Pesquisar

7 de fev de 2011

Geração louca por drogas para ficar mais do que bem.

A impactante notícia do jovem¹ de 27 anos, bonito, corpo atlético, rico, bem sucedido, que de uma hora para outra decide voar como um super-herói pela janela do 7º andar serve para dar asas às preocupações sobre o abuso das drogas aperfeiçoadoras da experiência subjetiva.

Por outro lado, este artigo foi inspirado no depoimento de uma blogueira² linda, loira, magra, bem sucedida, que, no entanto, se confessa viciada em Rivotril³, a droga que estanca a ansiedade e deixa a pessoa com os músculos relaxados, sono fácil, paz consigo mesma e experimentando sensações gostosas.

Qual é elo de ligação entre as duas histórias, a do "super-homem" que voa pela janela rumo à morte e da jovem que fica socada no apartamento ao invés de ir ao shopping, ou à praia com as amigas?

Ambos indivíduos pertencem à geração química, o substrato de pessoas que incorpora ao seu dia-a-dia o uso/abuso de diversos psicofármacos para dormir, acordar, moderar o apetite, ir para a balada, trabalhar, relaxar, enfim, vivenciar no talo a vida agitada e caótica dos nossos dias.
Uma entrevista primorosa concedida à Revista Ciência Hoje4 pelo psiquiatra Benilton Bezarra Júnior esclarece as causas da escalada química dos nossos tempos. "Hoje, todos (e não apenas os loucos ou dejajustados) somos, de alguma maneira, consumidores de diagnósticos, de comprimidos etc. A psiquiatria pulou o muro do asilo e expandiu seus domínios à cidade. Todo o corpo social hoje é objeto da intervenção psiquiátrica, ao menos potencialmente". A psicologização em voga até os anos 70, foi sendo gradualmente substituída pela neurologização.

O que antes era explicado por recalque, complexo de édipo, superego, num legítimo psicoblábláblá, agora é explicável por desequilíbrios químicos, recaptação de serotonina, ativação do circuito límbico, em suma, pelo neroblábláblá. Enquanto antigamente todo mundo reconhecia um "recalcado" ou um histérico, hoje lidamos com a bipolaridade, transtrono obscessivo compulsivo, déficit de atenção e todo mudo "sabe" que estas coisas são "causadas" por perturbações no funcionamento cerebral.

Em cima deste consenso químico, a indústria farmacêutica deita e rola, faturando bilhões de dólares anuais através do fornecimento de pílulas de felicidade, sossego, sono, concentração, relaxamento, bem estar, etc. Só para lembrar, bancando o estraga-prazeres, o consenso científico obtido sobre a aplicação da farmacologia psiquiátrica não tem nada a ver com diagnósticos objetivos, mas com estudo de sintomas e aplicação de remédios na velha base empírica da tentativa-e-erro.
"Bases científicas" usadas para a prescrição de drogas psicoativas são uma piada:
O principal fator causador do uso intensivo da química para modular o humor pode ser encontrado na mudança da nossa forma de ver o mundo: enquanto as sociedades antigas eram organizadas em cima do princípio fundamental da repressão aos excessos nos campos da agressividade e da sexualidade, a nossa correu no sentido diametralmente oposto - a busca do gozo máximo e duradouro.

Segundo o psiquiatra citado, "a histórica vitória do neoliberalismo criou um cenário de incentivo à performance econômica, à busca do lucro, da satisfação e, portanto, do consumo, que deixou de ter um freio ou um contraponto em outro ideal de funcionamento social ou pessoal. A moderação como valor, a interrogação sobre a existência, o cultivo da intimidade, a adesão a ideais transcendentes, a identificação com valores políticos, etc, foram progressivamente perdendo sua força, substituídos pelo incentivo à fruição intensa das sensações, à espetacularização da vida social, à valorização do corpo, ao direito ao sucesso individual etc.

A cultura hoje não é mais regulada pela repressão ao gozo excessivo, mas sim, por uma espécie de incitação ao gozo constante, Porque esta é a base do consumismo e do que poderíamos chamar de ideologia da autonomia: a crença difundida e a percepção compartilhada de que somos mais autônomos do que nunca, justo numa época em que nos tornamos cada vez mais dependentes de artefatos tecnológicos e discursos que se dizem científicos para nos guiar no cotidiano."

¹ Gilberto Scarpa morre aos 27 anos, a vida é frágil mesmo…
² Céu e Inferno em Doses Alopáticas.
³ Nação Rivotril.
4 Revista Ciência Hoje, nº 276.

5 comentários:

  1. Esse post me lembrou muito um artigo que eu li em que um psiquiatra (nao tenho certeza se o entrevistado era psiquiatra) dizia que hoje muitos comportamentos tidos como comuns antigamente sao vistos agora como disturbios, transtornos. Ha quem critique o DDA afirmando que hiperatividade nao eh um disturbio, e sim um comportamento natural do individuo. Ate um palestrante do TED mencionou ironicamente sobre a hiperatividade como transtorno.
    E sobre o artigo, o psiquiatra (?) disse que em breve ate a descrenca sera vista como transtorno. Eu nao acho absurda uma ideia dessas, realmente caminhamos para algo assim, cada dia que passa o humor "perfeito" eh cobrado com mais intensidade. Grande prova disso eh que qualquer oscilacao de humor NATURAL DO HOMEM eh vista como bipolaridade. Poxa!!!
    Bom, nessas horas soh tenho algo a dizer: muito bom senso na hora de resolver ir na onda das doencas e se auto-diagnosticar com transtornos, disturbios entre outros males modernos. Ah, e nao soh bom senso, informacao tambem, isso eh primordial!!

    *Escrevi sem acento pois o teclado aqui esta desconfigurado e eu nao vou configurar um pc que nao eh meu. hehe

    ResponderExcluir
  2. Unknown,
    a neurologização sem base científica transformou tudo em transtorno. Uma vez que retiramos os loucos do hospícios e os largamos nas ruas, todos enlouquecemos, parecendo com a materialização do conto de Machado de Assis "O Alienista". Com uma diferença, o hospício é aqui fora.
    Será que todas as pessoas estão com transtornos mentais reais, ou a medicina está com limiar super sensibilizado no seu apressamento em receitar a pílula do momento?
    A minha esposa acha que tudo é culpa da alimentação cada vez menos nutritiva que comemos, o que nos leva a um grau de ansiedade jamais visto. Tenho que confessar, é uma opinião de peso.

    ResponderExcluir
  3. Ocorre-me a frase de Pitigrilli no livro O Cinto da Castidade.


    ” Na porta de um manicómio deveria estar escrito o seguinte: - Não somos totalmente nem estamos cá todos.”

    ResponderExcluir
  4. "linda, loira, magra, bem sucedida" Loira é qualidade, personalidade de pessoas bem vida???
    Magra eu entendo, mas o que tem haver ela ser loira?

    ResponderExcluir
  5. Loira = estereótipo de mulher valorizada no mercado, passa uma loira e ela para o trânsito porque a luz é muito mais refletida nos seus contornos. Os machos predadores são atraídos por coisas brilhantes.

    ResponderExcluir