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26 de abr de 2008

Os adolescentes são burros porque escrevem mal, ou escrevem mal porque são burros?

A gênese de uma língua ferida, ou a tragédia da língua falida.

O paradoxo de tostines: “São fresquinhos porque vendem mais, ou vendem mais porque são fresquinhos?” parafraseado para a situação educacional no Brasil ficaria assim: “Os adolescentes são burros porque escrevem mal, ou escrevem mal porque são burros?” Responder ao paradoxo da língua falida talvez seja tão importante quanto inventar um “Fome Zero” que funcione.

"Um povo é a sua língua", é uma frase sintética que vista ao reverso retrata outro tipo de miséria. Não uma miséria concernente àquele tipo de fome combatido pelo falido programa “Fome Zero”, mas daquela que renegou a língua ao nível subalterno das cátedras científicas na gestão da educação.

Após as décadas de pensar um ensino rigorosamente cientificista, descobre-se um sistema educacional semelhante à metáfora Pinkfloidiana do moedor de carnes: a entrada de inocentes crianças de um lado, e no outro a saída de adolescentes burros vacinados contra a grandiosidade da sua língua pátria.

O vácuo resultante da visão sistêmica de aversão ao ensino humanista, trouxe como corolário o cultivo de uma nova forma de comunicação nascida nos “messengers” da Internet. O triste cumprimento da profecia do escrito inglês George Orwell em seu livro “1984”, uma língua miserável e contraída está aí: a Novlíngua como forma de dominação. A intensa participação em diálogos via teclado de computador usando sistemas de mensagens instantâneas, tais como MSN, Skype, ICQ, Meebo, Xfire, Yahoo!Messenger, etc, pode produzir alienação irreversível.

A princípio, os maus hábitos de escrita nascem sob a pressão da rapidez exigida pela comunicação teclada, mas acabam se alastrando a outros setores da vida cotidiana. Como resultado da desimportância do português, os adolescentes desenvolveram uma língua própria-empobrecida-retalhada, conseqüência da fome do espírito mais intensa do que a fome da carne combatida pelo fracassado “Fome Zero”.

A escassez lingüística pode ser constatada em sites, tais como o Yahoo!Respostas, onde é esperável que o usuário tivesse capacidade de enunciar perguntas claras - para que pudesse ser compreendido, mas em razão da sua compulsiva leniência, compõe aquilo que chamo de pérolas do Yahoo!Respostas - http://br.answers.yahoo.com:

“Eu queria sabe o que e introdusao? enredo?espaço?tempo?perssonage... pessouado narrador? oantagonistae potagonita”

“Qual é a profiçao que dar mais dinheiro ?”

“EU KERO UM SITEH DE UM JOGOH MAS NAUM ESSES Q TEM UMA PORÇAO DE JOGOS UNS LEGAIS ESPECIFIKOS DE UM JOGO TIPO HABBO LINEAGE E OUTROS”

“qro responde spbre naruto-arena qndo busca as prgunta so da pra ve o q eles perguntaram e num da pra responde como buscar”

“Poxa acho q niguem entendeu a minha pergunta naum.desconfigurou meu pc.? a bara ed inicialização onde ela fika é azul. esta na parte superior do pc.na parte de cima e não esta adiantando nada eu arrastar pq só vem até o meio... naum tem outras soluções?”

Risível seria, se não fosse trágico.

Professores, ainda tende certeza ao ler isso de que a vossa missão de fazer surgir luz das trevas da ignorância é exeqüível? Caso não seja, é chegado o momento de assumir a terra arrasada, indagando os porquês dos alunos serem burros por escreverem mal.

Língua, português, internet, teclar, messengers, sistema de ensino, gestão pública

6 comentários:

  1. Eu prefiro a frase "Cada país tem o povo que merece". Um dia eu fujo pro Canadá, ou talvez pra Ucrânia...

    Mas sabe qual é uma questão muito legal envolvida nisso? Já viu aqueles linguistas que ficam dizendo "não, a língua evolui, isso não tem nada a ver, ficar se atendo a gramáticas formais não leva a lugar nenhum, e parari-parará..."? Pois bem, eu pergunto: se ninguém parar isso, onde é que vai dar? Quanto tempo até bom português virar língua morta? (Eu aposto uns 100 anos, que me diz? :D)

    Acho que vou mandar o Korso escrever algo a respeito no blog.

    E última coisa: meu erro crasso de escrita favorito: "pessouado narrador". Isso não é uma frase, é uma piada!

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  2. Nem fujsmos e nem nos rendamos, temos que fazer uma guerra de trincheiras apontando as nossas metralhas contra os adolescentes que fizeram da burrice posada uma bandeira de luta. Um sobrinha da minha mulher teve o desplante de admoestá-la por ter empregado o ponto de interrogação no final de uma frase teclada no MSN. Então eu me dei conta: eles têm vergonha de escrever a língua formal. Mas o fim dele está próximo, daqui a algum tempo a adolescente será um adulto pleiteando um emprego e sendo exigida na instrução formal. Será a hora em que a poca vai torcer o rabo...

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  3. Esperamos que sim, eu que sou quase adolescente(já estou deixando de ser faz alguns anos) já tenho raiva(não é desgosto, é raiva, mesmo...) dessa... coisa.

    A propósito, parabéns, você ganhou mais um link.

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  4. O que eu penso é que os Professores actuais não têm formação didática. Os Professores são os pobres leitores deste rico Ocidente atulhado em bugigangas de papel disfarçadas de livros, tralha iletrada embrulhada em talha dourada. Não quero me alongar muito mas será que a título de exemplo algum deles leu António Cícero? Creio que não. Basta ler o que eu considero um diamante " Poesia e Filosofia " que é uma obra surpreendente no trilho de Kant.
    Sem compreender a beleza, como é podem ensinar?

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  5. Carlos Alberto Montenegro09/02/2010 02:00

    Bem...

    Eu "vou estar lendo" para que eu possa "estar entendendo" como é que faço "para estar aprendendo" a "estar falando e escrevendo"
    corretamente.

    Para todos os leitores do blog:

    O que é pior? A estupidez da escrita errada ou
    a estupidez do "gerundismo"?

    Pobre país... pobre Brasil!

    Carlos Alberto Montenegro

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  6. Carlos Alberto, ninguém merce engrossar a fila de jornalistas acéfalos, que no seu afã de combater o gerundismo, mergulharam no abismo do eterno presente e nos erros sistemáticos de conjugação verbal. Tenho minhas dúvidas sobre qual pecado semântico é mais "descerebrante".

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