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24 de mai de 2010

O homem comum NON ECZISTE!

Esta personagem mitológica, que é matéria prima dos políticos, celebrizadora dos famosos, caçada pelos marqueteiros, não existe na vida prática e corrente.
Todos se consideram incomuns em si para si, todas as pessoas acordam de manhã imbuídas de dar o seu melhor, todas são notáveis no seu microcosmos. Na realidade, a Internet aboliu o conceito de homem comum e erigiu no seu lugar a noção de nodo de rede conectado a “n” amigos(*).

Hoje qualquer um com uma câmera na mão pode se tornar um Saramago, desde que plante bananeira, faça uma tosquice qualquer, ou registre sistemáticos auto-retratos diários, como faz Noah Kalina, o carinha da foto acima. Ele deixou de ser um homem comum quando virou imagem despudorada envelhecendo dia a dia na frente das câmeras.

Ele se midiatizou e o seu esforço de mendigar a atenção das celebridades nas portas dos estúdios em prol do seu “everyday” foi recompensado com a retenção da efemeridade. Ele existe, não como homem comum, mas como imagem estática envelhecendo dia a dia. Ou seja, Noah poderia estar perfazendo dancinhas patéticas, ou se estropiando ao estilo Jack Ass, mas ele preferiu o penoso caminho de coletar compulsivamente as suas próprias imagens, quase como Howard Hughes fez com suas fezes, e expô-las ao mundo como um imenso mosaico simbolizador do homem comum.

Hoje, Noah continua a nos olhar com sua cara cada vez mais taciturna, mas descolado da comunidade, uma vez que é único uma vez ao dia ao longo dos trezentos e sessenta e cinco dias de cada ano. Assim, ele consegue se destacar da multidão fazendo-se imagem, matéria prima da sua profissão de fotógrafo.

Então, diga o que você faz para combater a anomia reservada ao homem/mulher comum.

* amigo = ao ser empregada no mundo virtual, tal palavra teve o seu significado primitivo bastante alterado, já que não necessariamente comporta contato presencial e afetivo, mas descreve a empatia assexuada estabelecida entre nodos conectados à mesma rede.

4 comentários:

  1. Dããã.. só não entendi a conexão entre Saramago e câmera na mão.

    Mas de resto está ótimo.

    Grandes abraços

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  2. Jonas, a citação de Saramago é uma ironia, justamente o cara que odeia todo este deserto linguístico onde nos enfiamos.

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  3. Gostei do termo “ anomia “, dá para especular um pouco.
    Como sabe, melhor que eu, na Filosofia a identidade varia de acordo com as correntes filosóficas.
    Pelo menos no Direito Civil a identidade existe.
    O acaso, esse, não existe.
    A pessoa, é um bem rentável ou não, muitas vezes transaccionável.

    Confesso que gosto mais de associar o termo a anarquia.

    De facto vivemos numa anarquia, a sociedade na prática vive sem Governo, ou seja eles (políticos) tornaram-se em parasitas tipo sanguessugas e de um modo lento e contínuo vão sugando todos os nossos recursos mas, são cautelosos.
    Vão prolongando a existência das vítimas até ao limite.

    Vivemos ou sobrevivemos no pais do político?

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