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7 de ago de 2008

Caudron G-3, o incrível avião morcego!

Caso Batman tivesse vivido em 1913, seu bat-avião com certeza teria sido o francês Caudron G-3, por alguns considerado quase tão feio quanto o 14 bis e amado por outros, pelo seu jeitão de morcego.
Caudron G-3 sobrevoando Gotham City!

De construção francesa, ele foi amplamente utilizado na 1ª Guerra Mundial como avião de reconhecimento. Devido ao grande número de peças fabricadas, os excedentes foram comprados por vários países, entre os quais o Brasil. Há um exposto no Museu Aeroespacial localizado no Campo dos Afonsos no Rio de Janeiro O exemplar do Museu participou da primeira travessia dos Andes, pilotado por uma mulher, Adrienne Bolland, em 1921. Em 1913, foi o primeiro biplano a efetuar um “looping”, ele foi adquirido num leilão em 1981 nos E.U.A.

Sua estrutura esquisita.
O Caudron G-3 vinha equipado com um motor rotativo de 120 HP Gnome-Rhône. Era um biplano cuja asa superior tinha a envergadura muito maior do que a inferior.
Suas asas não possuíam nervuras, mas sim algo parecido com barbatanas curvas que, saindo de uma pseudolongarina no bordo de ataque, iam terminar em ponta, que no bordo de fuga conferiam o aspecto de asas de morcego. Cada barbatana terminava em bico.

A fuselagem, ou o corpo do avião, parecia ter sido serrada logo atrás da carlinga dos tripulantes. Talvez este tenha sido justamente a intenção do projetista, a diminuição do alvo, pela diluição da sua silhueta no resto da estrutura da fuselagem, afinal, este avião foi concebido para fazer vôos de reconhecimento desarmado, o que o tornava alvo fácil nos campos de combate. Os tripulantes ficavam a meio metro um do outro, sem qualquer separação. O piloto ia atrás e o observador à frente.

Video em solo mostrando a estrutura do Caudron G-3.

Amarrado com cordas de piano.
Para manter a estrutura das barbatanas, carlinga e fuselagem mais ou menos unida, o G-3 era todo envolvido por uma gaiola de madeira denominada de “longarina de reunião”. Essa armação nascia por entre o par de rodas de um lado e ia até a ponta traseira, onde estavam os lemes e fazia o mesmo itinerário do outro lado. Mais ou menos ao lado dos lemes, pelos dois lados, uma barra subia em diagonal, até fixar-se no plano superior. Uma série de montantes (colunas) e estais (cabos de aço, tipo corda de piano) mantinham esse conjunto bem amarrado. Eram 78 estais e todos deveriam estar muito bem retesados.

Sem ailerons.
O Caudron G-3 não tinha ailerons, aletas que permitem a inclinação das asas. Ao invés disto, ele tinha “degauchements”, entortadores no lugar dos ailerons. Assim, o movimento lateral do manche provocava a deformação da curvatura das asas, ou seja o mesmo princípio usado pelos morcegos e aves! Um dos grandes problemas deste mecanismo curioso de controle de curva, via deformação das asas, era que o comando se tornava extremamente pesado e pouco responsivo a mudanças bruscas. Se acidentalmente houvesse algum exagero da inclinação (bank excessivo), o Caudron G-3 pendia para uma elegante espiral, à princípio gentil, que pouco a pouco se apertava e podia degenerar num parafuso enlouquecido até o solo.

O motor rotativo que provocava tonturas no piloto.
Uma grande qualidade do Caudron G-3 era o seu motor rotativo. Isto quer dizer que o motor girava conjuntamente com a hélice. Para não provocar tonteiras nos tripulantes e vertigens nos espectadores postados nas imediações, a tecnologia da época houve por bem envolver parcialmente o motor com uma carenagem, um capô. Foi uma bela solução estética, porque o motor parecia muito maior do que era e resolvia o problema da insólita visão do motor girando desvairado. Mas não resolveu um outro: a vibração terrível que desconjuntava tudo. Imagine-se a dificuldade para “afinar” as 78 cordas de piano dos estais a cada 2 horas de vôo!

Um Caudron G-3 decolando, voando brevemente e pousando.

O Bat-avião perfeito!
Não é à toa que o G-3 foi apelidado de “Coisa” pelo pessoal da aeronáutica que o achava desengonçado, perigoso e barulhento. Anesia Pinheiro Machado, a primeira pilota brasileira, fez o seu primeiro vôo solo num Caudron destes em 1922, descreve a sensação provocada pela vibração, evocando uma imagem simples: “seria preciso imaginar a sensação de quem desce de bicicleta a escadaria da Penha em disparada”. Ora, a igreja da Penha no Rio de Janeiro tem 365 degraus!
Para o homem-morcego isto não seria problema para ele dar suas escapadelas sobre a noite de Gotham City

Referências:
Anesia – Livro de Augusto de Lima Neto.
Thereza de Marzo – A Mulher brasileira que começou a voar num Caudron G.3
Gaston (1882-1915) & René Caudron (1884-1959)
Caudron G.3 / 1913

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