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24 de set. de 2010

A Dor Suprema como forma de atingimento da felicidade e o êxtase

Comumente se admite que o ser humano evita a dor e busca o prazer. No entanto, para determinados indivíduos isto não é válido, pois eles se auto-infligem dores supliciantes justamente para alcançar o estado de calma, relaxamento e êxtase místico.


Ao logo da vida, o ser humano se caracteriza pela busca incessante da felicidade, segundo Aristóteles: “Se alguma coisa que os homens tem é um presente dos deuses, é razoável supor que a felicidade seja uma graça divina, e seguramente o mais divino de todos os bens humanos, porquanto ele é o melhor” (*).

A corroborar com Aristóteles, cito o depoimento recebido por este Blog por uma comedora compulsiva de  cabelos (transtorno mental chamado de Tricotilomania):
- “consegui parar de arrancar os meus cabelos quando comecei a ler e ver fotos de pessoas que ficaram carecas. Não tenho falhas, mas ainda mastigo os cabelos até quebrar, mantenho sempre no mesmo tamanho de tanto que mastigo os cabelos. E, quando cai um fio, eu não o jogo fora, eu o destruo todo na boca até sumir, e esta atitude me deixa relaxada e calma... Daí a explicação de não querer parar. Quem na vida não gostaria de sentir uma calma e relaxar? Isto eu só consigo desta forma, o que é lamentável.
O que me preocupa é que as pessoas se sentem incomodadas com o som que sai dos dentes dos cabelos sendo mastigados, levo muitos tapas nas mãos, mas mesmo assim, não consigo.”
Ninguém imagina o que é alcançar uma atitude mental relaxada e calma! Por isto, esta correria louca em busca de métodos que aplaquem a causa de tudo; a ansiedade colossal e insatisfazível.

Assim, entendemos que o caminho da felicidade não se constitui apenas no cultivo de atividades amenas e benéficas para o corpo, mas abrange também a opção pelo sofrimento.

Na realidade, o uso da dor para alcançar graus mais elevados de consciência é uma tradição que remonta aos séculos, normalmente empregado por faquires e monges ascetas, na certeza de que mortificando o corpo, libertam o espírito da escravidão ao prazer.

Hoje, ao contrário dos tempos antigos, em que os rituais de flagelação ficavam confinados a templos e monastérios longínquos e inaccessíveis, tais métodos se popularizaram e foram adotados por diversas neotribos. Vejamos alguns métodos bem dolorosos:

Corset Piercing.
O implante de dezenas de piercings, além do objetivo de provocar dor pujante, não deixa de ter seus efeitos estéticos interessantes.
  1. The craziest of WTF Body Modifications.
Piercing temporário com agulhas hipodérmicas (em alguns casos milhares!).
Qual é o impulso que leva uma mulher a enfiar no seu braço (e queimá-las!) as velinhas do aniversário de 25 anos, senão a busca incessante da felicidade?
Suspensão Corporal através de piercings temporários (Body suspension).
O que você nota no rosto dos adeptos da Suspensão Corporal? Felicidade suprema, êxtase e transe.
Conclusão:
Não é só enfiando agulhas e ganchos no corpo que o ser humano busca a paz de espírito. Sob o ponto de vista do dualismo corpo/mente preconizado por Descartes, o conflito entre estes entes leva a outros estágios muito mais mutiladores, através do tabaco, álcool, drogas e inúmeros hábitos devassos, que se não resultam na morte imediata, servem de fio condutor a uma vida bipolar, oscilando entre prazeres orgiásticos e padecimentos imensos físicos e morais.

Há muito que a vida moderna se afastou do ideal grego de equilíbrio, na visão Aristóteles “o homem que se entrega a todos os prazeres e não se abstém de qualquer deles torna-se concupiscente, enquanto o homem que evita todos os prazeres, como acontece com os rústicos, torna-se de certo modo insensível; a moderação, portanto, é destruída pela deficiência e pelo excesso, e preservada pelo meio termo (mesotis)”.

Fica aqui a pergunta, a suprema renúncia ao conforto físico exercida pelas mulheres em prol de questões estéticas, representa um compromisso incondicional com a busca da felicidade?
Neck body mod
(*) Aristóteles – Ética a Nicômacos, livro I, 1099b, 9.

4 comentários:

  1. Na definição clássica do homem: animal racional - segundo Aristóteles: o homem é "o animal que tem Lógos" (razão; melhor, linguagem) a filosofia e a teologia fixavam-se no "racional", esquecendo a animalidade. A cisão acentuou-se com Descartes, ao definir os humanos como "coisas pensantes" e "almas imortais", que contrapôs aos animais enquanto "máquinas".

    No quadro da evolução, não se pode negar um parentesco entre os animais e o animal humano. Mas a transição entre eles foi quantitativa ou qualitativa? A sua diferença é de grau ou de natureza?

    A pergunta é inevitável: qual é a constituição do ser humano para poder fazer o que faz e ser como é, no contexto da evolução?

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  2. Mário Ventura de Sá,
    tenho a candidata certa para responder esta pergunta suprema, a minha esposa, cujo doutoramente foi em parte na questão da especificidade humana. Por ora, façamos um esforço:
    Admite-se que há animais pensantes na natureza. Golfinhos e baleias possuem linguagem, portanto, são seres sociais e entabulam conversões complexas, no entanto, algo crucial continua diferenciando os demais animais "pensantes" de nós: a produção de cultura, que está diretamente ligada à nossa capacidade de simbolizar.
    Entretanto, apesar de herdarmos a estrutura biológica simbolizante, a consumação da potência em ação de simbolizar é uma propriedade exclusivamente social (resultante do meio).
    Portanto, nos tornamos diferentes dos animais apenas porque somos obsequiados pelos animais simbólicos do nosso entorno com o tesouro cultural da nossa civilização.
    Nos casos em que seres humanos foram criados por animais, pela falta da assimilação da cultura humana em tenra infância, eles nunca se tornaram verdadeiramente humanos na acepção de animais produtores de cultura, a bem da verdade, os relatos dão conta de que uma das meninas-loba, quando era submetida a estresse, voltava a correr de quatro, enquanto emitia uivos pavorosos.

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  3. Obrigado pela lição, bastante elucidativa.
    Eu e as minhas eternas dúvidas, sou assim. Já não mudo certamente.

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  4. burrice pra mim tem limite...

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