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1 de jul de 2009

Em linchamentos, os olhos da vítima são arrancados para lhe desnortear a alma.

Há linchamentos em lugares onde a estrutura estatal é muito débil. Ou seja, isto é uma descrição verossímil do Brasil, onde mais da metade do dinheiro extorquido por intermédio de impostos abusivos é roubada pela corrupção sistêmica.
Pois bem, segundo o sociólogo José de Souza Martins, o Brasil é o país que mais lincha, por culpa em parte pelo estado de miséria da população e por outra, pela percepção de falta de justiça perpassada pelo ritmo moroso e pelos resultados inócuos apresentados pelo judiciário.

Fases de um ritual.
Os linchamentos não são premeditados, forma-se uma multidão de curiosos que acorrem a um chamamento de assalto, estupro, roubo, acidente de trânsito, homicídio, etc. A gradação da fúria vai depender da gravidade do crime, menor por acidente de trânsito e muito maior por crime sexual de estupro e pedofilia.

Inicialmente, corre-se atrás do suposto criminoso. Diante da multidão enfurecida, a vítima sempre corre, mesmo quando está armada. Normalmente as pessoas não atacam com as mãos, já que o objetivo não é meramente punitivo, mas suplicial. O linchado é primeiramente estonteado com pauladas e pedradas.

Arrastá-lo pelos pés é comum, porque além de ser mais fácil, é mais uma maneira de infligir-lhe degradação moral. Depois que a vítima está totalmente nocauteada, vem a fase da mutilação. Em caso de crime sexual, há a castração e, às vezes, ela é seguida por atos ainda mais humilhantes, como o de colocar o pênis do agressor na sua própria boca. Por fim, ou se queima o moribundo vivo ou morto, ou mais raramente ele é enforcado.

Linchar é degradar, punir, matar e mais do que isto, marcar a alma.
Linchar não é só torturar e desfigurar o corpo do supliciado. Quando uma multidão lincha, ela rechaça a camada de modernidade e passa a se comportar segundo códigos penais antiquíssimos. Assim, mais do que desfigurar o corpo da vítima, a multidão executora objetiva apagar todos os seus sinais de humanidade, para que a alma seja também impactada. Isto nos remete aos suplícios medievais aplicados aos condenados pela Santa Inquisição.

Longe de apenas eliminar a vida do herege, as autoridades eclesiásticas visavam produzir marcas profundas na consciência do sujeito para que ele levasse tais lembranças ao além e não viesse a incorrer futuramente nos mesmos erros. Para tanto, verdugo excelente era aquele que, mesmo infligindo severas torturas, até mesmo o empalamento, tinha a “sutileza” de manter o condenado vivo por dias, ou semanas, evitando assim que o condenado usufruisse o prêmio do passamento rápido e menos doloroso.

Arranca-se-lhe os olhos para desnortear a alma.
Um costume bizarro ocorrido tipicamente em linchamentos e que carece de maiores explicações racionais é o da tendência de se arrancar os olhos do supliciado. Crê-se popularmente que quem morre desfigurado por violência, não encontra o caminho da eternidade, principalmente se for cegado. Talvez aí esteja uma razão para a extração os olhos do linchado, numa derradeira tentativa de prolongar a agonia da alma na eternidade, produzindo nela um senso de desorientação que lhe aumentará o tempo para encontrar o caminho.

Para ilustrar a fase final do ritual, há um relato curioso de um linchamento ocorrido no Rio de Janeiro. Quando os policiais chegaram ao local, havia uma velhinha montada em cima do cadáver de um rapaz com uma colher tentando lhe arrancar olhos. A polícia teve enorme dificuldade para tirá-la de cima do corpo morto e foi preciso levá-la para o hospital. Somente lá, medicada e acalmada é que a boa vovozinha voltou a si.
Por: Isaias Malta.

Fontes:
Brasil, o país dos linchamentos. Entrevista com José de Souza Martins. [Instituto Humanitas Unisinos]
As condições do estudo sociológico dos linchamentos no Brasil. [Scielo]
A justiça não basta e ainda falha: Motivações e casos de linchamentos no Ceará. [Revista Cantereira]
Linchamentos. Renato Lessa, Revista Ciência Hoje, nº 257.

5 comentários:

  1. Realmente nós temos um problema de comportamento imoral nessa questão. Mas falando sem demagogias, qual seria o tratamento idealizado pelos sociólogos ?

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  2. O tratamento definitivo seria a "desbarbarização" da sociedade e isso só se consegue com muita educação, coisa que os políticos teimam em manter nas calendas gregas.

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  3. Não fazia a mínima ideia que no Brasil existiam esses rituais, para não lhe chamar outra coisa.
    A velha e sempre nova realidade. Miséria, ignorância e a falta de educação.
    Não é por acaso que a educação e a cultura não são ministradas, faz parte do processo de subjugação de um povo.

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  4. NA VERDADE O PESSOAL SE REVOLTA POR FALTA DE EQUILIBRIO EMOCIONAL E TOMAM DECIÇÕES PRECIPITADAS,QUERENDO TOMAR CONTA DA SITUAÇÃO,MAS AO NOSSO DEUS PERTENCE A VINGANÇA.
    VAMOS PROCURAR RESOLVER COM PACIÊNCIA E FÉ DE ACREDITAR QUE EXISTE UM DEUS QUE PELEJA POR NÓS.
    O AMOR DE DEUS É MAIOR QUE QUALQUER CLIMA DE REVOLTA HUMANA.

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