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27 de abr de 2008

Quais foram as mudanças na representação pictórica ao longo da Idade Média?

Partimos do ano mil, pois se produz por volta dessa data uma flexão muito brusca na evolução do material documental, que se torna em seguida cada vez mais abundante. Mas deparamo-nos ao longo do percurso com um outro limiar, igualmente acentuado, que se coloca entre 1300 e 1350.

Passada a metade do século XIV, tudo ganha um outro tom. A mudança de iluminação é por um lado o resultado de perturbações acidentais (das quais a mais dramática foi, em 1348-1350, a grande epidemia de peste negra) que provocaram em algumas décadas uma real mutação das maneiras de viver em todo o mundo ocidental. Essa mudança se deve também ao deslocamento, na Europa, dos pólos de desenvolvimento: antes situados na metade norte da frança, eles se deslocaram nas direções sul e leste para estabelecer-se na Itália, acessoriamente na Espanha e no norte da Alemanha. Intervém, contudo, e de maneira muito mais decisiva, modificações que, afetando as fontes de sua informação, permitem ao historiador ver mais claramente as realidades daquilo que chamamos a vida privada. Uma ampla face do véu que as mascarava se rompe durante a primeira metade do século XIV. Por quê?

Porque, em primeiro lugar, um movimento profundo levava então os homens a considerar com crescente atenção e lucidez a natureza das coisas materiais, porque no refluxo de uma atitude que dominara a alta cultura européia durante a Alta Idade Média, o contemptus mundi, como diziam os intelectuais, o desprezo do mundo, as aparências pouco a pouco não pareciam mais tão radicalmente condenáveis por ser enganadoras, por ser sobretudo inclinadas para o mal. Em razão disso, a arte, a arte de figurar os aspectos da vida por meio do volume ou do traço, a arte dos pintores, a arte dos escultores, oscilou, em torno do ano 1300, para o que denominamos realismo. Parece que os olhos se abriram; o artista aplicou-se doravante em transcrever exatamente o que via, usando de todos os procedimentos de ilusão. A pintura, mais capaz de ilusionismo, antecipou-se nesse momento a todas as outras artes, e viram-se aparecer as primeiras representações pictóricas de cenas íntimas. De modo que, desposando o do pintor, o olhar do historiador pode, passado 1350, penetrar no interior da casa, isto é, no espaço privado, da mesma maneira pela qual aí penetrava, algumas décadas antes, o olhar das mulheres curiosas de Montaillou. O historiador, pela primeira vez, dispõe de meios para colocar-se em postura de voyeur, observando o que se passa no interior desse universo fechado, protegido da indiscrição, onde, por exemplo, Van der Weyden colocou a Virgem da Anunciação e o Anjo.

Fonte: História da Vida Privada – Coleção dirigida pro Philippe Ariès e Georges Duby, vol. 2. Pag. 10.

Idade Média, Alta Idade Média, representação, Arte ilusionista, realismo

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