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30 de nov de 2012

10 desvantagens do piano digital em relação ao acústico

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Preste atenção no título, pois nem estou falando de tecladinhos, mas dos pianos digitais de verdade com teclas pesadas e tudo mais. Também não estou falando dos horrorosos pianos chineses do tipo Fenix, uma verdadeira cilada com semi-peso, polifonia minguada e timbres fraquinhos.

Vejo por aqui na minha cidade que a maioria dos alunos de piano clássico não têm piano acústico, por isso praticam em algum tipo de teclado eletrônico, uns melhorzinhos e outros bem ruinzinhos.

De qualquer maneira, os estudantes que enveredam seriamente pelo estudo do piano, acabam sentido falta do som verdadeiro, do toque e do encorpamento que somente o instrumento acústico pode proporcionar. Por isso, elaborei uma série de categorias representativas que estancam o avanço do estudante rumo ao desenvolvimento da técnica pianística genuína.

1) Inarmonicidade inexistente
O grande chamariz do piano digital é o fato dele não precisar de afinação. No entanto, esse também é o seu calcanhar de Aquiles, pois o padrão de afinação matematicamente exato adotado nos teclados eletrônicos acaba incomodando os ouvidos (por causa da sua percepção não linear). A explicação desse fenômeno sairia do escopo dessa pequena lista, mas você pode procurar na internet maiores informações sobre inarmonia nos pianos e verificar como a imperfeição dos pianos acústicos torna a sua sonoridade mais simpática aos ouvidos.

Remediação: os modelos mais sofisticados de teclados eletrônicos possibilitam a troca do sistema de temperamento e até permite a afinação de cada nota.

2) Equalização precária
Uma das principais reclamações de usuários de pianos digitais é a dificuldade de equalizar o som para que a estridência seja atenuada, uma característica ruim dos sintetizadores digitais que geram ondas quadradas e que são posteriormente (precariamente) suavizadas através de filtros digital/analógico.

Remediação: a única solução possível é pegar o sinal não balanceado de áudio do piano digital e submetê-lo a um equalizador externo e posteriormente a um amplificador de excelente qualidade, de preferência valvulado, pela característica das válvulas de suavizarem o som. Para resolver o problema do "som de lata", jogo a saída do meu teclado Yamaha DGX-500 num equalizador Micrologic ME-22 estéreo de 10 canais e a saída é amplificada por um cubo Staner KS-150.

3) Timbre pobre
Isso chega a ser óbvio demais, mas deve ser dito: a missão dos dispositivos eletrônicos é simularem um instrumento acústico real. Para tanto, os fabricantes lançam mão de sofisticados equipamentos de captura e "imageamento" das amostras (samples) no processo de gravação dos sons de um piano de cauda de verdade. No entanto, por mais perfeito que seja o processo, não há como superar as limitações intrínsecas de algo que tem tão somente a função de simular.

Tais limitações são perceptíveis também pelas ausências. Faltam os sons viscerais do piano, tais como os ruídos dos pedais, do mecanismo, enfim, toda uma miríade de sons gerados dentro da caixa de ressonância constituidora do piano acústico.

Remediação: módulos externos de piano, softwares de pianos virtuais e pianos digitais sofisticados contornam a pobreza harmônica, mas a um custo altíssimo, equivalente ao que você dispenderia por um bom piano de cauda.

4) Pobreza harmônica
Os sons puros caracterizaram a primeira geração de sintetizadores eletrônicos. Hoje achamos muito pueris e planos os antigos hits eletrônicos das décadas de 70 e 80, tais como Tangerine Dream, Isao Tomita, Walter Carlos, Rick Wakeman, etc. A principal razão para o ouvido moderno ter mudado o crivo estético em relação aos antigos sintetizadores do tipo Moog, A.R.P. synthesizer, Mellotron, foi a carência de componentes harmônicos. O vídeo a seguir ilustra o que são os harmônicos, ou seja, notas múltiplas parciais geradas a partir da nota fundamental. Os ouvidos conseguem distinguir alguns harmônicos, mas as pessoas de modo geral terão a percepção de som mais rico, quanto mais deles houver.

Remediação: novamente, o dinheiro é o único capaz de resolver esse problema, pois os instrumentos mais caros (dotados de memórias suficientemente grandes para armazenarem amostras robustas) possuem riqueza harmônica praticamente equivalente aos pianos acústicos.

5) Ressonância simpática inexistente
O vídeo abaixo explica, (ironia do destino, num teclado eletrônico) o que é na prática o conceito de ressonância simpática entre as cordas. No piano acústico, uma das fontes da riqueza tonal está na capacidade das cordas se tangerem umas às outras. Infelizmente, a maioria dos instrumentos eletrônicos não dispõe desse recurso.

Remediação: ou você adquire um piano virtual como esse do vídeo acima que funciona conectando o seu piano digital comum ao computador, ou compra um piano digital de alta estirpe dotado de ressonância simpática (sympathetic resonance digital piano).

6) Toque duro ou leve demais
Há três conceitos em teclados eletrônicos: peso nenhum, semi-peso, peso-piano e os mais sofisticados vem com peso-piano graduado (graded hammer), mais pesado nos graves e vai se tornando mais leve nos agudos, e os dotados com mecânica construída inteiramente em madeira. As teclas dos teclados eletrônicos comuns não tem peso algum. Têm semi-peso os teclados que apresentam um leve clique no curso da tecla. Os pianos digitais com peso-piano custam mais e os dotados de efeito graded hammer são bem mais caros. Os pianos digitais com mecanismo de madeira, quase idênticos ao empregado nos pianos de cauda, são os mais sofisticados do mundo.

Remediação: experimentei um Clavinova da Yamaha e posso afirmar que ele tem peso excessivo, como se você apertasse as teclas contra uma borracha. Quem não dispõe de espaço e quer praticar num instrumento que oferece EXATAMENTE o mesmo toque do piano de cauda, a solução é comprar um piano digital que utiliza o mesmo mecanismo dos pianos de cauda. A Yamaha disponibiliza a série Avant Grand e a Roland oferece a série Digital Grand.

7) Mecanismo não amacia
Todo o pianista sabe que um piano acústico novo vai amaciando no decorrer do tempo de uso. Já os teclados eletrônicos, por serem constituídos 100% de plástico, não chegam a amaciar. Portanto, se você acha duro o toque do seu Clavinova, pode perder as esperanças de que um dia ele se modifique.

Remediação: somente dos pianos digitais top de linha, equipados com mecanismos de madeira, se pode esperar o efeito amaciamento.

8) Pobreza dinâmica
Se você tem um piano de cauda, sabe que para cada quantidade de força exercido na tecla consegue extrair um timbre diferente. Os grandes intérpretes exploram essa capacidade ao máximo nos grandes pianos de concerto. Isso significa que as potencialidades tonais do piano analógico são praticamente infinitas, sabendo-se que existem inúmeras graduações de força possíveis.
A recriação digital desse recurso requer a gravação de múltiplos níveis de diferentes dinâmicas, o que esbarra na capacidade de memória e processamento do dispositivo.

Remediação: o dinheiro que você está disposto a dispender para comprar um piano digital vai definir muitas coisas, entre elas a capacidade do piano digital de recriar texturas harmônicas atreladas à dinâmica do toque.

9) Ruídos nas teclas
Os teclados e pianos digitais podem apresentar com o uso cliques desagradáveis nas partes móveis de plástico. Constatei o problema num Cassio PS20. O vídeo abaixo mostra o problema num Korg que usa o avançado mecanismo RH3 (real hammer 3d generation).

Remediação: não conheço uma marca infensa a ruídos nas teclas. Sejamos sinceros, problemas semelhantes podem ocorrer em pianos acústicos.

10) Limitações na polifonia
A polifonia quantifica a quantidade de sons que podem ser processados simultaneamente num aparato eletrônico. Nessa categoria não entra apenas o número de notas, mas também os efeitos combinados de pedal de sustentação, eco, reverberação, etc. Para os tecladistas rápidos, a polifonia de 32 vozes provavelmente estourará, e quando isso acontece, as primeiras notas tocadas são perdidas.

Remediação: vale lembrar que a polifonia dos instrumentos acústicos é ilimitada. No caso dos teclados digitais, 128 vozes garante que não haverá truncagem nas passagens rápidas feitas com o pedal de sustentação acionado.

2 comentários:

  1. Olá.
    Acho que tem mais uma diferença menos técnica que é o incomparável charme dos pianos acústicos. Eu já estou ficando "velhinho"(51), e sou da geração Rick (Viagem ao Centro da Terra) Wakeman. Não daria pra imaginar, por exemplo, no meu tempo, Elton John sem estar acompanhado daqueles grandes e belísimos pianos de cauda. Também gosto de samba, e recentemente, fui ver aqui em Piracicaba o show de um artista que admiro muito como músico, cantor e compositor, e que inovou, fazendo uns sambinhas muito legais no piano. Seu nome artístico é Benito di Paula. O cara arrasou no show, e olha que completou recentemente, dia 29/11, 71 anos de idade. Dos artistas modernos, dá pra ver que o vocalista do Colplay, vez ou outra também não dispensa o charme e a sonoridade dos pianos acústicos (Bom, acho que sãoacústcos, né). Ponto pra todos eles, e para este post, que me fez entender as diferenças entre os dois. Acho que ainda vale a pena transportar um bom piano para um show, apesar das dificuldades de tamanho e peso, para o bem da boa música.
    Abraço.

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    1. Jairo, prefiro mil vezes a sonoridade, a vibração e veracidade do piano acústico do que o melhor teclado eletrônico. Tanto que os eletrônicos buscam há anos copiarem o que há de melhor no instrumento tradicional, por exemplo, os modelos mais sofisticados estão vindo com tábua harmônica. Também desenvolveram o conceito de "key-off", ou seja, a recriação digital do barulhinho do abafador (damper) se desgrudando das cordas.

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