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29 de jan de 2010

Muito além dos olhos...

À primeira vista - poster

"À primeira vista" é um filme antigo, mas que merece ser assitido.

É um filme poético e muito intirgante, baseado em um caso real relatado por Oliver Sacks: um jovem recupera a visão perdida ainda na infância. Paradoxalmente, assim que volta a "ver" ele se torna mais “deficiente” do que quando era cego, pois já tinha construído todas as suas referências sem enxergar,trabalhava e morava sozinho, lia em Braile e se movimentava usando critérios não visuais, em ambientes conhecidos.

O mais dramático foi a descoberta de que ele não sabia ver, ou seja, seu cérebro não estava preparado para decodificar aqueles sinais, que desde a infância deixara de receber. Por isso, assim que voltou a ver, seu mundo estável tornou-se confuso.

Por exemplo, virou um analfabeto, pois teria que reaprender a ler e escrever, já que as imagens de letras não tinham qualquer significado. Orientar-se e caminhar em Nova Iorque, um mundo com imagens complexas, carregadas de cores e movimentos, também não foi uma tarefa nada fácil para realizar de uma hora para outra.

Através desse caso ficou evidente que a visão é uma interpretação intimamente relacionada à linguagem, através da qual relacionamos as imagens aos seus símbolos. Por exemplo, numa cena, quando um garçom lhe oferece vinho branco ou tinto ele tem que perguntar qual é o tinto, pois este é um conceito abstrato, que aplicamos a um tipo de imagem.

O caso real retratado nesse filme pode embasar o debate sobre as diferenças entre Visão e Olhar. No sentido de que o olhar é uma construção social, uma interpretação que varia de acordo com a cultura em que nos inserimos. Fica claro que o conhecimento não está nos objetos em si, mas na sua percepção, que resulta das interações entre o sujeito e seu contexto físico e social.

Outra dificuldade enfrentada pelo protagonista foi o preconceito das pessoas que não se deram conta das suas necessidades de readaptação ao mundo, da mesma forma que ocorre com quem perde alguma coisa. A falta de conhecimento, até mesmo dos médicos, que lançaram o jovem direto no mundo de luz sem uma fisioterapia adequada para reabilitar a retina, fez com que pouco tempo depois ele voltasse a ficar cego, dessa vez, definitivamente. Vale a pena ver como ele reage a isso.

Somos essencialmente visuais, mas a verdade é que não podemos ter certeza se as outras pessoas conseguem ver aquilo que estamos lhes "mostrando". Por isso necessitamos desafiar o olhar, questionando nosso interlocutor para que o mesmo interaja com o objeto e o veja como nós mesmos ou, ainda, nos mostre coisas que não havíamos percebido.

A Ficha Técnica, Elenco e outras informações do filme estão disponíveis no blog Adoro Cinema

Por: Gladis Franck da Cunha.

Um comentário:

  1. Não vi o filme mas lendo o relato deve ser um belo filme. Apenas um pequeno comentário. Penso que cada um de nós, salvo raras excepções, tem uma forma ímpar de ver.

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