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29 de ago de 2010

Ode em defesa da vida, justiça e paz!

No próximo dia 3 de setembro teremos um novo dia do Biólogo.

Ao formar-se, cada novo jura exercer suas atividades profissionais com honestidade, em defesa da vida estimulando o desenvolvimento Científico, Tecnológico e Humanístico com justiça e paz.

Uma parte dessa missão consiste em provocar a reflexão sobre as ações humanas no ambiente.

Godfrey Reggio
Um filme que contribui para isso é “Powaqqatsi: Life in transformation” lançado em 1988 e dirigido por Godfrey Reggio com música do compositor Philip Glass.

Este é o segundo filme da trilogia Qatsi, também composta com os documentários Koyaanisqatsi (1983) e Naqoyqatsi (2002).

Powaqqatsi vem da língua Hopi e quer dizer "vida em transformação".
O foco geral de Powaqqatsi são os habitantes do Terceiro Mundo - Ásia, Índia, África, Oriente Médio e América do Sul - e como eles se expressam através do trabalho e tradições.

Sem textos ou falas , esse filme lança um olhar poético e dramático sobre estes povos e sua relação com o ambiente, permitindo interpretações variadas.

Philip Glass
Powaqqatsi é um registro da diversidade e da transformação das culturas em extinção ou espansão e dos frutos do trabalho individual.

Ele apresenta uma sinfonia humana integrada, pontuada pela música intimista de Philip Glass, realizada com instrumentos nativos, clássicos e eletrônicos, que fundem ritmos tribais em um único tema.

A abertura do filme é fascinante e mostra as imagens liricamente trágicas de mineiros em Serra Pelada, uma região do estado do Pará que se tornou conhecida em todo Brasil durante a década de 1980 por uma corrida do ouro moderna, tendo sido aberto o maior garimpo a céu aberto do mundo.


Segundo dados da Wikipedia, a região de Serra Pelada alcançou sua maior extração de ouro no ano de sua descoberta, ou seja, em 1980. Naquele ano, somente de maio a novembro - período em que os garimpeiros podiam exercer suas atividades - foram retiradas cerca de 7 toneladas de ouro. Todavia, já em 1981, quando as atividades garimpeiras foram se tornando mais difíceis e perigosas em função das grandes profundidades alcançadas, a extração caiu para 2,5 toneladas de ouro. Ao final deste ano o garimpo atingiria o lençol freático e a água brotou no enorme buraco em que se transformara o garimpo de Serra Pelada.


O Garimpo de Serra Pelada: uma chaga na Terra provocada pela ânsia por ouro, num lugar de clima quente e úmido, onde a umidade nunca é inferior a 80% em todos os meses do ano.

O vídeo abaixo mostra a abertura de Powaqqatsi, retrato de um desenvolvimento nada humanístico, sem justiça ou paz. Como Bióloga só posso pedir que assistam com os corações, para que imutável não se considere nada, como diria Brecht.
  Por Gladis Franck da Cunha

3 comentários:

  1. Excelente post. A alusão a Bertolt Brecht encaixa na perfeição.
    Escreveu ele estes versos inultrapassáveis "Contaram-me que em Nova Iorque, /na esquina da rua vinte e seis com a Broadway, /nos meses de Inverno, há um homem todas as noites/que, suplicando aos transeuntes, /procura um refúgio para os desamparados que ali se reúnem/Não é assim que se muda o mundo, /as relações entre os seres humanos não se tornam melhores./Não é este o modo de encurtar a era da exploração./No entanto, alguns seres humanos têm cama por uma noite./Durante toda uma noite estão resguardados do vento/e a neve que lhes estava destinada cai na rua. /Não abandones o livro que to diz, Homem. /Alguns seres humanos têm cama por uma noite,/durante toda uma noite estão resguardados do vento / e a neve que lhes estava destinada cai na rua. / Mas não é assim que se muda o mundo,/as relações entre os seres humanos não se tornam melhores. /Não é este o modo de encurtar a era da exploração." |

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  2. A nossa identidade é constitutivamente atravessada e mediada pela alteridade,concretizada em outros.

    Ora, não havendo outros sem a interpenetração de biologia e cultura, é inevitável o diálogo intercultural.

    O encontro com o outro acontece sempre no quadro da cultura, porque não há outro "puro", sem cultura. Assim, na presente situação do mundo, num contexto de multiculturalismo, não basta a mera junção de culturas, vivendo umas ao lado das outras e respeitando-se mutuamente. É preciso passar do multiculturalismo da justaposição ao pluralismo cultural interactivo, deixando-se desafiar por uma identidade interrogativamente aberta.

    Neste quadro, há hoje a tendência para valorizar sobretudo a diferença: é a diferença que nos enriquece, diz-se. Se podemos entender-nos, é porque somos fundamentalmente iguais.

    Se me perguntarem pelo fundamento último da dignidade humana, direi que é a nossa comum capacidade de perguntar. O que nos reúne é uma pergunta inconstruível, sem limites, que tem na raiz o infinito e nele desemboca, sendo as culturas tentativas de formulá-la e perspectivar respostas.

    Aqui, assenta a convivência fraterna e digna da Humanidade, reconhecendo todos como humanos. Mas, como disse Fernando Savater, inimigos maiores desta convivência são a pobreza e a ignorância. Rejeitamos os pobres, porque metem medo: nada nos dão e obrigam-nos a dar. A ignorância é outra fonte de medo: quando se não reconhece a semelhança, teme-se o diferente.

    Aí está, pois, a urgência da solidariedade, assente no reconhecimento da semelhança.

    Nesta solidariedade, justiça, paz e caridade têm que estar sempre presentes.


    PS. Professora, fiquei estupefacto,coincidência? Não sei. Tinha acabado de fazer esta reflexão e entrei para procurar um post para o inserir. Eis que me deparo com este. Bem haja

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  3. Mário,

    Feliz coicidência!? Se é que coicidências de fato existem...

    A princípio eu queria publicar esta postagem num blog criado para alunos da Biologia, mas acho estas cenas tão tocantes que preferi o Blogpaedia, pois mais pessoas têm acesso.

    A ideia que me levou a concebê-lo é de uma TAG muito comumente usada na década de 1990, quando ainda usávamos BBS: "A história se repete porque ninguém presta atenção" (Oscar Wilde).

    A arte nos ajuda a prestar mais atenção a história vivida e não necessariamente contada. Ao pesquisar sobre Serra Pelada encontramos no verbete da Wikipedia, entre outras informações:

    "O garimpo de Serra Pelada era dotado de privilegiadas condições socioeconômicas. Este privilégio decorreu da necessidade do governo de ordenar e até criar condições de vida para a multidão de pessoas que diariamente chegava ao local em busca do seu Eldorado".

    Assim, o que vemos na abertura do filme é um garimpo com privilegiadas condições socioeconômicas...Agora a exploração desse local não é mais "manual", mas mecanizada. Progredimos?

    Essa pergunta não tem uma resposta fácil, daí a necessidade de reflexão...

    Tua reflexão vai bem além da abertura do filme Powaqqatsi, ela se insere no filme como um todo!
    Que mostra o que há de igual entre os homens, o fato e o direito de serem homens.

    Segundo o Dalai Lama numa coisa todos os homens são iguais: Todos desejam a Felicidade!

    O teu comentário é uma direção nesse sentido. Que bom que ele encontrou o meu post!
    Gladis Franck da Cunha

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