melhor posicionar os suportes no corpo e deixar as pernas “voando” conforme mostra a foto.

2 de jul de 2014

10 vídeos de piano escolhidos segundo a emoção que provocam


Faço abaixo a rememoração dos vídeos que me tocaram de alguma forma, sendo que alguns levaram vários dias para ser novamente resgatados, mas valeu a pena, pois as coisas que marcam são como joias que levamos pela vida inteira!

1 - Piano do capeta: acredito piamente que o Diabo foi o inventor dos teclados eletrônicos, no entanto, mesmo no Seu instrumento é possível realizar a maravilha de um Beethoven num safado de um teclado de plástico! E viva a magia da música, pois o cabra comprova que é possível executar obras complexas até num tecladinho chinfrim!

2 - Piano mexido: tenho uma opinião muito canônica, pois acho que o pianista deve permanecer alijado das cordas, ainda mais porque a gordura corporal presente nos dedos termina por corroer o cobre dos bordões e enferrujar o aço das demais, mas gosto é gosto e gosto não se discute.

3 - Piano ideia-fixa: o minimalismo nos reserva surpresas estupefacientes! Tente ouvir esses 14 minutos e 59 segundos e depois me diga como foram 14 minutos e 59 segundos da sua vida!

4 - Piano transcendental: toda a execução que toca profundamente o coração pela sua sobre humanidade.

5- Piano lacrimoso: se você não chorar com isso daqui, definitivamente não tem coração!

6 - Piano divino: dizem que essa mulher é uma Deusa dos teclados, o que não deixa de ser uma retumbante verdade!

7 - Piano do Drácula: diz-se que são pianos do Drácula aqueles instrumentos absolutamente desafinados, que não obstante são tolerados por ouvidos moucos de pianistas complacentes.

8 - Piano suado: diz-se que tocar piano dá um calorão danado! (É impossível que as teclas deste Steinway não tenham ficado totalmente ensopadas...)

9 - Piano titânico:  a sonata “hammerklavier” de Beethoven é o tour de force definitivo que esgota as capacidades percussivas do piano!

10 - Piano angelical: não conheço alguém que tenha sido mais tocada pelos anjos tocando piano do que a eterna Guiomar Novaes!

Nota: foi de grande utilidade o acervo publicado no grupo Pianos & Teclas, pois graças às pesquisas realizadas nele, vários fragmentos esquecidos da memória retornaram ao seu legítimo dono.