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4 de dez de 2011

Comprando gato por lebre na Loja de Pianos


Achei um depoimento memorável de um comprador de piano que sofreu na carne o velho dilema dos pianistas versus afinadores: todos os pianos de um determinado modelo são iguais e o que os diferencia são os ajustes, ou cada peça é irremediavelmente diferente e possui uma “assinatura” própria? Os afinadores sustentam que o tipo de sonoridade e o perfil do mecanismo dependem do seu trabalho, enquanto os pianistas tem certeza que cada piano tem uma identidade única que independe da regulagem. Quem tem razão? Logicamente estou entre os primeiros e o relato a seguir reforça a minha crença.

"Passei aproximadamente dois anos procurando o piano ideal para colocar na minha casa, tocando em todos que pude e que estivessem a uma distância de carro razoável de onde moro. A peregrinação incluiu praticamente todas as marcas de piano. Eu não podia gastar mais de 20 mil dólares na empreitada, o que me restringia as possibilidades.

Então, achei o May Berlin*, mas tinha sérias desconfianças pelo fato dele ser feito na China. Postei aqui alguns meses atrás uma pergunta para que alguém me suprisse maiores informações sobre essa marca e pudesse contribuir com impressões sobre qualidade, sonoridade, etc. Infelizmente recebi somente 3 respostas que não me foram lá muito úteis.

Então, há cerca de quatro meses, decidi passar em revista tudo o que estivesse no showroom da loja, começando pelos pianos de cauda mais caros e afamados, Bosendorfer, Bechstein, decrescendo de fama, Schimmel, Vogel, Estonia, Knabe, Sohmer, até chegar aos pianos usados, dos quais o que me impressionou foi um Knabe 6”4’ de 1890 restaurado.

Quando sentei no May Berlin, vieram-me na cabeça todas as coisas que haviam guiado a minha busca: um timbre claro e cantante e um mecanismo leve e responsivo. Havia um piano Schimmel de concerto novo ali perto, recém-vindo de uma competição. Imediatamente fui nele para comparar o mecanismo, mas a minha sensibilidade amadora não percebeu grandes diferenças. Voltei para o teclado do May Berlin e comparei o de tamanho maior com o menor (May Berlin M163-T**) e não achei que o reforço de sonoridade dos baixos justificasse o custo extra para alguém como eu, cujo repertório se restringe ao Barroco e Clássico. Além disso, o piano menor caberia mais confortavelmente na minha sala.

Bati o martelo há seis semanas e não poderia estar mais feliz. Comprei o piano do showroom, que estava lá já há algum tempo, e que apesar de não ter passado por regulagem, tinha sido afinado algumas vezes. Surpreendentemente, apesar do verão úmido e errático nesta parte do mundo, ele tem segurado bem a afinação.

Para não dizer que a minha compra foi um mar de rosas, a peripécia teve um pequeno “porém”. O vendedor pensou que me agradaria muito mais se me mandasse um piano novinho recém saído da caixa, depois de devidamente regulado pelo seu técnico mais experiente. Ora, a rotina da loja exige que o cliente aprove o piano antes da entrega, depois de regulado. Então eu disse em tom de brincadeira que tinha gostado tanto do piano (que eu pensava fosse aquele do showroom), que se o técnico pudesse de alguma maneira melhorá-lo, ficaria mais do que perfeito. Por isso, declinei da oferta de examinar o piano antes do transporte para a minha casa. Mais cedo do que eu esperava, descobri que as coisas não podem ser mais do que perfeitas...

A sensação de que havia algo errado começou depois que os carregadores de piano foram embora e me sentei para tocar alguma coisa de Haydn, quando percebi algumas mudanças bem preocupantes. O tom estava consideravelmente mais estridente e o mecanismo, mesmo que continuasse macio, apresentava um certo amortecimento que diminuía a agilidade nos ornamentos. Será que os meus dedos e ouvidos haviam me traído?

Então, olhei por baixo do piano e descobri que a estrutura e as vigas de sustentação de madeira eram da cor marrom escuro, diferentemente da peça que eu havia visto na loja, cujos reforços estruturais eram de spruce (Abeto: uma madeira caracteristicamente clara). Imediatamente liguei para a loja e eles informaram não tinham enviado o piano do showroom. Naturalmente, a loja trocou graciosamente os pianos, claro, com uma recomendação expressa da minha parte para que não fizessem nele quaisquer intervenções e que me enviassem exatamente no mesmo estado em que o deixara. Logicamente, ele não está perfeito, pois alguns martelos precisam de entonação, o que será feito na primeira afinação a ser procedida no mês que vem. É isso!

Quem é o real fabricante dos pianos da marca May Berlin? Pois, claramente houve uma mudança de qualidade nos componentes dos pianos posteriores ao meu (número de série 080.697).

Não tenho certeza de que o meu longo relato seja útil para alguém, mas para mim, a moral da história é: experimente todos os pianos que puder e se você cair de amores por uma determinada peça, tenha certeza de que está levando exatamente AQUELA para casa, não importando o quanto os outros da mesma procedência possam parecer exatamente iguais."


*May Berlin
O fabricante alemão de pianos Schimmel comercializa uma linha de pianos de entrada verticais de cauda, com custo mais acessível em relação aos fabricados na Europa. Para isto, eles mandaram para a China o design dos seus pianos, onde são fabricados sob supervisão alemã. Então, tais instrumentos são enviados para a Alemanha e os melhores são “selecionados” e preparados pelos técnicos da Schimmel e vendidos sob a chancela da marca. As peças reprovadas na seleção, dizem que voltam para a China, o que duvido muito, pois nada impede que venham a ser comercializadas na Europa sob outro nome.

Segundo informações que circulam nos fóruns da internet, durante alguns anos foi a Hailun a detentora do contrato de OEM com a May Berlin para a fabricação dos pianos. Hoje em dia este contrato foi descontinuado, o que pode explicar a diferença na padronização notada pelo consumidor.

Contudo, este não é um caso isolado de “despadronização”, já que tal característica é a tônica do modo de produção dos pianos chineses, baseada em relações de OEM. Algo parecido ocorreu comigo quando comprei um piano da marca Palatino PGD-59 (175 cm) e só em casa descobri que por ele é um Hailun Model 178, felizmente, um modelo com três centímetros de profundidade a mais. Logicamente, apesar disso não ter afetado a excelente qualidade do produto em termos de sonoridade, mecânica e acabamento, reforça a questão de que diante das atuais condições de globalização da manufatura de pianos, torna-se imperativo que o sujeito teste o modelo pretendido e tenha absoluta certeza de que será exatamente aquela peça que chegará à sua casa. Portanto, o ato de escolher um piano no showroom da loja e concordar em receber outro zerado, tem tudo para se transformar numa história de horror para os nossos sensíveis ouvidos e dedos de pianista.

5 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Olá, estou interessado em comprar um piano alemão e não achei nenhuma loja com estoque disponível. Onde fica essa loja que você visitou? Abraço, Henrique Freund (henrifreund@gmail.com)

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  3. Você acha excelentes pianos novos da marca Palatino (são chineses, mas o projeto é Austríaco) na Loja Milsons em Porto Alegre, na Rua Alberto Bins, 366.

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  4. Obrigado, Isaias. Agradeço a atenção, respondeste-me quase instantaneamente. Na verdade, vi seu post e fiquei muito interessado quando vi que você teve a oportunidade de experimentar pianos das marcas Bosendorfer e Bechstein. Sou apaixonado por essas duas marcas, em especial a Bosendorfer, mas não achei disponível em estoque de loja alguma. Se poder me dizer onde encontrou algum desses, ficarei muito agradecido.

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  5. Bösendorfer novo, temo que não tenha importador no Brasil, assim como Bechstein. O que você pode fazer é pesquisar no mercado de usados. Dois estúdios recomendáveis aqui no sul são os do Person Losekan e do Adriano Bichels. Pelo Google você acha os tels. de contato.

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