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27 de abr de 2008

Como os professores de séries iniciais podem usar a teoria de Piaget na sala de aula?

Há mais de dez anos estamos trabalhando na resposta a essa questão. Durante esse tempo nossa maneira de pensar foi evoluindo na medida em que íamos nos aprofundando na teoria de Piaget e fazendo experimentos na sala de aula.

Jogos em grupo é a nossa mais recente tentativa de abordar a questão, numa área específica, dentro de um programa educacional global. O presente livro atinge várias disciplinas tradicionais. O capí­tulo 3, por exemplo, trata de jogos de alvo, como boliche, que envolvem física e aritmética. Muitos jogos de baralho, tais como pescaria, propiciam o desenvolvimento do pensamento lógico e da aritmética. Os jogos em grupo existem há muito tempo, mas o valor educacional que as pessoas viam neles era muito mais limitado do que o que podemos ver numa perspectiva piagetiana. No nosso trabalho de pesquisa com professores em sala de aula, ficamos ainda mais convencidas de que os jogos em grupo estimulam o desenvol­vimento das crianças de maneira ímpar se utilizados com a com­preensão da teoria de Piaget. O propósito deste livro é mostrar o que as crianças podem aprender nesses jogos e que o professor pode intervir de modo a maximizar a aprendizagem das crianças.

Embora o enfoque aqui seja prático, não pretendemos apresentar uma enciclopédia de jogos em grupo. O construtivismo de Piaget não implica um livro de receitas ou mesmo um grupo de regras que possam ser usadas por todos os professores para ensinar todas as crianças da mesma maneira. Embora as crianças compartilhem seme­lhanças básicas, o construtivismo implica que o professor tome deci­sões levando cm conta a maneira como cada criança está pensando e sentindo em cada situação. Procuramos mostrar uma maneira de pensar os jogos que ajude o professor a melhor escolher, modificar ou evitar velhos jogos e mesmo inventar novos. Assim como cada criança tem que reinventar o conhecimento para torná-lo seu, cada professor precisará construir sua própria maneira de trabalhar as idéias apresentadas neste livro.

Escrevemos este trabalho tendo em mente quatro tipos de lei­tores: alunos de psicologia do desenvolvimento e da educação, profes­sores, diretores, coordenadores pedagógicos e pais. Para os profes­sores e estudantes de pedagogia e psicologia, procuramos apresentar idéias práticas que estão solidamente fundamentadas numa teoria científica. (Uma discussão do mérito científico da teoria de Piaget pode ser encontrada no apêndice.) Dirigimo-nos particularmente àque­les que estão procurando alternativas aos métodos didáticos tradi­cionais. Embora o livro tenha como foco crianças entre quatro e seis anos de idade, as idéias são aplicáveis também às crianças mais velhas.

Este livro é constituído de três partes. A parte I é uma intro­dução teórica sobre o que entendemos ser um bom jogo em grupo (capítulo 1) e por que, de acordo com a teoria de Piaget. Os jogos têm um imenso valor educacional (capítulos 2 e 3).

A parte II (capítulos de 4 a 10) dá exemplos concretos de jogos e detalhes da ação do professor. Cada um dos jogos foi selecionado a partir de uma das diferentes categorias discutidas no capítulo 3. O objetivo desses capítulos não é mostrar como se ensina cada jogo, mas dar realidade e precisão aos princípios de ensino que serão apresentados no capítulo 12. Por exemplo, o primeiro princípio dado no capítulo 12 é "modificar o jogo a fim de que ele esteja em harmonia com o modo de a criança pequena pensar". O leitor que já tenha lido alguns capítulos da parte II irá entender o que queremos dizer com "a maneira como a criança pensa" em jogos em grupo. Além disso, segundo a maneira piagetiana de ensinar, um princípio deve ser aplicado a maioria das vezes, mas não em todas as situações. Pareceu-nos necessário descrever vários jogos em detalhe para espe­cificar os tipos de situações nas quais deve haver intervenção do professor.

Os capítulos de 4 a 10 tratam de pequenos grupos de mas poderão ser aplicados em c1asses de vinte a trinta Trabalhamos com grupos pequenos porque em grupos grandes é difícil imaginar e acompanhar o que está se passando na cabeça de cada criança. Em pequenos grupos podemos entender melhor o que aconteceu e, mais tarde, aplicar o insight num grupo maior. Uma vez que o professor tenha entendido a transição dos jogos não-compe­titivos para os jogos competitivos, poderá usar esse entendimento em todos os tipos de jogos.

A parte III (Capítulos 11 e 12) trata de princípios de ensino começando com um capítulo dedicado ao problema da competição. A competição é um ponto importante para muitos professores de crianças pequenas. Outros professores, porém evitam jogos em grupo com medo de colocar as crianças numa situação competitiva.

Finalmente, o apêndice contém os conceitos pedagógicos mais importantes da teoria de Piaget. A teoria de Piaget é comparada com o behaviorismo e o empirismo que têm dominado a linha educa­cional vigente nos EUA. O leitor que não conhece a pesquisa de Piaget deverá consultar outros livros, uma vez que o apêndice é limi­tado a certos pontos pertinentes à educação.

Fonte: Excertos da Introdução do livro Jogos em Grupo na Educação Infantil – Implicações da Teoria de Piajet, Constance Kamii e Rheta DeVries, editado por Trajetória Cultural, 1991.

Construtivismo, Jean Piaget, teoria piagetiana, jogos infantis, pedagogia

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