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26 de jul de 2011

Razões que levam o homem moderno a rejeitar o alimento do deserto.

Tradicionalmente, ao longo da história da humanidade, a solidão tem sido saudada como uma instância necessária e imprescindível ao crescimento espiritual. Entretanto, no último século temos assistido a completa derrocada deste preceito, substituído pela ânsia conectiva cada vez mais crescente.

Ora, para entender o alimento proporcionado pelo deserto, é necessário relembrar os vários tipos de alimentos que nos sustentam: ar, água, luz, comidas, espaço, manifestações artísticas e interações humanas. Sabendo-se que a falta ou deficiência de alguns destes nutrientes é o ingrediente que torna as viagens e as ausências tão penosas, os viajantes possuem o dom de adaptação rápida às vicissitudes e à solidão impostos durante a jornada.

Quando falamos de deserto, estamos abordando justamente a antítese do alimento, representada pela privação, e o princípio do jejum tem sido preconizado historicamente como um meio de atingimento do autoconhecimento e a purificação da carne... até o advento da era industrial, quando a renúncia caiu de moda em prol do gozo ilimitado dos prazeres sensoriais.

Só para sacudir a poeira do esquecimento, eis alguns preceitos medievais que pregavam enfaticamente a via do deserto como o caminho do autoconhecimento:
… entretanto, desde o começo do século XI, como resultado da descompartimentação do mundo e da incitação vinda das cristandades orientais, face à concepção propriamente latina do monarquismo, a de Bento de Núrsia, uma outra concepção era proposta, gabando a solidão e concentrando o privado na pessoa. Propagado a partir da península italiana, o apelo à condução da luta contra o demônio, não mais na segurança da companhia, mas a sós, no pleno perigo, acabou por invadir o Ocidente inteiro nas últimas décadas de século XI. Tal desejo de atingir mais perfeição no deserto, no isolamento, levou Robert de Molesmes a afastar-se dos usos clunisianos. Ele fundou Cîteaux. Os cistercienses pretendiam retornar à letra das prescrições de São Bento; portanto, permaneceram fiéis ao princípio da vida comunitária. Quiseram, contudo, afastar-se mais dos tumultos do mundo, protegendo-se atrás de uma barreira mais estanque, essa auréola de solidão rude cuja integridade defenderam ciosamente em torno de cada abadia; além disso, exigiram ao menos do dirigente de cada equipe que levasse mais longe o retiro individual: dando o exemplo, o abade cisterciense isolava-se no tempo do maior perigo, à noite, em uma cela; ele escalava um degrau a mais na prova, sendo seu dever velar só, nos postos avançados. Os cistercienses ativeram-se a isso. Os cartuxos foram mais longe: não escolheram apenas retirar-se em um deserto mais escarpado, viver entre os animais selvagens, na montanha, espaço simbólico da ascensão espiritual; sua regra limitou para todos a vida comum a períodos muito curtos, alguns exercícios litúrgicos, algumas refeições festivas; fora desses episódios, cada religioso encerrado no silêncio da sua própria cabana devia orar e trabalhar como verdadeiro monge, isto é, sozinho.*

Pois bem, na minha última viagem de uma semana, resolvi me atirar no deserto metafórico sem celular e sem acesso a computador e me senti muito bem. As redes sociais, os Blogs e as interações virtuais ficaram em animação suspensa e sobreviveram muito bem obrigado, enquanto a minha cabeça se alimentou da quietude do deserto. Finalmente compreendi porque os medievais preconizavam a quietude e o silêncio como uma forma sublimada de prazer, hoje somos obrigados a entender porque os especialistas suplicam para desligarmos os nossos gadgets em determinadas horas do dia, tudo para que um pouquinho do deserto penetre nas nossas mentes e restaure o caos instaurado pela cacofonia tecnológica.

* excerto da Coleção “História da Vida Privada” dirigida por Philippe Ariès e Georges Duby, volume 2, “Da Europa feudal à Renascença”, página 500, Companhia das Letras, 1999.

7 comentários:

  1. A solidão faz muito bem. Faz com que reflitamos e possamos analisar o que acontece na nossa vida.

    A maioria se preocupa muito em fugir da solidão, em se comunicar praticamente 24h/dia. Até nas redes "sociais", onde quantidade é sinônimo de status e elegância.
    O resultado são amizades, coleguismos e namoros de baixíssima qualidade.

    Sofrem demais no amor porque não cultivaram a inteligência emocional. Em vez de compreensão, tolerância, diálogo, investem em beleza, em cirurgias estéticas, em preocupação com o corpo.

    Quantas mulheres se preocupam com o pneuzinho, com barriguinha, com seios caídos? MILHARES.
    Pobres criaturas que não tiveram chance de raciocinar.

    É o mal da televisão. "Compre, compre, compre". "Tenha um pênis maior".
    "Perca 5kg rapidamente".
    "Fique linda usando este depilador que corta o fio pela raiz" (...).


    Pessoas que são robôs fazem tudo que está na moda. Caíram na lábia do marketing.
    Infelizmente não inventaram a mudança cerebral. Muita gente está precisando.

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  2. também acho importante momentos no deserto (é incrível mas é uma prática para poucos), e em parte, vivo em um "mundo a parte", onde a parafernália "moderna" não é prioritária (não me tira aquela caminhada na rua), mas também hoje vejo que alguns "preceitos medievais" utilizados hoje são idéias iluministas (isto é: tipo de doutrina intelectual espiritual que acredita num despertar(iluminação de graça) de uma hora para outra, dessa crença se alimentam muitas religiões e ordens esotéricas, fundamenta a crença em discos voadores, em fim do mundo e etc...resumindo... é uma doce ilusão que todos estamos sujeitos a passar e na maioria das vezes, precisamos passar para chegar em outro degrau evolutivo), mas isso não é uma crítica, somente uma reflexão, nem penso que esgote o assunto, até pelo fato de que falar nesse assunto e fazer-se entender não é muito simples.

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  3. texto muito bom .. !

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  4. eu nunca esqueço de me isolar em algum desero

    que bom ver alguém abordando esse assunto

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  5. Eu sou muito introspectiva e percebo que momentos de reflexão são necessários pra maturidade, como tudo na vida tem suas vantagens e desvantagens às vezes sou chamada de "esquisita".

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  6. Olá! Navegando pela nossa blogosfera encontrei teu cantinho aqui!
    Adorei ... muito bom encontrar coisas novas, outros papos, possíveis amizades, um leque de possibilidades.
    Aprecio a inteligência, a elegãncia e isso com certeza se aplica ao teu blog! Showwwwww!!!!
    Parabéns de coração.
    Já estou seguindo. Se puder (ou quiser) visita meu cantinho, será muito bem-vindo!!!!!
    Bj doce

    www.jcpensamentosdemulher.blogspot.com
    *´¨)
    ¸.•´¸.•*´¨) ¸.•*¨)
    (¸.•´ (¸.•` *♥ Jussara Christina ♥*

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  7. Claro que sim Jussara, já estou seguindo!

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