Silicones voadores: tão leves e insustentavelmente empinados, que se desmancham no ar! |
Recuso-me a ser negativista, tampouco niilista, talvez cedendo à tentação de um pouco dos dois, enquanto contemplo a sociedade que se desmancha num eterno e
retardado presente.
O tempo aqui e agora é definido pela duração do tempo
dispendido nas redes sociais, onde o sexo é alimentado a pixels e o prestígio é proporcionalmente quantificado pelo número de "amigos" desconhecidos e tantos likes que consiga ecoar.
Estou perplexo diante da ausência de ausência. Não encontro
mais ninguém de olhos perdidos no horizonte, nas esquinas e quebradas, uma vez
que todos se mantêm fixos de pescoços inclinados, olhos esbugalhados na telinha iluminada do
eterno instante.
Conexão, já não necessariamente Liga-Yoni, se
transformou num fim em si mesmo, onipresente – sem lugar para o cérebro divagante.
A imagem autoexplicativa talvez explique a falta de vazio gerada
pela desnecessidade de respostas, afinal, todas as revoluções fracassaram.
Quando caiu o muro de Berlim, o ocidente se limitou a
correr para o lado da cortina de ferro e plantar McDonald's, Versace, Louis Vuitton; arrastando
consigo as promessas da nova aurora que nunca se consumam.
Por isso permanecemos boquiabertos dentro da crise autogeradora,
porque nos viciamos na adrenalina da ânsia de esperar a materialização do
empurrãozinho, a tacada final que nos guindaria a reis na sociedade do espetáculo,
este que se apresenta eternamente jovem, turbinado, rico, feliz... como numa imagem midiática
de novela ou propaganda de margarina.
Toda a perplexidade de um tempo sem passado nem história foi
visionariamente expressada por Guy Debord em 1967, na pré-história da internet,
numa época em que os microdispositivos comunicacionais se restringiam a objetos impalpáveis da ficção
científica.
Livro disponível online: A Sociedade
do Espetáculo
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