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3 de abr de 2008

Qual é o papel do "belo" na arte contemporânea?

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A discussão que remonta desde a antiguidade é a função da arte, tida como forma de cultivo da beleza. Já na idade média houve a dogmatização do seu uso em prol da glorificação à Deus. Com o declínio do espírito medieval e o início do Renascimento, houve a restauração de alguns princípios clássicos gregos, porém não da mesma forma como os antigos concebiam o “belo em si mesmo”, pois a recorrência histórica se deu sob os auspícios de uma nova mentalidade: a modernidade que emergia como inventora da autoria.

Os novos ventos catalisaram o aparecimento das primeiras obras autorais, em que a figura do artista podia se sobrepor à finalidade da sua obra. Então o mundo passou a conviver com uma nova realidade onde o artista, não reconhecendo mais as convenções consensuais de beleza, privatizou a sua relação com a criação artística se permitindo expressar a sua visão pessoal do mundo, mesmo que fossem em flagrante conflito com os valores estéticos de senso comum.

A desvinculação da arte das noções do belo em si mesmo, se por um lado desencadeou o aparecimento de obras geniais revolucionárias, por outro provocou o distanciamento do público das criações ordinárias. Entre os eventos de maio magnitude é oportuno citar a irrupção do gênio indomável de Beethoven, que certamente teria sido condenado a tomar cicuta ao tempo de Sócrates, por ter desmontado os princípios daquilo que se entendia como “música harmoniosa” naqueles tempos.

O lado negativo da derrubada da estética antiga como produto das tradições foi o distanciamento da obra de arte do espectador comum. No momento em que os artistas passaram a atender apenas aos ditames estéticos dos seus egos, muitos movimentos de desconstrução formal tomaram espaço nas artes plásticas, música, literatura, etc. A atonalidade divorciou a música das platéias de música erudita, o cubismo, o abstracionismo, o dadaísmo e o experimentalismo apartaram a compreensão da pintura da percepção comum, simultaneamente restringindo-a à apreciação de um punhado de apreciadores iniciados. Na literatura trouxe à lume obras como o Ulisses de James Joyce, uma releitura do clássico de Heródoto, onde a performance de personagens contemporâneos parafraseia em 24 horas o clássico antigo passado em décadas.
O livro de Joyce, apesar de ser um dos itens obrigatórios da literatura mundial, é obra capaz de ser desfrutada por literatos, ao mesmo modo das modernas instalações de artes plásticas expostas nas bienais.

Ao ter se desvinculado das antigas noções apriorísticas de beleza, mesmo que a arte tenha se livrado de quaisquer grilhões formais e tenha concedido ao artista possibilidades infinitas de liberdade, o efeito colateral foi a extinção do grande público apreciador de arte moderna, distanciado de obras que não lhe são agradáveis nem inteligíveis.

idade média, história da arte, renascimento, modernidade, estética, sujeito, beleza

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