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18 de mar de 2011

Porque os pianos digitais são uma bomba nas mãos dos estudantes de piano.

A primeira consideração a fazer, é que estou falando de estudantes que aprendem de acordo com o método clássico de ensino ministrado através de partituras e não dos que estudam teclado popular por cifragem. Logo, os denominados estudantes de piano clássico necessitam desenvolver a técnica pianística, que inclui coisas além de apertar as teclas certas nos momentos certos na duração exata.

É claro que sei as conveniências da opção de compra por um piano digital ao invés do acústico, mas os prejuízos para a formação da técnica pianísticas são tão grandes, que me vejo na obrigação de alertar os estudantes para as deficiências que eles enfrentam quando preferem o comodismo e a praticidade em detrimento de perdas didáticas importantes.

Ilustrativamente, divido as deficiências dos pianos digitais em tópicos para que cada um possa tirar as suas próprias conclusões, inclusive, consultar a opinião de amigos ou conhecidos que tenham este tipo de instrumento.

Pedal sustain sem escalonamento.
Enquanto o pedal de sustentação no piano acústico possui diversos estágios no seu curso, os pianos digitais tem pedais sustain do tipo liga/desliga, ou seja, não oferecem nenhuma graduação nas passagens que requerem mais ou menos acentuação.

Pobreza timbrística.
Para melhor imitar o som único dos melhores pianos acústicos de cauda, os fabricantes captam (sampleiam) com microfone amostragens de sons produzidos por cada tecla e gravam num chip para serem posteriormente reproduzidos no piano digital. No entanto, tais sons sampleados são pobres timbristicamente falado, o que acaba cansando os ouvidos em pouco tempo de estudo.

Falta de som.
Você tem que saber que jamais poderá contar com a amplificação original do seu piano digital, seja lá que modelo ou marca ele for. Nos bons pianos acústicos, uma grande parte do som é projetado de baixo para cima no meio das pernas na altura das canelas e se propagando pelo corpo acima. Assim, ao tocar nos bons pianos acústicos, você sente as vibrações no meio do corpo.
Para recriar este mesmo tipo de ambiência no piano digital, necessariamente você tem que recorrer a um cubo especialmente desenhado para responder ao amplo especto de frequências baixas, médias e agudas do som de piano. Para amenizar este tipo de carência, eu uso no meu teclado Yamaha DGX-300 o cubo Staner KS-150.

Desbalanceamento entre as frequências.
Contudo, não basta projetar o som no ponto certo, já que o problema do balanceamento é muito mais complexo de resolver. Todos os pianos acústicos e digitais possuem embutidos dentro deles (falando em termos de espectro sonoro) no mínimo três pianos responsáveis pela geração dos sons baixos, médios e agudos. Ora, se os baixos são muito acentuados, o resultado são notas reverberantes e distorcidas, se os médios são muito destacados, a estridência toma conta e quando os agudos dominam, os ouvidos chegam a doer.
Se a equação do balanceamento é difícil de resolver nos pianos acústicos, nos digitais é impossível, pelo menos com os controles nativos existentes nos equipamentos. A solução é recorrer a um equalizador externo de no mínimo 10 canais e fazer a atenuação/acentuação das frequências separadamente para os dois canais stereo. Depois do equalizador, uma mexida final tem que ser feita no equalizador de 3 canais do cubo - só aí você poderá obter a almejada suavidade no som produzido pelo seu piano digital.

Insensibilidade do mecanismo.
Apesar de o teclado popular não trabalhar com isto, a música clássica exige grandes variações dinâmicas, indo desde o molto pianissimo (ppp) ao molto fortissimo (fff). Lamento informar, mas tais diferenciações dinâmicas não conseguem ser produzidas num piano digital.
Em primeiro lugar porque a sensibilidade do mecanismo não permite e em segundo, porque o número de camadas de samplers (sons originalmente gravados num piano acústico) não cobre todas as dinâmicas possíveis de se obter num piano acústico. Como normalmente os fabricantes gravam as amostragens de apenas três níveis: fraco, normal e forte, você jamais conseguirá arrancar do seu instrumento digital outras dinâmicas intermediárias, porque elas simplesmente não existem.

Excesso de peso das teclas.
Não sei porque os fabricantes de pianos digitais não espelham a concepção dos seus mecanismos nos mesmos que equipam os pianos acústicos de cauda. Melhor ainda seria se eles pegassem exatamente o mecanismo de um piano de cauda e só acrescentassem os componentes eletrônicos. Ao contrário, eles optam por um arremedo tosco e extremamente pesado, que só prejudica e estanca o progresso daqueles que desejam adquirir velocidade e destreza dinâmica.

Para ilustrar os pontos de vista aqui esboçados, apresento-lhe uma mesma música tocada primeiramente num piano digital: Ludwig Van Beethoven - Sonata ao Luar Opus 27, nº 2 - 1º movimento.

É interessante notar que o aspecto "quadrado" da execução se dá muito mais pelas mencionadas deficiências do instrumento, do que pelas limitações técnicas do pianista.

Note nesta execução como a variabilidade dinâmica aparece como num passe de mágica.


Agora é para matar, a mesma Sonata nº 14 de Beethoven executada num piano orquestral pela magnífica pianista ucraniana Valentina Lisitsa. Um dia chegaremos lá?


Moral da história: prefiro ter um péssimo piano acústico de armário do que estudar exclusivamente num excelente piano digital. Logicamente, o estudante não pode prescindir de instrumentos eletrônicos, inclusive, conforme foi mencionado acima, tenho como segunda opção de estudo um teclado de 6 oitavas ao qual recorro frequentemente, principalmente porque ele está localizado num andar da casa e o piano acústico no outro.

Felizmente, por razões de portabilidade, acabei escolhendo um teclado com mecanismo de "semi-peso", ou seja, não tem as duríssimas teclas dos pianos digitais e isto é ótimo, pois me permite uma ambientação melhor antes de enfrentar o piano Bosendorfer de 3/4 de cauda da professora, que possui um teclado extremamente macio e ricamente responsivo. Pelo menos a parte da maciez eu consigo com o teclado, já que no tocante à responsividade dinâmica, o teclado fica anos-luz a ver navios...

22 comentários:

  1. Os dedos da Valentina Lisitsa sobem e descem a vácuo.

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  2. Concordo plenamente com vc. tenho um pessimo piano acustico so para nao ter um digital.

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  3. eu não concordo... claro que os pianos digitais não chegam à excelência de um piano de cauda de boa qualidade, por exemplo, mas dizer que prefere um péssimo piano de armário ...? ah pelo amor de Deus... pianos de armários ruins com aquele timbre fraco, com teclas que não respodem direito... ah ninguém merece...

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    1. Infelizmente, com o tempo a audição humana cria rejeição aos sons eletrônicos. Você começa a achar que tem alguma coisa a ser melhorada, que os médios estão muito estridentes, que os graves batidos demais, então você corrige e perde os agudos e assim por diante. Além de um piano de cauda, por vezes estudo num teclado e sinto isso na pele. No Clavinova da professora, que ela usa somente esporadicamente, acontece a mesma coisa, mas ela não tem como corrigir porque não tem um equalizador de 10 canais e um cubo Staner KS-150 como eu.

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    2. Nada que 53 mil reais não resolvam. É o preço de um piano orquestral.

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  4. Eu estudante de piano.
    Olá, sou estudante de piano e tenho 19 anos.

    Tenho um Yamaha DGX 620 e não suporto mais o som dos pianos digitais. É uma som artificial, morto, sem vida, pobre harmonicamente, desprovido de ressonancia, de graduações, de dinâmica, de SUSTENTAÇÃO... enfim desprovido de todas as sutilezas sonoras que um piano acústico tem. Para ser sincero, tenho nojo do som e do toque do meu instrumento.

    Antes, eu pensava diferente, achava o som dos "pianos" digitais "igual" ao dos piano acústicos ou até melhor. Comecei a "arranhar" o piano aos três anos de idade. Comecei a fazer aulas aos 5, e eu estudava nos pianos do conservatório. Quando fiz 15 anos, meus pais resolveram me dar um instrumento. Minha mãe disse que iria fazer o consorcio para comprar um piano de armário. Até apareceram alguns pianos interessantes para comprar, mas eu, muito burro preferi o digital e então ganhei um DGX 620.

    Porém, quando eu comecei o curso técnico, eu comecei a estudar de forma mais profunda, e me habituei mais a ouvir o repertório clássico para piano, o que é imprescindível para tocar. No conservatório, eu comecei a me preparar para o recital de formatura, e foi então que eu passei a tocar mais nos pianos de cauda do conservatório. Então com o tempo, meus ouvidos se apuraram e minhas concepções começaram a mudar.

    Hoje eu já não suporto mais o som eletrônico e percebi que poderia ter avançado mais se tivesse optado pelo piano acústico. Eu estou fazendo planos para comprar um bom piano vertical na casa dos 130cm de altura, por causa do mecanismo mais maleável e das cordas com menor inarmonicidade, e dos graves mais profundos e definidos.

    Para concluir, percebi o esforço que os fabricantes de instrumentos musicais fazem para recriar o som do piano é um esforço inglório. Nada substitui o natural. É como tentar fabricar suco de laranja em laboratório: Nunca fica igual ao naural.

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    1. Weslen, você disse tudo! Já que você enfrentou as agruras do piano digital, é aconselhável, quando for possível, partir para o piano de cauda, esse sim é o instrumento que poderá fazê-lo desenvolver uma técnica pianística autêntica.

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    2. Arranjadores Yamaha têm pianos pobres. Experimente os timbres do Nord Piano 2, Casio Privia PX-5S e principalmente do Kawai MP11 (esse tem teclas excelentes, de madeira, com certeza o melhor piano digital) para a questão sonora, você só aproveita o timbre do piano digital ao máximo quando usa um excelente sistema de som. Não dá pra comprar lixo e sair pichando todos os pianos digitais do planeta só porque não gostou do seu entry level de R$1800. Conheçam coisas TOP primeiro antes de falar essas coisas. Certamente o som não será igual a de um autêntico piano acústico, mas há sim excelentes opções

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Olha... tudo bem, que tem todas estas questões, porém tem alguns pianos digitais que tem pelo menos o mecanismo do piano de cauda. Como os Kawais CA-65, CA-95, MP10 e agora o VPC. São mecanismos de cauda adaptado para o piano digital. Os problemas sonoros ainda infelizmente serão os mesmos.... Só que eu sou obrigado a dizer que discordo em parte da tua postagem. Um péssimo piano acústico não fará bem para técnica e execução assim como um péssimo piano digital. Infelizmente com os nossos impostos e etc, pagamos muito caro pelos pianos digitais com poucos recursos. Mesmo as Clavinovas não possuem um mecanismo tão adequado... É só uma adaptação do que a Yamaha usa ha anos. Qualidade sonora, infelizmente não... agora pedais... existem pedais progressivos também, usados pela Kawai. Essa é uma marca voltada para produção de pianos e somente pianos. Investem tudo nisso. É uma boa para um estudante intermediário a técnico. Agora faculdade, sou obrigado a concordar. Um piano de cauda, de 160cm, mas que seja de cauda. Com dupla escalada, que dê para fazer repetições rápidas... e etc. E para não desenvolver péssimos hábitos de pedal, sempre estudar no acústico. Minha professora de piano diz assim: O que importa é disciplina e autocrítica em frente ao piano. Conheço um garoto daqui de Uberaba, que não tinha acústico em casa, estudava em digital e passou na UnB. Hoje é pianista de concerto, tem piano acústico, mas até chegar lá, foi na base do digital e horas na frente dos pianos alugados.

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    1. Quem estuda muito em piano digital tem que ficar de olho nas tendinites.

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  7. Cada um escolhe o que for melhor para os seus interesses, objetivos e metas. Quem estiver estudando para ser clássico vai optar por um acústico. Quem decidir partir para o lado pop vai preferir o digital. É simples. Cada um na sua praia. Tem espaço para todos.

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  8. Olá, sou estudante iniciante e venho lendo vários artigos sobre pianos acústicos x digitais. Já vi que existem opiniões diferentes e que depende do que a pessoa quer, mas, por razões financeiras, infelizmente optei por investir num digital. Saberiam dizer sobre a qualidade dos pianos Kawai e qual melhor modelo (relação custo x benefício)?

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    1. Os Kawai apresentam alguns problemas de desgaste no mecanismo conforme este post, eu optaria por um Clavinova por ser mais robusto. http://www.blogpaedia.com.br/2013/11/10-defeitos-mecanicos-preocupantes-na.html

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  9. Saudações! Por querer chegar ao máximo próximo de um piano real através de um digital, acabei caindo no seu blog em minhas pesquisas. Procurando ser breve, procurei o que havia de mais real em piano em 2004. Do que pude pagar, fiquei com um Roland RD 700SX. Queria deixar ele o mais parecido com o piano com pedais e tudo mas devido ao custo, acho melhor fazer negócio novamente para um piano digital de móvel. Conclusão: ao ler o seu post, observei que até que eu chegue a um setup de um piano real, incluindo bons equipamentos, o gasto será maior que um piano de verdade. E ainda mais, isso pode comprometer meu desenvolvimento. Posso querer escapar da afinação periódica, dos cupins e tocar nos fones de ouvido, essa é a minha intenção mas somando-se prós e contras, no futuro será melhor eu possuir um bom piano, pelo menos de armário. Mas creio que se realmente querermos fazer algo não é um equipamento que irá impedir. Mas pode-se ter um melhor aproveitamento utilizando ferramentas corretas. Fazendo uma analogia, ouvi falar de um garoto que arrasava com o Paint do Windows. Imagina ele em um Photoshop? Agora tem outros que com Photoshop, não fazia metade do o garoto fazia no Paint. Parabéns pelos bons textos e de nos ajudar com seu conhecimento. Abraço!

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    1. Alguns Pianos Digitais topo de linha são equipados com teclas de madeira, esses sim oferecem o efeito alavanca no acionamento das notas. A Yamaha chama estes mecanismo de Natural Wood. Por exemplo, o Clavinova CLP990 dá uma ideia do que estou falando, teclas longas, travessões dos pinos também em madeira - com um tipo de mecanismo desses é possível adquirir técnica pianística: http://www.pianoworld.com/forum/ubbthreads.php/topics/2036302/Yamaha%20flagship%20Clavinova%20CLP-.html

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  10. Olá, Isaías. Como autor do post que és, vejo como importante sua resposta de 22/12/13 reconhecendo que é possível adquirir técnica pianística com pianos digitais.

    Fiquei com a impressão que você, e alguns que comentaram, desconheciam, à época, os pianos digitais topo de linha como o Roland V Piano, o Kawai MP10 e outros.

    Gostaria de saber sua opinião novamente fazendo uma pesquisa com pianos como esses.

    Forte abraço!

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    1. O Kawai até que imita bem a tocabilidade de um piano acústico ao incorporar teclas de madeira com acionamento por efeito de alavanca. A Roland é miserável na sua mecânica, de plástico e comprimento insuficiente para proporcionar efeito alavanca. Afora essas limitações, a questão da sonoridade plena é impossível de se alcançar num piano digital. Não vejo o piano digital como 1º instrumento, mas como auxiliar ele tem lugar garantido.

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  11. Parabéns pela material! Estava cheio de dúvidas qual piano acústico ou digital! Agora não tenho mais! A questão agora é o menor piano acústico com relação à custo benéfico sem perder a qualidade, se você tiver alguma dica fico muito grato! Um forte abraço.

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  12. Muitos tabus relativos a pianos. Tudo depende de uma boa escolha, tanto de um quanto de outro.Gosto dos dois.Existem virtudes e defeitos dos dois lados. Hoje em dia não se pode desprezar nem um nem outro...

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  13. Um Piano acústico é um piano acústico. Mas como não posso ter um piano de cauda, prefiro um bom piano electrónico com martelos mecânicos e aftertouch que um piano mediado do qual não é possível tirar a mesma expressão. Além disso quem dá a expressão e a dinâmica é o pianista e se não tiver estes condimentos na alma eles não aparecem nem no melhor piano do mundo. O Senhor que aparece no video a tocar o piano electrónico até parece que faz de propósito, não está a colocar qualquer expressão e dinâmica na sua interpretação. De qualquer forma um piano é um piano.

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  14. Ao meu ver, o autor do blog escreveu sem conhecer todos os modelos de pianos digitais. A cada frase que fui lendo onde estava escrito "os pianos digitais não ..." já vinha em minha mente um modelo de piano que faz ou tem o que o autor dizia que não tinha ou não fazia.

    Para ilustrar o autor escreve "Melhor ainda seria se eles pegassem exatamente o mecanismo de um piano de cauda e só acrescentassem os componentes eletrônicos."
    ===> É EXATAMENTE ISSO QUE fez a Yamaha nos seus pianos digitais HÍBRIDOS AvantGrand!!!

    O autor aparenta desconhecer, p.ex., a tecnologia SuperNatural do V-Piano da Roland, referindo-me aqui a outras características que ele diz que pianos digitais não têm..

    Para finalizar, digo a todos que os pianos digitais ainda são uma 'classe' de instrumento DIFERENTE da de pianos acústicos. Tratam-se de instrumentos diferentes ... Muitas das técnicas pianísticas podem ser desenvolvidas sem prejuízo em pianos digitais desde que se use BONS pianos digitais. Hoje (10/06/2017), um estudante de piano que usar para estudo um piano digital que custe menos que R$ 30 MIL (trinta mil reais), está pondo sua carreira em alto risco. Por fim, a técnica 'total' só será desenvolvida em um piano acústico!

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