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5 de mar de 2012

Convertemo-nos em partes: agora vivemos a fragmentação do corpo humano!


Vivemos sob a égide da fragmentação, onde tudo se reduz às partes e praticamente o todo é relegado a segundo plano. Por isso Angelina Jolie é lábios, Ângela Bismachi é lábios (pequenos), Sheyla Hershey é peitos, Jennifer Lopez é bunda e assim por diante.

Por isso se espalham blogs especializados em partes, bundas, pés, peitos, vaginas, barrigas, ânus, por isso a indústria pornográfica fatura alto, quando reduz o foco de atenção à macro das partes que se interpenetram em ritmo alucinante de 24/7.

Em meio à supremacia da parte sobre o todo, as pessoas correm para realçar os seus componentes tidos como fracos, feios, pequenos, caídos, emurchados, etc., pois só valorizamos panturrilhas batatudas, peitorais protuberantes, bíceps estourando, abdomens definidos, lábios entumescidamente “jolísticos”.

Não queremos mais pelos porque eles remetem à intimidade, porque eles mascaram a nudez, que deve brilhar em cena com a crueza de açougue, obscena. Não pode haver instância mediadora entre a parte cobiçada e o olho que não quer ser alijado pelo véu da última fronteira. Por isso a Ângela Bismarchi retira nacos e mais nacos de carne dos seus pequenos lábios, já que se por um lado a sua anatomia insiste em lhe equipar com flores demasiadamente petalosas, por outro a moda é ostentar uma vulva de menina, um mero racho descabelado, pois nem só de gigantismo vive a parte, como também do desenho corporal imaturo próprio das crianças.

Caso fosse possível montar um ser humano andrógino com todas as partes adaptadas ao gosto atual, teríamos um monstro de lábios extremamente carnudos, pequenos lábios vaginais diminutos, seios grandiloquentes, pele-cor-de-abóbora, panturrilhas redondas, bundas mamárias? Talvez o indivíduo que reunisse todas as partes ideais não fosse o paradigma viável para encarnar o ideal de beleza, mas serviria para demonstrar o quanto estamos errados em confinar a nossa noção estética à exiguidade da parte.

Enquanto esta moda não passar, os cirurgiões plásticos estarão atolado$ na tarefa de esculpir partes perfeitas em corpos pra lá de imperfeitos, enquanto isso o pessoal do pornô continuará explorando exaustivamente em macro as exiguíssimas partes copulatórias, num rito sumário representativo da nossa percepção que se obstina em desdenhar o espírito por trás das aparências.

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