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6 de fev de 2011

Invasão de privacidade: fim da era das identidades secretas?

A antiga noção de sujeito, herança da idade moderna, se desintegrou na rede mundial de computadores. Em franco contraste ao sujeito moderno, que se caracterizou pela conquista do seu amplo espaço privado, a privacidade do indivíduo pós-moderno se esvaiu nas super-vias.

Hoje, não é necessário que um cidadão seja internauta para que seus dados sejam disponibilizados na rede e, talvez, seus confidencialíssimos dados tributários e financeiros sejam negociados livremente nas calçadas. Em resumo, até a vida íntima dos países se tornou uma página aberta na internet, para que todos fucem à vontade as conversas picarescas dos bastidores.

Todavia, não concordo plenamente com a charge, pois acho que o Batman perdeu a sua identidade secreta mais por causa dos seus compartilhamentos nas redes sociais do que por obra do malvado Wikileaks. Mais ainda, a maioria dos sujeitos pós-modernos faz questão de jogar a tutti quanti o endereço residencial e profissional, idade, cidade natal, telefone, data de nascimento, retratos dos cachorros, gatos, filhos, netos, parentes, planejamento de férias, bens...

E também há a maior coqueluche do momento; o compartilhamento em tempo real do ponto exato georeferenciado onde se está através de redes sociais voltadas especificamente para este fim, tais como o Foursquare. Ou seja, você deseja ser monitorado 24 horas por dia pela sua rede de milhares de amigos e pelos amigos dos amigos e assim por diante. Você luta para estar disponível 24 horas por dia via texting, email, Twitter, Facebook, Orkut, para que todo mundo veja a sua vida como uma timeline cristalina e plotada no googlemaps.

Quanta diferença entre o "Batman" moderno e o atual, aquele qu todo munda sabe que é o Bruce Wayne! Segundo Roland Jaccard*: "O homem da época moderna, quando não é esquizofrênico, é basicamente esquizoide; incomunicabilidade, solidão, tédio, melancolia, desgosto, estas palavras-chaves de seu sofrimento constante e aceito fazem parte integrante de sua experiência. E do consultório do clínico geral, bem como do divã do psicanalista, eleva-se a lúgubre queixa dos incompreendidos, dos angustiados, dos suicidas, dos insatisfeitos, dos deprimidos, dos abandonados... como se o homem da idade moderna se percebesse essencialmente através de seus distúrbios, de seus sintomas, de suas disfunções biológicas e/ou psíquicas. A doença como último refúgio da criatividade.

Progressivamente - como deixar de perceber? - o exílio interior se torna a condição de cada um de nós. As relações fantasiosas predominam sobre as relações reais; o espaço interior sobre o espaço exterior; o imaginário individual sobre o social ou o coletivo."

Já o nosso Batman contemporâneo faz questão de jogar a sua identidade secreta aos quatro ventos, todo mundo sabe quando ele chega na Batcaverna graças ao Foursquare, conhece seus cachorros, sabe detalhes minuciosos do Batmovel e tem a dimensão exata da sua relação íntima com o Robin, graças ao status de "relacionamento sério" postado no Facebook.

Será que o Bruce Wayne moderno era mais feliz dentro da sua melancólica redoma de solidão privada, do que o pós-moderno, totalmente fora do armário, tendo a sua vida exposta à curiosidade pública? O debate está aí, mesmo que a implosão da privacidade não seja uma escolha pessoal. Ninguém tem mais o direito de optar pelo exílio no seu mundo interior, o que pode representar uma nova forma de prisão lá fora, o que prenuncia o tamanho do nosso desconhecimento sobre as reais transformações que a Rede provocou nas nossas vidas.

Charge encontrada no: Blog dos Malvados
* Livro "O Indivíduo - entrevistas do Le Monde", editora Ática, 1989.

14 comentários:

  1. Excelente post.
    Talvez seja coincidência mas, contrariando a decisão que tinha tomado (não escrever mais em Portugal) não resisti.
    Com a sua permissão, deixo o link.
    Vai poder ler o meu comentário. (M.V.S.)

    http://www.jn.pt/PaginaInicial/Tecnologia/Interior.aspx?content_id=1777397

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  2. Mario, vem muito a propósito o artigo citado. Os serviços "gratuitos" da internet nada mais são do que grandes agências publicitárias que operam num nível jamais visto: milhões de pessoas ofertam alegremente seus perfis de consumo para o bom alvitre do deus dinheiro.
    Espero que estejam fazendo isto conscientemente.

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  3. Inquietante esse post.

    Há mais de uma década, quando finalmente estava com meu belo álbum de casamento em mãos, avisei para minha mãe: "Vou ao Incor, mostrar para as antigas amigas de trabalho".

    Ela me impediu: "Filha, álbum de casamento é coisa íntima, pessoal. Mostre-o somente àqueles amigos muito próximos, aos que vierem à sua casa".

    Bem, o relato desse episódio é só para ilustrar o nó que dá na cabeça da gente hoje em dia (na equação: público x privado).

    Sugiro a leitura do excelente; "O show do eu - a intimidade como espetáculo" de Paula Sibilia.
    Trata-se da tese de doutorado desta Profª da UFRJ.

    É profundo, resgata desde os primórdios mesmo. Um resumo? O que importa é o que você fará com isso (a visibilidade).

    Não elucidei nada sobre seu post amigo, até porque ainda não tenho uma opinião formada (bem alicerçada) sobre a questão. Por enquanto, vou me adequando tipo: imagens da família, somente aos de confiança mesmo. Não que isso impeça algum hacker de conseguir burlar essas redes, rs.

    Embora não seja "celebridade" (que os deuses me livrem) sou uma pessoa pública, professora. E me interessa muito recursos como o youtube, por exemplo, onde posso levar meus parcos conhecimentos aos confins de minha terra para nossa gente. Em vídeo-aulas, di grátis!

    Essa questão é intrigante mesmo amigos.
    Bjs, lu.

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  4. Luciene,
    longe de mim querer resgatar o sujeito moderno morto e enterrado. Uma vez rompidos os paradigmas, estamos todos aqui sem podermos negar as nossas características contemporâneas de exposição permanente. Sei que há o histórico do Google que registra toda os meus passos na internet (e o uso amiúde para pesquisar coisas passadas e perdidas), sei que o Facebook armazena mais coisas do que eu poderia supor e sei que disponibilizamos um mosaico do nosso ser capaz de ser resgatado, reajuntado e negociado para interessados comerciais.
    Contudo, o nosso trabalho é justamente este, somos blogueiros e buscamos a exposição. Então, a melhor estratégia de convivência com o fio de navalha entre a exposição e a intrusão é fazer as coisas de maneira consciente, expor o que tem que ser exposto e manter reservas sobre outras tantas coisas. Foi-se o tempo em que bastava deixar de escrever cartas...

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  5. Gostei disso: "expor o que tem que ser exposto e manter reservas sobre outras tantas coisas". Esse é o "x" da questão!

    Há anos, redigi um texto intitulado "O Poder do Discurso", sobre Foucault.

    Nele, começo assim:

    "Gisele Bündchen declara ter tido cinco parceiros sexuais (Vogue); Malu Mader afirma ter “dado” pouco (Marie Claire); Luíza Brunet revela um aborto aos dezesseis anos (Contigo); a Rede Globo escandaliza ao inserir na novela das 8 o depoimento de uma idosa relatando seu primeiro orgasmo.

    Protágoras nos alerta sobre a subjetividade da verdade ao nos legar a máxima de que “o homem é a medida de todas as coisas, das que são porque são e das que não são porque não são”. Como já fundamentamos a relatividade da verdade no artigo anterior (O que é a verdade? em meu Blog), analisaremos agora o poder que o discurso em voga exerce sobre o sujeito.

    Palavra é um poder que se estabelece através da produção do discurso e, como o homem, está em constante mudança. Submete-o ininterruptamente à produção de novos discursos e novas verdades, modificáveis e em perpétuo deslocamento.

    O sujeito altera seu ethos, modo de ser e de agir, conforme o discurso vigente. O poder nos interroga, registra e institucionaliza a busca pela verdade. Profissionaliza-a e a recompensa.

    Para não me estender mais, se permite, posto o link: http://lucienefelix.blogspot.com/2008/01/o-poder-do-discurso.html

    PS: Fique absolutamente à vontade para publicar ou não este post Isaias. Me empolguei porque o tema me interessa. E muito, rs.

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  6. O comentário que fiz, foi violento ou até agressivo. Admito mas ...
    Ainda não sou um ancião, logo, a sabedoria é uma ténue luz ao fundo do túnel. Não sei se algum dia terei a oportunidade de a ver.
    Contudo, não sou ingénuo, tenho a consciência dos benefícios versus malefícios das redes sociais.
    No espaço público, tudo pode ser ou não ser, com a mesma naturalidade, a mesma plausibilidade, a mesma legitimidade.
    Não tenho grandes ilusões quanto às hipóteses de a verdade sobreviver ao assalto do poder. A realidade é que as verdades incómodas acabam transformadas em meras opiniões.
    Por isso, na perspectiva daquele que diz a verdade, a tendência para transformar o facto em opinião é tão fatal como a experiência do que, na velha história de Platão, voltou à caverna para contar o que viu no mundo exterior. Num e noutro caso, mais do que negar a verdade, os cultores da mentira querem destruí-la.

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  7. Olá Mario,
    Ponderando sobre sua frase "consciência dos benefícios versus malefícios das redes sociais", me veio à mente àquelas vizinhas (tipo cajazeiras) do passado (não tão longínquo), rs.
    Não "tínhamos" que conviver com elas? Sabes a que me refiro? Às pessoas que, à nossa revelia, ficavam meio que "tomando conta" de nossa vida, vigiando e comentando nossos passos, rs.

    Por um momento, a rede social me fez lembrar delas. Curioso é que, embora a dita "correria da vida moderna", a extensão geográfica e etc., tenha dissipado a vizinhança que olhava a vida dos outros, NÓS mesmo, por livre e espontânea vontade, as trouxemos de volta! Entregamos de bandeja a chave para nos "espionar", rs.
    Indago: o que nos faz ser assim (não todos, obviamente, mas a esmagadora maioria)? Vanitas?
    Bjs, lu.

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  8. Professora

    Sou um leigo na Filosofia como sabe. Mas, tenho uma paixão por ela e os “Génios “que mais venero são Aristóteles e Bertrand Russell, fui e sou muito influenciado por eles.

    Reflectindo, “ Vanitas “ penso que é uma excelente definição.
    Revisitando Russell, “ A Conquista de Felicidade “ (o primeiro livro que li dele), assenta que nem uma luva.

    Ah! Espero que o “ Mestre “ não se zangue, não pretendo construir um blog de comentários.

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  9. Quê, zangado? Ao contrário, eu já disse que este é um espaço construído a muitas mãos, que se não fosse assim, a razão de existir dos blogs não teria sentido.

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  10. Estava a brincar, já o conheço suficientemente para saber que gosta da interacção, do debate vivo.

    Aditamento

    Claro, já não precisamos de vizinhas indiscretas. Estamos a viver outro momento da história da humanidade.
    Não sei qual é a solução para proteger a privacidade. Talvez não dando nenhuma informação sobre “ nós “a ninguém. O silêncio acaba por ser mais barato.
    Agora, pode haver quem se atreva a sugerir a criação de um Serviço Internacional de Dados Privados. Nunca se sabe.

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  11. O maior movimento dentro das redes sociais é representado por indivíduos fuçando perfis alheios, principalmente de mulheres descuidadas, ou não, que deixam generosas frestas abertas da sua intimidade.
    É claro que a antiga classe das fofoqueiras foi potencialidades pelos recursos disponibilizados pela Rede, hoje não se tem apenas a vizinha gostosa do lado para dar uma espiadinha pela janela entreaberta, temos milhões de vizinhas e vizinhos contando e documentado tudo da sua vida.
    Podemos dizer que atingimos o apogeu da era voyeurista, quem vive se alimentando da vida alheia está no céu!

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  12. Ô Mario, deixe esse negócio de fessôra pra lá.
    Vivo mesmo é aprendendo.
    Gosto muito dessa obra (A conquista...).
    Agora, tô estudando a amizade em Arizin.

    Pois é... A tal da vaidade. Humano, demasiado humano. Quem também versou sobre isso foi Rousseau. Se não me engano, no "Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens".
    O exemplo que ele dá (de nossa vaidade) é o da dança. Indaga: "E àquele que dançasse melhor atraía mais olhares sobre si despertando admiração e/ou inveja" (algo assim).

    Voltando à analogia com as antigas cajazeiras, bem que a gente também gostava quando "elas" comentavam com riqueza de detalhes do vestido maravilhoso que usávamos em tal ocasião e o quão encantado era o príncipe que havíamos conquistado.

    Penso que talvez o "Homem" não consiga viver sem sem notado (existir é existir COM - agora tá mais para "pontocom", rs).
    E quem nota, aprova ou desaprova. Enaltece ou desmerece.
    Talvez resida aí o irreversível sucesso das redes sociais. Releitura de nossa amada e odiada antiga vizinhança. Que acham?

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  13. A máxima "tudo o que disser poderá ser usado contra você" nunca fez tanto sentido!

    E, paradoxalmente, poderíamos afirmar que "Quem cala, NÃO consente!". Kkkkkkk

    Mario, precisando ou não, elas existem e sempre existirão. O curioso é que agora somos nós quem as munimos de TODAS as informações: onde fui, com quem, o que comi, o que fizemos e o que usava (e até quanto paguei, rs).

    Sim Isaias, o apogeu do voyerismo!
    O perigo disso? O mesmíssimo das antigas cajazeiras: a falta do que fazer, bisbilhotar a vida alheia assim, sem fim, desenraíza o espírito, que se perde na vastidão. De tanto ver, já não se enxerga. Bjs, lu.

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  14. Depois do episódio do WikiLeaks o Estado ocupa o lugar do sujeito perdido pelo homem e torna-se conversa de comadre na aldeia global! rs

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