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12 de jun de 2008

O que é filosofia?

Ou, como responder esta pergunta sem cair no filosofêz?

Filosofia, ao contrário do que todos pensam não é um assunto exclusivamente da alçada dos filósofos, mas também não é verdadeiro que todos filosofam. O único ser vivo que tem duplo aspecto é o ser humano: biológico e gnosiológico (conhecimento) e a filosofia tem a ver com o conhecimento. Além de ser animal por natureza, o espécime humano aprende ao longo da sua vida os saberes culturais para interagir em sociedade. Cada ser social não se reduz às suas aptidões meramente biológicas de sobrevivência e reprodução, porque ele tem que aprender constantemente outros fazeres que lhe capacitem à interação social, tais como ler, escrever, dirigir carros, cantar, viajar, trabalhar, consultar terminais eletrônicos de bancos, apreciar arte, etc.

Para fins ilustrativos, o aspecto do conhecimento pode ser subdivido em três dimensões: senso-comum, moral e especulativo. A maioria das pessoas toca tranquilamente as suas vidas, carreira, sucesso, dinheiro, diversão, sem precisar socorrer à dimensão do conhecimento especulativo.

Antes de responder a pergunta principal, já estamos às voltas com uma outra que nem sequer foi formulada, mas talvez seja a mais importante: para que serve a filosofia? Ora, para nada, já que a maioria das pessoas dá conta de todos os desafios existenciais usando somente o senso comum e a moral. Para que a argumentação seja esclarecida, torna-se necessário definir os termos usados neste texto:

Conhecimento de senso-comum: É o conjunto dos conhecimentos aceitos por todos. Nele então a sabedoria de todas as profissões e ofícios, os conteúdos científicos formais, enfim, todo o patrimônio humanístico, científico, cultural e pessoal criado e pertencente à humanidade. Resumindo, a acepção abordada neste texto concebe o senso-comum como todo o conhecimento funcional, aquele que serve para alguma coisa. É, em última análise, o conhecimento que transformou a antiga sociedade agrária e rural do velho regime na sociedade tecnológico-industrial de consumo dos dias de hoje.

Conhecimento Moral: Representa um avanço em relação ao senso comum, já que ele julga o senso-comum emitindo juízo de valor. Assim, como as pessoas não conseguem viver socialmente sem o senso-comum, elas não vivem sem definir constantemente o que é certo e o que é errado. Esta é a maior crítica que se faz à Filosofia Medieval, acusam-na de ter retrocedido a uma filosofia moral, depois de a filosofia pura ter avançado imensamente na antiguidade grega. Assim, pertencem ao universo da moral as religiões, credos, relações pessoais, relações sociais, a arte, a função da ciência, a política, etc.

Para se ter uma idéia da importância da dimensão moral, ela preenche a maior parte da vida das pessoas, pois mesmo aquelas que têm um pouquíssimo nível de instrução formal, vivem submersas no universo moral das suas relações familiares e sociais próximas. Onde quer que haja o mínimo vestígio de associação entre seres humanos, a moral se estabelece como intermediadora de conflitos e como definidora do mérito das ações. O imperativo categórico da convivência social é o julgamento do agir; toda e qualquer ação é julgada boa ou má, tanto pelo próprio indivíduo, como pela coletividade, e disso ele não se livra até a morte.

Conhecimento Especulativo: É o mais inútil dos conhecimentos e rigorosamente não serve para nada. Não obstante a maior parte dos seres humanos nunca chegar a precisar dele, ele é a fonte de tudo que foi produzido de senso-comum e moral. A dificuldade do entendimento do que é filosofia se deve à dificuldade dos filósofos em se fazer entender pelo público não afeito às coisas não funcionais.

Especular significa pensar. Ora, as duas dimensões anteriores também exigem pensamento, então não é o bastante para a filosofia. A complicação da filosofia surge quando se torna claro que não basta pensar para filosofar, é preciso pensar sobre o pensamento. Então são rigorosamente estabelecidas duas entidades: o ser que pensa e o ser pensado, sendo que os dois são um só.

A primeira questão que o pensador faz sobre o pensamento é sobre a origem do ser que pensa. A filosofia nasceu quando foi formulada pela primeira vez a seguinte questão: o que é o ser? É o ser pensante, tomando consciência de si mesmo, se perguntando sobre seu próprio ser. Isto é simultaneamente a essência da filosofia e da inutilidade, pois respondê-la satisfatoriamente nunca foi possível e porque até hoje as grandes questões filosóficas continuam em aberto.

No entanto, um punhado de filósofos especula, alçando vôo além das dimensões sensíveis do senso-comum e da moral, perguntando e criando engenhosíssimos conceitos para responder, sem chegar nunca à resposta definitiva, à verdade. Para quê? Eu disse anteriormente que a filosofia não é uma atividade funcional e permanecerá assim enquanto algum pensador continuar perguntando sobre o ser.

Filosofia, ser, verdade, senso-comum, moral, especulação

11 comentários:

  1. Gostaria de pedir ao autor da postagem uma reflexão, se permite. Ou melhor, uma questão: "Através dos pensamentos, questionamentos, reflexões, etc., pode-se resolver ou encontrar soluções para questões humanas que estão, no momento, além das questões humanas"? Pode o ser humano resolver, com ou não, pensamentos que os pensamentos não podem atingir?

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  2. Pra que serve a filosofia...continua a pergunta.
    Nunca vi nada mais inútil....
    Fora do campo acadêmico não serve pra absolutamente NADA. Dentro dele ainda serve pra dar respostas que geram outras perguntas....rsrsrsrsrsr

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  3. Você rindo matou o significado da filosofia com mais maestria do que muitos filósofos calejados fariam. A filosofia é 100% inútil, no entanto, ela está por trás de todas as grandes conquistas humanas.

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  4. Sinto lascadamente ter que dizer que a filosofia está, sim, por trás de muitas conquistas humanas.
    Mas, já refletirem o que sempre esteve por detrás das mentes humanas, e que são exatamente através delas que a Raça Humana chegou onde chegou?
    Ou será que "ainda não abriram os olhos" para verem o que está ocorrendo, de fato neste Orbe? - Lembram do filme Matrix:
    New pergunta ao Morpheu porque ele não via nada, o que este reponde: Porque voce nunca usou os olhos (de Ver)!
    E pergunto a todos aqui: O que estamos vendo de fato, como nossos olhos de Ver?
    O que será que conquistamos de valor Real e incorruptível através das filosofias, religiões, políticas e também das ciências, que podem resolver questões, por exemplo, do tipo aquecimento global, assassinatos de animais, violência, drogas, promiscuidade, cruel e injusta distribuição do poder momentário, etc.?

    É triste e deprimente termos que reconhecer que nós, seres humanos de superfície, fizemos e fazemos TUDO o que é necessário para destruirmos uns aos outros e também nossa moradia, a Terra.
    Muitos de nós até pensamos que nada temos haver com isso, mas se perguntarmos à nossa própria consciência, de forma honesta e sincera, veremos que em pensamentos, sentimentos e atitudes, contribuímos e muito para que esteja como está!

    Prestemos atenção neste dia 08/08, e poderemos constatar o que está por vir!!!
    Orem, e muito!
    Que a Paz esteja conosco!
    Tenhamos Fé!

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  5. Fiquei fascinado ao ler este texto. Não me considere lisonjeiro mas só um " Mestre " seria capaz de escrever isto. Se me permite, tenho uma discordância, no comentário que fez " rindo matou a filosofia ". Na minha opinião que vale o que vale entendo que rir, depreciar a filosofia na realidade embora de forma insconsciente é fisolofar. A filosofia para mim é um hobby a que dedico bastante tempo. Estou a reler a História da Filosofia Ocidental. Obrigado.

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  6. Mário Ventura, "matar" está no sentido de resolver, solucionar, a mesma metáfora que se emprega para dizer "ele matou a charada".
    No entanto, a filosofia autônoma como foi concebida desde os antigos gregos até os iluministas foi morta, agora sem metáfora, pelos dados empíricos da ciência. Não consigo mais filosofar sobre o cosmos sem contar com subsídios empíricos advindos de algum acelerador de partículas.
    Os filósofos que se meteram de pato a ganso ao tecer ilações sobre a Teoria da Relatividade (exemplo: Henri Bergson - Durée et simultanéité, à propos de la théorie dEinstein), se deram muito mal devido à sua condição de não-físicos.

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  7. Isaías, só podemos falar que a filosofia é inútil no sentido de que ela não serve para "algo mais". A filosofia basta em si mesma; ela é um fim, e não um meio para chegarmos a algo "superior".

    É o mesmo que perguntar: pra que serve a existência? Ela não serve para chegarmos a algo "além". A existência é a esfera de toda vivência; nós sempre estamos dentro dela.

    E assim como não podemos dispensar a existência, não podemos dispensar a filosofia, pois é ela que nos diferencia dos animais, que se guiam pelo instinto. Ela possibilita todo o "resto".

    Agora, você está equivocado em dizer que a filosofia especulativa cosmológica por foi "morta" pela ciência empírica. Isso só vale se você adotar o cientificismo, linha filosófica que apregoa que devemos explicar a realidade através da experimentação de hipóteses, e que os problemas insolúveis pelo método científico (não testáveis) devem ser desconsiderados.

    Para isso, será necessário tecer uma defesa em favor do empirismo, e demonstrar que nossos sentidos fornecem ideias seguras sobre a realidade.

    Eu, por outro lado, sou racionalista extremado, e nego que os sentidos possam fornecer algum dado confiável sobre qualquer coisa. O conhecimento, ao meu ver, vem APENAS pela dedução lógica de princípios apriori, sem interferência das sensações.

    A ciência pressupõe a filosofia empirista, fazendo uso dos sentidos e lançando mão da falácia do consequente, o que impede que ela atinja algo próximo da "verdade". Ela pode servir para qualquer coisa, mas não para revelar a natureza ou o funcionamento do cosmo. O conhecimento de QUALQUER coisa, em QUALQUER nível, está APENAS na filosofia.

    Ela continua com o monopólio.

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  8. Rafael,
    gostei quando você explicita o seu platonismo, numa tomada de posição rara nos dias de hoje.
    O problema que vejo na filosofia é justamente ela ter sido empurrada para fora do mundo real: não posso mais falar em física, sem depender do LHC, não posso falar em cosmogenia sem me curvar às teorias sobre o universo e beijar os pés da NASA. O que restou à Filosofia? O pensamento puro?
    Talvez por isto o último grande filósofo puramente filosófico tenha sido Georg Wilhelm Friedrich Hegel, construtor do último grande Sistema. De lá para cá apenas alguns homúnculos brilharam em cena com seus problemas subalternos esparsos entre funcionalismos e empirismos, posteriormente açambarcados pela indústria da ciência. Hoje a filosofia tem de sobra problemas sociais, ecológicos, culturais, etc., mas não pode dar nenhum pitaco sobre o universo.

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  9. Continuo dizendo que a ciência é que não pode dar nenhum pitaco sobre o universo. Além de depender das sensações (que são intrinsecamente falhas), ela usa a lógica indutiva (baseada em generalização de casos particulares) e a afirmação do consequente.

    Para quem não sabe, a afirmação do consequente é um erro crasso de lógica, exposto assim:

    (1) Se A, B;
    (2) B;
    (3) logo, A.

    O método científico faz uso disso. Como algo assim pode nos ajudar a explicar alguma coisa?

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  10. Vou tecer uma crítica para o tal de anônimo, que escreveu "Fora do campo acadêmico não serve pra absolutamente NADA". Isto só pode ser coisa de anônimo mesmo. Sou Filósofo, Professor Acadêmico, Conferencista e Escritor. E tudo isto graças também à Filosofia. Uso a Filosofia na minha vida prática todos os dias. A Filosofia só é inútil para os inúteis que não sabem usá-la com Sabedoria.

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  11. Eugênio, na realidade a reflexão e teoria mais do que importantes, são essenciais. O problema e que os néscios não se dão conta da filosofia subjacente às suas vidas.

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