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30 de jun de 2008

O que é mecanicismo?


Discussão sobre mecanicismo e metáfora do relógio - parte do Filme Ponto de Mutação baseado no livro homônimo de Fritjof Capra.

O mecanicismo é uma escola filosófica que, além de marcar o início da era moderna, se confunde com ela. Ele surgiu como dupla reação ao universo orgânico concebido pelos gregos e ao cosmos teocêntrico sacramentado pelos medievais.

Simultaneamente liberto da trama dos deuses pagãos e da causa única atribuída a Deus, o homem pode se despir intelectualmente da metafísica histórica e se perguntar: quem sou eu? Finalmente sozinho no mundo e tendo como ponto de partida a si próprio, libertou-se da carga de séculos de explicações divinas.

A essência da modernidade, como a imposição do sujeito, autor e produtor de si mesmo foi sintetizada na figura de René Descartes, considerado o primeiro filósofo moderno porque materializou aquilo apenas esboçado por Sócrates. Descartes notou que mesmo quando se sonha, acredita-se que se está vivendo algo real, não existindo alguma coisa que marque a diferença entre as sensações experimentadas no sonho e aquelas em estado de vigília.

A origem do “Penso, logo existo”.
Sua reflexão foi a seguinte: “Quando penso com cuidado no assunto, não encontro uma única característica capaz de marcar a diferença entre o estado acordado e o sonho, tanto eles se parecem, que fico completamente perplexo e não sei se estou sonhando ou acordado neste exato momento”.

Descartes buscava chegar ao real e para isto ele teve que se desembaralhar dos conceitos de senso comum, das explicações teológicas e das injunções culturais que o havia o moldado como pessoa. Sabendo que não tinha condições de diferenciar a realidade do sonho, o seu marco zero devia retroceder até chegar a algo que fosse inquestionável: se havia um fato de que ele podia ter certeza, era sem dúvida, a permanente dúvida. Ora, se ele duvidava, significava que pensava, e se pensava, a realidade devia emanar deste ente pensante.
Inspirado por este tipo de reflexão, Descartes chegou à sua famosa máxima Cogito, ergo sum, penso logo existo. Estava lançada a pedra fundamental da modernidade que se prolonga até hoje.

O homem moderno, já liberto da servidão teológica e da explicação orgânica de um cosmos vivo ao estilo grego, se concentrou no eixo de onde passaria a emanar todo um novo sistema de causalidade – o sujeito – que o velho Sócrates já havia antevisto no seu Gnôthi seauton, conhece a ti mesmo, e conhecerás o universo.

A fundação da nova Ontologia e a metáfora do relógio.
Frente a um novo universo que se descortinava à sua frente, cabia ao homem a invenção de uma nova ontologia que fosse tributária não mais do mistério das causas divinas incognoscíveis, mas do conhecimento real e palpável, ou seja, dele mesmo. Para tanto, ele forjou uma nova metáfora para o funcionamento da natureza e tudo que nela havia; uma máquina, todavia não uma máquina qualquer e sim a rainha de todos os mecanismos: o relógio.

Doravante, a idéia do mecanismo usado para medir o tempo foi transposta para explicar o conjunto de problemas sobre os quais a recém criada ciência experimental se debruçava: desde os movimentos observados na abóboda celeste, até os sistemas corpóreos vivos, tudo podia ser reduzido aos seus componentes mecânicos e entendido por partes.

O Pensamento Mecanicista é o causador da catástrofe ecológica?
O sistema de entendimento estava consolidado, sob a lei: o todo pode ser conhecido através da análise das suas partes componentes. E até hoje o pensamento mecanicista domina a maior parte das cabeças científicas, inspira a produção de conhecimento e é o grande responsável pela catástrofe ecológica. Apesar do mecanicismo ter sido revogado conceitualmente pelas novas aquisições em termos de uma compreensão mais holística dos fenômenos naturais, ele continua a imperar monoliticamente na essência do capitalismo.

A grande tragédia causada pelo pensamento mecanicista é a falta de visão de um planeta único, com recursos finitos e ecossistemas interligados e interdependentes. O grande erro da modernidade foi deslocar toda a fonte ontológica para o sujeito, desconectando-o do sistema relacional que o mantém interligado e dependente do todo. Isso foi decorrência do novo paradigma do “eu penso” como único balizador da realidade. Tal mentalidade foi legitimadora das ações de destruição em massa da natureza, que continua atuando na maneira como o poder político global vê a questão ecológica: de maneira fragmentária e mesquinha, cada um pensando no seu próprio sujeito nacional, possuidor de bens naturais que podem ser espoliados ad infinitum.

Enquanto o erro de Descartes não for reconhecido como um derradeiro epitáfio ao período moderno, a modernidade continuará a exaurir os recursos do planeta, posto que é visto sob a forma fragmentada de bilhões de pedaços, entregues aos joguetes dos pertencimentos nacionais.

Referências:
Gaarder, Jostein – O Mundo de Sofia
Capra, Fritjof – Tao da Física
Holismo x Mecanicismo
Mecanicismo: A Perspectiva Bárbara da Humanidade
Haeckel e Nietzsche: aspectos da crítica ao mecanicismo no século XIX
Filosofia e Ciências da Natureza: Descartes e o Mecanicismo
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Descartes, mecanicismo, metáfora, modernidade, Sócrates, holismo, ecologia, visão fragmentada, acesso ao real

4 comentários:

  1. Adorei a sinopse!!!

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  2. Adorei a análise!!!

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  3. Muito bem elaborado e explicativo de maneira suficiente para que não fiquem dúvidas quanto ao assunto.

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  4. nao é o mecanicismo que vc tem que questionar, pois este é simplemente a forma como descartes concebia a natureza. na realidade, o erro nao é de descartes é sim do egoismo humano e este nao faz parte da teoria cartesiana.

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