Um estudante de piano dormia embaixo de uma árvore, quando o
seu espírito protetor viu vagueando por aquelas regiões astrais o vulto de J.
S. Bach. Então, num ato de ousadia chamou-o a si e lhe perguntou se poderia dar
um presente musical àquele estudante que jazia relaxado na relva macia.
O velho Bach pensou longamente por alguns momentos e disse:
- Não tenho o poder de dar-lhe ouvido absoluto ou o virtuosismo supremo com as teclas, mas posso lhe conceder a "afinação rosa".
- Não tenho o poder de dar-lhe ouvido absoluto ou o virtuosismo supremo com as teclas, mas posso lhe conceder a "afinação rosa".
- Afinação rosa? Exclamou o espírito protetor intrigado.
Sim, a capacidade de sentir alegria com a música, não
importando o quão árduos forem os estudos e tão duras as dificuldades. Veja
bem, a maioria dos grandes músicos, dotados de plenos dons inatos concedidos por
Deus, consomem suas vidas na ânsia descomunal de atingirem a perfeição.
Contudo, não a buscam para servirem de melhores veículos à vontade Dele e sim para se sobressaírem diante dos bajuladores, ou seja, para alimentarem ainda mais os seus egos inflados.
Então o bom velhinho olhou lá para baixo e, se compadecendo com a
figura inerte, disse:
- Provavelmente daqui para frente ele sofrerá alguns
efeitos colaterais, tais como marejar os olhos de lágrimas ao ouvir alguns trechos dos Grandes Mestres, sentirá uma reverência profunda pelos píncaros
que a humanidade atingiu num Beethoven, Mozart, Vivaldi, Hendel, Chopin,
Scarlatti... (aqui se nota a máxima modéstia do Mestre de não ter citado o próprio
nome, pois, como ele próprio esclareceu, considera a sua contribuição bem singela,
haja vista que havia composto coagido pela obrigação do seu ofício de mestre Kantor
e as outras milhares de peças que compôs foram com fins unicamente didáticos). Isso não impede que a humanidade o tenha como realmente o Maior e de julgar que não haverá outro compositor capaz de iguala-lo e muito menos supera-lo.
No mesmo instante em que Bach concedeu o Dom, o estudante de
piano se mexeu num ato involuntário e sorriu, enquanto a sua cabeça se inundava com os acordes solenes da cantata 178 (Wo Gott der Herr nicht bei uns hält),
que é musicalização do Salmos de David nº 124:
Se não fora o Senhor,
que esteve ao nosso lado, (Wo Gott der Herr nicht bei uns hält)
quando os homens se
levantaram contra nós;
Eles então nos teriam
engolido vivos, quando a sua ira se acendeu contra nós;
Então as águas teriam
transbordado sobre nós, e a corrente teria passado sobre a nossa alma;
Então as águas altivas
teriam passado sobre a nossa alma.
Bendito seja o Senhor,
que não nos deu por presa aos seus dentes.
A nossa alma escapou,
como um pássaro do laço dos passarinheiros; o laço quebrou-se, e nós escapamos.
O nosso socorro está
com o nome do Senhor, que fez o céu e a terra.
Doravante, o estudante de piano passou a usufruir do dom
da alegria de escutar, reverenciar, estudar, fuçar, respirar e comer música todos os dias da sua vida. Mais do que possuir ouvido
absoluto e virtuosismo consumado, o seu grande tesouro foi não se deixar abater
pela frustração de não conseguir, de não ser melhor do que os outros ou até de ser o pior de todos. Na sua
qualidade subalterna de servo da música ele viverá assim o resto da vida e, provavelmente, colha o derradeiro fruto através do privilégio de morrer escutando a meditativa melodia do coral Alle
Menschen müssen sterben (todos os homens devem morrer).










