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20 de fev de 2010

Do quarto branco à ISS, a arte de sobreviver em ambientes extremos.


Por que a ideia de ficar num quarto branco, permanentemente iluminado, por 72 horas causa tanto alvoroço? Considerando que o quarto branco do BBB possui gravidade, comida farta, banheiro com água encanada, temperatura ambiente controlada e um botão vermelho, que basta apertar para se livrar do confinamento, não dá pra entender tanto drama.


Algumas pessoas na Terra sobreviveram por séculos em condições muito mais difíceis, como é o caso dos Inuits (esquimós) no Ártico. Durante a maior parte do ano sua terra é coberta pela neve e o ‘mundo inteiro’ se converte num imenso quarto branco.
A paisagem branca não oferece referenciais.

Para comer basicamente eles dependiam da caribus (tuktu). Como esta carne era preparada? Com facas, ou seja, eles comiam a carne crua e fresca ou deixavam secar naturalmente na neve para comer quando não é época de caça ao caribu. A palavra Esquimó significa “comedor de carne crua”, mas eles se autodenominam Inuit, pois isso define melhor sua cultura que vai além da dieta.

Sem o caribu, os Inuits não poderiam ter existido, pois suas peles eram a base da confecção de roupas e botas, bem como das tendas, que substituem os iglus durante seu curto verão. Os ossos e as cartilagens eram transformados em ferramentas e armas, enquanto os tendões eram usados como cordas ou linhas para costura. Nada sobrava dos caribus, nenhum resíduo era gerado. Depois da chegada dos ‘homens brancos’ (qablunat) muita coisa mudou, pois o uso de armas de fogo e a caça predatória, visando à venda de peles, fizeram com que os rebanhos de caribus, que alimentaram os Inuits por milhares de anos, começassem a desaparecer e os Inuit começaram a passar fome. Então foram transferidos pelo governo canadense para terras demarcadas em Qamanituaq, local também conhecido como Lago Baker, uma entrada na baía de Hudson, nas Terras de Barren, um dos locais mais frios do mundo, a noroeste de Ontário, no Canadá.

Costurando peles de Caribu

Atualmente os Inuit vivem nos vilarejos, em casas modernas com eletricidade. Recebem o óleo para os geradores e alguns mantimentos, através de uma barcaça que chega à baía uma vez por ano quando o gelo derrete. Essa mesma barca trás alguns mantimentos como rifles, munição, farinha, açúcar, tabaco e chá, que são armazenados e consumidos aos poucos até a chegada do novo carregamento no ano seguinte. Além disso, sobrevivem graças a focas, baleias e outros animais marinhos. 

Quando saem para pescar ou caçar nas margens da baía ou nas planícies expostas ao vento eles constroem iglus, seus “quartos brancos” que permitem sobreviver às agruras da noite ártica. Para reencontrar o caminho de casa eles devem aprender a ler os ‘sastrugi’ ou sulcos de neve que marcam a direção do vento. É preciso observar o ângulo dos sastrugi na ida para fazer o caminho inverso na volta, pois na imensidão branca a paisagem não oferece qualquer referencial. Infelizmente, esta é uma das culturas em extinção retratadas pela fotógrafa Jan Reynolds (veja referência ao final do texto).

Construindo um iglu.

Diante da rudeza da vida no Ártico o quarto branco fica parecendo o jardim do Éden, com caminha fofa, lençóis limpos, comidinha pronta, louça lavada...

 Porém, há outro lugar branco e ainda mais extremo do que Qamanituaq, a Estação Espacial Internacional ou ISS (International Spacial Station), que encontra-se em uma órbita baixa (entre 350-460 km), podendo ser vista da Terra a olho nu. Ela tem sido mantida com tripulações de número não inferior a dois elementos desde 2 de Novembro de 2000, mas antes do programa espacial ter se internacionalizado, na virada de 1991/1992 sob o colapso da União Soviética, o cosmonauta soviético Sergei Krikalev ficou praticamente abandonado na estação espacial MIR, quando teve a sua permanência no espaço postergada para 311 dias.

Na ISS há um Sistema de Suporte a Vida e Controle Ambiental (ECLSS - Environmental Control and Life Support System), que provê ou controla elementos como pressão atmosférica, nível de oxigênio, água, extinção de incêndios, além de outras coisas. O sistema Elektron gera o oxigênio a que circula a bordo da estação. A mais alta prioridade para o sistema de suporte a vida é a manutenção de uma atmosfera estável dentro da Estação, mas o sistema também coleta, processa e armazena lixo e água produzida e usada pela tripulação (Wikipedia). Por exemplo, o sistema recicla fluidos do banheiro, chuveiro, urina e condensação, ou seja, lá todo mundo tem que beber xixi.

Enfrentar o banheiro da ISS também não é fácil, esqueçamos torneiras e vasos sanitários com água, sem gravidade não é possível. Parte do treinamento de astronautas e comonautas é para usar as complexas parafernálias dos banheiros, como pode ser visto abaixo.


Isso quando o banheiro da estação espacial não quebra e deixa astronautas apertados como já ocorreu em maio de 2008, noticiado pelo G1: “Defeito deve ser consertado pela tripulação do ônibus espacial que decola neste sábado. Até agora, os três homens a bordo do complexo orbital estavam se aliviando no pequeno e desconfortável banheiro da cápsula russa Soyuz – que serve de nave de fuga em casos de emergência. A capacidade do banheiro russo, no entanto, esgotou. Agora, o trio precisa usar um equipamento improvisado conectado ao vaso defeituoso, que recolhe a urina”.

Em julho de 2009, mais um "incidente de mau funcionamento de assentos higiênicos” fizeram com que os 13 integrantes da tripulação dividissem seus números um e dois entre dois banheiros da Estação Espacial Internacional. “Se mais um deles falhar, a equipe terá que voltar aos saquinhos de coleta da época da Apolo” (Gizmodo Brasil)  Felizmente os tripulantes da ISS logo conseguiram consertar este “probleminha” (Terra)

Como a permanência no espaço é sempre maior do que míseras 72 horas e não se consegue ficar lavando as roupas, podem surgir outros problemas... “Os constantes adiamentos do lançamento do ônibus espacial Endeavour causaram constrangimento aos astronautas da Estação Espacial Internacional (ISS) que participam do programa da Nasa (agência espacial americana). Os astronautas tiveram que pedir roupas íntimas emprestadas de seus colegas russos, informou a agência oficial Itar-Tass" (Terra).

A complexa a vida na apertada INSS não disponibiliza nenhum botão vermelho pra apertar e simplesmente sair pela porta, em terra firme, às vezes a volta atrasa... “quem mais comemorou o bem-sucedido lançamento do Endeavour foi o astronauta japonês Koichi Wakata, quem chegou à ISS em meados de março e já está no espaço um mês a mais que o previsto” (Terra). Que situação!

Parecido, mas bem mais difícil do que o desafio proposto pelo BBB é o Projeto Mars 500, que, em abril de 2009, confinou 6 homens num cubículo durante três meses só se alimentando de comida saudável, consistindo de papa de bebê e barras de cereais (Blogpaedia).

Apesar do treinamento barra pesada, ninguém morreu e, em julho de 2009, após 105 dias de confinamento os seis voluntários, entre eles quatro russos uma alemão e um francês, deixaram o contêiner aparentando boas condições físicas e bastante sorridentes e foram recebidos com muitos aplausos pelos cientistas que conduziram o experimento, localizado em uma região montanhosa perto de Moscou (iG educação).


Apesar de todas as dificuldades e exigências, há filas de pessoas querendo virar astronauta ou cosmonauta para ir ao espaço, enquanto os brothers colocam seus macacões brancos como quem está para ser conduzido ao corredor da morte. Ao contrário, eles deveriam curtir a oportunidade dessa experiência, pois aqueles que conseguirem resistir à tensão e claustrofobia desse confinamento estarão desenvolvendo habilidades importantes para enfrentar situações extremas.

Leia também:
O fracasso das Biosferas artificiais impede a colonização espacial e... a fuga do planeta Terra.

Referências:
1- REYNOLDS, Jan. Culturas em Extinção: Terras geladas. São Paulo : Callis, 1994. (ótimo livro com imagens incríveis)
2- Estação Espacial Internacional – Wikipedia
3- Estas e outras imagens de banheiros da ISS foram disponibilizadas por Filhote de Pombo

Por: Gladis Franck da Cunha

4 comentários:

  1. olá
    obrigada pela visita ao meu blog. e escolhi o nick literário por acaso, as vezes acredito que ele me escolheu, eu li o livro um tempo atrás, vou retomar a leitura e postar sobre o tema em abril, quando terei mais tempo, tem filme tb, vai que alguém se interesse né? rs
    Quanto ao seu post o que me chama a reflexão é que as pessoas não aguentam ficar nestes locais só pq eles são brancos e não tem referenciais,mas também acredito que seja pela noção que o proprio branco transmite: a nao-cor, ausencia de cor, neutralidade... as pessoas não convivem bem com aquilo que elas não conseguem decifrar, entender, elas querem coisas que elas podem alcançar de modo que elas consigam repassar pros outros a experiencia.
    O branco dá a ideia de "nada", de sem vida, e ninguém quer mostrar pros outros que não tem nada de interessante pra contar. Isto é ser humano...
    Ps: como sempre, eu extrapolo o tema do post, é que uma coisa puxa a outra e quando vi já viajei e aterrisei nestas ideias, rs
    Abraço bloguistico!

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  2. A tua viagem serviu para aprofundar a reflexão. Realmente, quando não temos coisas que puxem nosso olhar para fora temos que voltá-lo para dentro e nos revelamos. Os Inuits aproveitam as noites nos iglus para contar estórias e fazem jogos de imitação dos sons da natureza. Fazem isso sussurando numa panela e isso cria um efeito de vento e eco que combina com os sons exteriores.
    As pessoas para conseguir sobreviver nestes ambientes brancos precisam preenche-los com o que carregam em si mesmas.
    Obrigada pelo belo comentário.

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  3. Não vou questionar as ilustre comentadoras que me antecederam, tanto mais, que não tenho formação nem conhecimentos para tal.
    Apenas como experiência pessoal, a cor branca não me gera a sensação do " nada " mas sim bem estar, tranquilidade, luz e energia, paz interior. A título de curiosidade todas as minhas instalações são brancas. Tenho dificuldade em trabalhar e até de raciocinar em instalações coloridas. Sinceramente não sei explicar. Claro que no vestuário é diferente e por incrivel que pareça detesto a cor preta, sou incapaz de vestir qualquer roupa com essa cor.
    Se calhar tenho algum distúrbio psicológico!!!

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  4. Mário,
    qual de nós não temos algum distúrbio psicológico? Para tanto, confira o dito lendo o conto do nosso escritor lusitano maior daquém mar Machado de Assis intitulado "O Alienista".

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