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14 de out de 2012

Qual é o real controle que os pianistas têm sobre um instrumento pouco controlável?

Desde que o italiano Bartolomeo Cristofori introduziu radicais modificações no projeto dos cravos reinantes naqueles tempos, objetivando um instrumento que produzisse sons desde fracos a fortes, tem-se debatido qual é a margem de controle que o executante tem para personalizar a sua interpretação, considerando-se que o acesso entre os seus dedos e as cordas é intermediado por uma série de aparatos mecânicos.

O principal deles é o engenhoso sistema de escape criado originalmente por Cristofori e aperfeiçoado posteriormente por Sébastien Erard, que libera o martelo imediatamente após o tangimento da corda, independentemente do comando do pianista, pois de outra forma, se o martelo permanecesse mais tempo encostado na corda, certamente produziria ruídos desagradáveis e agiria como um abafador. Assim sendo, se o pianista não tem quase nenhum controle sobre a atuação do martelo, por que há grandes gênios do teclado reverenciados por todos, enquanto inúmeros outros tocadores anônimos jamais ultrapassarão a mediocridade?
No piano, a mecânica serve para tanger o martelo contra as cordas até o mecanismo de escape devolver-lhe à posição de repouso. No momento em que o escape entra em ação, o martelo cai pela ação da gravidade (nos pianos de cauda). Neste curto período de tempo, os dedos do executante não têm a menor possibilidade de interferir no processo. Contudo, os grandes virtuoses costumam deslizar, massagear e tremular os dedos sobre as teclas como se isso pudesse de alguma maneira alterar o som. Será que algo espetacular é gestado nas entranhas do piano, ou é pura crendice?

Mesmo que o ouvido tenha dificuldades de discernir certos fenômenos que ocorrem em intervalos de minutos, ele é altamente sensível a pequenas e sucessivas variações de duração e intensidade* feitas em tempos muito curtos. Consequentemente, apesar do hiato de controle provocado pela ação do mecanismo de escape, sutis alterações podem ser produzidas no curto instante em que o pianista possui pleno controle sobre o martelo. A habilidade de operar tais modificações é um dos fatores que diferencia o grande pianista do amador.

Recentemente, análises computacionais confirmam o que os fabricantes de rolos de piano das antigas pianolas já sabiam, que os grandes virtuoses imprimem as suas próprias "impressões digitais" no modo como tocam, curiosamente, num instrumento que não permite o acesso direto às cordas. Não obstante tais limitações intrínsecas, o pianista Glenn Gould desenvolveu um toque tão pessoal, que pode ser facilmente reconhecido por um ouvinte atento que tenha se escutado um tanto das suas gravações.

Naturalmente, tal capacidade de produzir um toque pessoal e único requer uma extraordinária acuidade muscular que permita um grande controle sobre a pressão e velocidade dos martelos, para que sejam produzidos cerca de quinhentos diferentes níveis resultantes da combinação dessas duas variáveis, em aproximadamente meio milissegundo, ou menos. Mesmo que conheçamos a fórmula empregada pelos gênios, é impossível reproduzi-la sem possuir efetivamente o restante dos atributos.

*Certamente, as variáveis imbricadas no piano não se reduzem a duas, uma vez que podemos nos socorrer da mudança de coloração tonal, e modular a ressonância através do pedal de sustentação. Contudo, para nos cingirmos ao nosso estudo, consideramos apenas duração e intensidade.

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