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27 de jan de 2009

Sete dicas para quem quer entender o "português" falado em Bento Gonçalves.

Autora: Gladis Franck da Cunha

Nos extras do DVD – “Saneamento básico: o filme” de Jorge Furtado, filmado em Bento Gonçalves e região, Wagner Moura comenta que a princípio eles pensaram em imitar a fala dos habitantes locais, mas desistiram porque se tratava, praticamente, de outra língua. De fato isso ocorre não apenas quando eles falam em “italiano”, mas o seu português apresenta algumas características próprias, que este artigo objetiva esclarecer.
Bento Gonçalves é uma das cidades da Serra Gaúcha com predominância de habitantes de origem italiana. Até a década de 70, houve pouca “comunicação” entre os seus municípios e demais regiões do Rio Grande do Sul. Assim, a maioria dos indivíduos utilizava bastante o dialeto trazido pelos antigos imigrantes, além disso, o português falado assumiu alguns significados ou pronúncias típicos dos quais muitos ainda são preservados e usados na comunicação cotidiana por muitas pessoas.
Bento Gonçalves

Alguns termos mais comuns do bentogonçalvês:

1- LEVAR: este verbo é 99% das vezes usado com o sentido de “trazer”. Por exemplo, se perguntarmos a alguém: Onde estão os teus livros? E a pessoa nos responder: Eu levei. Ela estará nos dizendo: Eu trouxe e eles estão comigo!

2- PENA: é uma palavra usada para se referir a um curto espaço de tempo com o significado de “recém”. Assim, ao falar: Eu pena cheguei. Se quer dizer: eu recém cheguei.

3- FAZER HORA: significa “a tempo” ou “ter tempo”. A frase: eu não fiz hora pegar o ônibus, significa que a pessoa não chegou na parada a tempo de pegar o ônibus. “Eu não vou fazer hora terminar”, significa: eu não vou terminar a tempo.

4-SE MEXER FORA: significa demandar tempo para resolver o que tem de ser resolvido. Por exemplo, essa expressão foi usada por uma aluna para dizer que pela manhã os afazeres domésticos e o atendimento às filhas demandavam muito tempo, a frase ficou assim: “Até que tu te mexe fora, já passou das nove” (da manhã).

Além dessas expressões, há uma pronúncia alterada:

5- Palavras escritas com dois erres (RR) são pronunciadas como se tivessem um e vice-versa: Assim a frase: “Uma carroça carregando areia” será pronunciada: UMA CAROÇA CAREGANDO ARREIA!

6- As palavras terminadas em OM ou ON são pronunciadas como ÃO. Assim “bom” é pronunciado BÃO, cupom é pronunciado CUPÃO, bombom é pronunciado BAMBÃO. Por outro lado, as palavras terminadas em ÃO são pronunciadas como OM ou ON: pão é pronunciado POM, sifão é pronunciado SIFOM, esfregão será dito ESFREGOM.

7- Finalmente, há certa tendência em trocar os tempos verbais, por exemplo, a frase: “Eles pegaram o trem” poderá ser dita “Eles PEGAREM o trem”, enquanto o imperativo “Esvaziem as malas” vira “ESVAZIAM as malas”.

Update:
8- PEDIR x PERGUNTAR: Outra alteração do uso de verbos é a troca do pedir pelo perguntar. Isso está se tornando menos freqüente, mas ainda é usado nas zonas rurais. Assim quando alguém quer saber que horas são ele PEDE as horas. Porém, se quiser o relógio emprestado ele PERGUNTARÁ o relógio.

9- FAZER DE MENOS: esta expressão significa, mais ou menos, um “deixar prá lá” ou “deixa estar”, mas ela é dita sempre com certa mágoa ou reprimenda no sentido de “NÃO GOSTEI, MAS NÃO ESTOU NEM AÍ PRA TI”, por exemplo, se alguém disser: “Se não quiser me emprestar então FAZ DE MENOS!” significa que não vai insistir no pedido, mas pretende pagar na mesma moeda. Também pode ser usada para aconselhar: Se não gosta do que ela te diz FAZ DE MENOS escutar! Ainda serve para comentários do tipo: Se ele não quer porque não FAZ DE MENOS?

Caros leitores, agora que eu PENA terminei esse artigo, espero que vocês FAÇAM HORA de lembrar essas dicas se visitarem ou se mudarem para Bento Gonçalves.

Abaixo ouçam o audio do Iotti que estabelece uma diálogo entre os personagens Radicci (pai) e Gomercindo (filho), mostrando a diferença entre um jovem com cultura mais urbana e seu pai que utiliza o "português" especial da região.

15 comentários:

  1. Tom cedo nom vou a Bento Gonçalves. Mas adorei as dicas, rs.

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  2. Boas dicas, vou aproveitar e imprimir sim, afinal de contas não pretendo passar vergonha quando eu estiver em Bento.
    Aqui na região da imigração alemã existem muitas palavras 'distorcidas' também, pra quem vem de fora, torna-se engraçado.

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  3. Márcio Monks30/01/2009 12:59

    Olha, eu estive em Bento Gonçalves há um mês e não ouvi nenhuma dessas expressões!!!!! Isso aí é igual novela da Globo que caricaturiza o sotaque dos gaúchos. Nenhum gaúcho fala daquele jeito.

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  4. Márcio,

    Provavelmente não conviveste com pessoas que vivem no ambiente rural. Moro no bairro Barracão desde a década de 70 e ainda hoje escuto tais expressões diariamente, embora não as use.

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  5. É... vê-se que o Márcio Monks não conviveu com os habitantes periféricos da cidade. Quando você fica mais na área central, tem uma visão mais cosmopolita da cidade. Eu e minha esposa estivemos um mês em Gonvernador Valadares, Minas Gerais, mas o que podemos dizer da cultura mineira se nem comemos feijão tropeiro?

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  6. Isso é verdade. Não convivi com ninguém da zona rural, a não ser por algumas visitas a algumas famílias no Caminhos de Pedra. Mas que a Globo adora sacanear sotaque de gaúcho não há como negar, huhuahau.

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  7. putz/é gente de todo o brasil/eu sou o chamado indio ou gaucho dos pampas /bagé/todo mundo armado /bota e bombaçha barreanqueando egua/vaca/cavalo/cabra...etc...mas ai fui morar em pelotas por gostar de arte me identifiquei um pouco melhor/em bagé nao existe agua- a incompetencia dos governantes é muita-faz vinte anos de seca/pelotas é colada na lagoa dos patos/beleza- sou "di" Pelotas/tem os colono de bento/os alemao de novo hamburgo/tem os palestinos do chui...cada um com seu dialeto mas somos todos gauchos antes de qualquer coisa.

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  8. rsrrs

    Esta notícia tem muito de nossa Terra Campeira mesmo!!
    Bento Gonçalves, lá pelas parreiras de uva que se extraem os melhores vinhos deste País, encontraremos, com certeza, pessoas com esta variedade de dialetos.
    Todos amigos, hospitaleiros e gente simples que fazem do Brasil um dos melhores lugares para vivermos.
    Obrigada pela matéria Sylvio!
    Te adoro.
    Maria Souza - Porto Alegre - RS

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  9. Fugindo um pouco do assunto...
    Ainda me caso com um Gaúcho!
    Hehehehehehehe

    Flor!!! '-'

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  10. Olha, me desculpa mas neem todos falam errado como vc sitou...isso até me deixa um pouco constrangida....Mas tem bastante gente que fala assim ... fazer o que
    husahaushsausahu

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  11. eu SOU de Bento Gonçalves, e por aqui quem fala deste jeito é exceção. Quanto aos "erres", "esses", "OM", etc, isso é comum nos imigrantes italianos, inclusive os de São Paulo. Cada vez mais globalizado com as novelas da Globo o brasileiro está falando cada vez mais de forma semelhante.

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  12. Você quer ver um gringo de Bento Gonçalves voltar às origens, mesmo que tenha se civilizado? Depois de uns bons tragos, o "shotakon" ressurge a todo o vapor.

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  13. EU ESTOU PROCURANDO PALAVRAS DA REGIAOA SUDESTE COM SEUS SIGNIFICADOS

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  14. Saiba a Sra. Gladis Franck da Cunha que sua conclusão à respeito do "dialeto" falado em Bento Gonçalves é errônea, grosseira e desrespeitosa. Jamais essa besteirada aí escrita foi um dialeto, e sim existiram vícios linguísticos praticamente extintos atualmente. Procure entender a cultura e aprofundar-se no conhecimento para depois tentar escrever algo realmente interessante, ou poupe-nos de sua ignorancia.

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  15. Sr. Anônimo,
    Uma das definições de "dialeto" é variedade linguística regional que não tem escrita. Ao tratar uma forma de expressão como dialeto estou sendo mais respeitosa do que tratá-lo como vício, uma vez que ao adquirir a linguagem usamos nossas bases neurais de comunicação previamente construídas.
    Por exemplo, um linguísta me explicou que a utilização do verbo "levar" no sentido de trazer se deve ao fato de no italiano exitir apenas o "portare" para os dois sentidos que são definidos por outra palavra significando 'aqui' ou 'lá'. Então a forma como algumas pessoas usam o português é uma adaptação da linguagem originalmente aprendida.
    Outro dia o pintor que estava trabalhando na reforma da casa dizia para meu marido "É só 'perguntar' a massa de acabamento". Ao que meu marido, que não cresceu aqui, comentava "Eles sabem qual é a melhor?" e o pintor insistia "Eles têm". Parecia uma conversa de bêbados, pois o pintor se referia a um produto que ele já conhecia e bastava pedir, enquanto o meu marido achava que precisávamos de uma informação técnica. Eu entrei na conversa e disse já entendi, encerrando o assunto e esclareci ao meu marido que o pintor estava usando o verbo perguntar no sentido de pedir.
    Talvez, por morar num sítio situado na zona rural de Bento Gonçalves e conviver diariamente com pessoas que falam usando estas expressões eu não tenha a mesma impressão de que sejam apenas "vícios" praticamente extintos.
    Tanto que no meu texto não foi dito que esta forma de falar era um dialeto mas sim que:
    "Assim, a maioria dos indivíduos utilizava bastante o dialeto trazido pelos antigos imigrantes, além disso, o português falado assumiu alguns significados ou pronúncias típicos dos quais muitos ainda são preservados e usados na comunicação cotidiana por muitas pessoas".
    Talvez a expressão muitas pessoas seja tendenciosa, já que no sítio em qustão moram 14 pessoas das quais 8 falam usando as expressões e se forem incluídos os vizinhos lindeiros a proporção fica de 19:11, ou seja, no meu convívio doméstico a maioria se expressa dessa maneira peculiar, que não é nem menos nem mais do que eu faço é apenas diferente e reflete as questões de aquisição da linguagem.

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