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2 de fev de 2011

Todos morremos tendo uma ideia idiota bailando na cabeça.

Ao terminar de ver o filme "A Via Láctea"*, ocorreram-me algumas ilações de cunho metafísico que tem a ver com uma possível leitura do périplo terreno de cada um.
Agnosia.

A principal mensagem do filme talvez não provenha das andanças desvairadas do personagem através do congestionamento crônico de São Paulo, nem dos flashbacks que povoam a sua mente ao longo do enredo. Para mim, pelo menos, as cenas iniciais marcaram um sentido mais profundo e cósmico: ninguém está preparado para a morte, logo, morre-se atordoado por pensamentos mesquinhos bailando nos últimos neurônios declinantes.

Contrário senso, se a sociedade nos ensinasse a encararmos a única verdade da vida, talvez nos víssemos conscientemente no evento cósmico deflagrado quando as últimas luzes da ribalta se apagassem. No entanto, em decorrência desta deficiência, aparentemente sabedores da transitoriedade certa e da não completitude da vida, nos refugiamos sob a atitude estoica da ignorância frente ao inevitável.

Encontrei o elo de ligação entre a sensação ecoada pelo filme e o momento crucial da morte num pequeno diálogo intitulado oportunamente "um intrigante paradoxo"**:
...ora, eu demorei 49 anos para me tornar o que sou e ainda não terminei o meu trabalho, pois o ano que vem, nesta mesma época, mais um ano terá se passado e eu terei levado 50 anos para me tornar o que serei. Levei este pensamento às suas últimas consequências e vi que o trabalho de ser o que se é só termina com a morte, quando nos tornamos o que não somos... (leia o resto no link abaixo)

O que se ganha em morrer ignorantemente, ao invés de sustentar olhos nos olhos da velha da foice? Se a essência do ser humano é a busca insaciável pela felicidade, qualificada pelo velho Aristóteles como bem supremo, naturalmente os graus de consciência alcançados trazem maior prazer proveniente da realização, do que o descomprometimento resultante da agnosia. Esta é a escolha que todo o indivíduo perfaz todos os dias até o último... quando se abre sobre si as fauces do grande vazio e o encontra disposto, ou não, a conhecer a sua derradeira e grande verdade.

*Resenha do filme "A Via Láctea".
**Um intrigante paradoxo...

3 comentários:

  1. Realmente, não há coisa mais difícil do que morrer estando consciente. Que eu saiba, só os samurais cultivam essa ideia; aliás, um pouco mais além, já que se concebem como já mortos, e assim não se preocupam com o que venha a acontecer, estando livres do medo de morrer, e portanto em paz pra encarar isso de frente.

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  2. Belo post.

    Se formos capazes de nos escutar a nós próprios, damos valor ao silêncio.
    O silêncio é poderoso, permite-nos escutar com o coração, o corpo e a mente.
    Assim sendo, o silêncio é uma virtude que deve ser cultivada.

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  3. ...ela, a morte pode até ser uma grande verdade dentro da vida, mas não deve ser a única, a peleja está em não se entregar, pois se não morremos em vida ou ela chega antes do tempo. Respeito com essa grande certeza devemos ter, afinal estamos aqui para isso, como disse alguém, para aprendermos a morrer...e enquanto isso vivemos, planejamos, construímos, sonhamos...

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