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6 de mar de 2013

Minha cela limpa, espaçosa e adequada

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A cela era adequada, limpa e espaçosa. Mas o raio de luz que vicejava, só o fazia uma vez ao dia à nona hora.
Horas de tórridos fazeres-nada, disciplinas da mente que insistiam em evaporar.
A angústia só existe quando o fogo domina, aqui não é o caso, só a languidez da espera que não se sacia.
A cela era adequada até aos espíritos mais fortes, que não é o meu caso, que escaparia por qualquer fresta.
E fresta não havia, sorria, você está inapelavelmente confinado!
Penso, penso e não me vejo existindo. No centro da cela sento sonhando com sela, mesmo sem gostar de cavalos, só pelo gostinho de ar-livre. Não custa nada pensar que estou ao ar livre, talvez esteja, e pensando que estou numa cela.
A cela era adequada e limpa, pena que eu não me sentisse adequado e limpo. O banho eu enforcava religiosamente todos os dias, só para contrastar com toda aquela ordem imperiosa.
Às vezes gasto alguns ATP's ficando em pé, melhor ainda, nas pontas dos pés, porque me disseram que era bom para a saúde, porque os médicos fazem esse teste com pacientes em estado terminal de sedentarismo, etc, mas porque ainda cuido da saúde se ela é inteiramente dissipada nas horas que se arrastam recalcitrantemente sobre o piso metodicamente encerado?
Sujo só eu, penso, o entorno que se deixe estar organizado e clarificado obsessivamente uma vez por dia à décima segunda hora. 
Quando elas chegam, fecho um olho e semi-cerro outro, recolhido [orgulhosamente] sob o manto da minha fedentina - me obrigo a fazer rodízio de canto todos os dias para que o mesmo espaço não fique sem saneamento, só assim elas se resignam e não me enxotam.
Sempre me preocupo com o que elas pensam de mim, mesmo sabendo que não pensam absolutamente nada, unicamente em saltar fora daquela tediosa sequência de obrigações.  Finalmente na rua, elas saltitam feito sílfides em plena alegria do livre movimento? Qual nada, lá fora talvez elas se metam numa outra cela, não tão limpa, nem tão adequada. 

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