
Em época de miniaturização de componentes eletrônicos, computação quântica e nanotecnologia, a discussão sobre as possíveis conseqüências do desenvolvimento de uma inteligência artificial é apaixonante, quando se trata de avaliar o grau de “inteligência” que uma máquina pode desenvolver. Porém, a situação não é tão pacífica assim, porque se os quesitos de avaliação de inteligência forem aplicados aos próprios humanos, os resultados podem ser estarrecedores.
Bill Gates e George Bush não passam no teste de Alan Turing.
Vamos imaginar que um determinado humano fosse submetido ao teste de inteligência semelhante ao proposto por Alan Turing (2), onde o examinador questionasse um personagem desconhecido oculto numa sala. Se tal personagem fosse o Bill Gates, haveria possibilidade de diferenciá-lo de uma máquina – levando-se me conta o seu comportamento coloquial normal absolutamente maquinal? Outro personagem que deixaria o examinador em dúvidas é o George Bush.
As dúvidas sobre a inteligência natural de Michael Jackson e Amy Winehouse é que ambos não atendem a primeira definição do Homo Sapiens Sapiens: eles não têm o sentido da auto-preservação. Jackson mutilou seu corpo na busca insana da brancura do gesso e da eterna juventude Peter Paniana, enquanto Winehouse destroça o seu através das drogas e do álcool.
É logicamente admissível que quem destrói o próprio corpo comporta-se mais como robô insensível do que um espécime Homo Sapiens Sapiens dotado do sentido da auto-preservação.
A dicotomia Descartiana alma/corpo
O ponto chave da discussão se estabelece quando o Bruno (2) se posiciona filosoficamente sobre a questão Descartiana da dicotomia alma/corpo: “não creio que haja nada mais do que matéria no corpo”. Ora, se o ser humano é o resultado da soma das suas partes materiais, então a Inteligência Artificial é viável, possível e será só uma questão de tempo para o lançamento dos primeiros robôs dotados de inteligência.
Se René Descartes estiver certo, a soma dos componentes materiais do ser humano não é igual ao todo, devido à existência de algo supra-sensível, algo que pode ser denominado de consciência, então os robôs realmente inteligentes, no sentido do Filme Matrix, deverão esperar até ser possível embutir na maquinaria aquilo que extrapola a mera materialidade do corpo humano.
Dúvidas sobre a dicotomia.
Por outro lado, se é tão fácil admitir a existência de seres humanos aparentemente desalmados tais como Michel Jackson, Amy Winehouse, Bill Gates e George Bush, porque não admitir a possibilidade de que acidentalmente um impulso supra-sensível se aposse de um robô, tomando-o como seu corpo, e passe a residir nele numa reminiscência do Deus Ex Machina(3) grego?
Se esta situação bizarra se concretizasse, seria a consumação da máxima do gênero Cyberpunk, ou seja, a robotização do ser humano e a humanização da máquina, como no filme “O Homem Bicentenário” (4), onde o robô personagem central (Robin Willians) sofre vários ritos de humanização até chegar ao corpo humano feito de próteses, que atualmente já compõem o corpo das celebridades e se banalizam nos anônimos.
Se a barreira final para declarar Inteligente uma máquina é ela questionar o ser, na inexistência ainda de tais artefatos, podemos nos consolar em declarar alguns humanos como máquinas, a exemplo de Michel Jackson e Amy Winehouse, que além de não possuírem emoções e não questionarem a própria existência vivem vidas de fachada.
(1) Robô Autônomo – Definição na Wikipedia
(2) Inteligência Artificial: de Turing à Matrix – Artigo de Bruno Guedes
(3) Deus ex machina
(4) Filme - O Homem Bicentenário
Referências:
O que é Inteligência Artificial?
Inteligência Artificial, IA, Alan Turing, René Descartes, alma, robô, celebridades, Deus Ex Machina, Amy Winehouse, Michael Jackson, robótica
No mais, o texto tem a alta qualidade de sempre, e não, não vou tocar no assunto novamente. Talvez algum dia, quando Korso falar de ficção científica. Alguns comentários rápidos:
ResponderExcluir- Auto-preservação não é uma característica ausente na natureza também. O ritual de acasalamento dos peixes guppy envolve ver qual macho é o mais corajoso e se aproxima mais de um predador por mais tempo. Não preciso dizer onde isso leva...
- Apenas um parêntese filosófico: se a dicotomia existe, existem exceções do lado "de cá" e podem haver do lado "de lá". Entrementes, minha Navalha de Occam diz que seria mais simples admitir que ela simplesmente não existe.
- Talvez ainda melhor seria citar o conto de Asimov "O Homem Bicentenário", que eu diria que é bem melhor que o filme e carrega basicamente a mesma mensagem. Acredito, até, que tenham superhumanizado a história no filme, mas tenho que reler pra lembrar.
- "Deus Ex Machina" é outro conceito que acho que está com um sentido que eu nunca vi. Até onde sei, é um recurso extremamente forçado de resolver a trama, e sua origem vem das peças gregas onde um sujeito, no papel de um deus, desce de uma máquina do topo do cenário e ajeita as coisas quando a história foge do controle, mas nunca o vi associado a IA...
E é isso. Tenho que parar de escrever comentários enormes...
Por favor, você não pode parar de fazer comentários enormes! Também me empolgo no seu Blog e acabo escrevendo posts dentro dos posts, mas taí a grande sacada dos blogs, os leitores podem dar o direcionamento que quiserem no cumprimento da máxima dos 1001 gatos "A mídia tradicional envia mensagens, Blogs iniciam conversações".
ResponderExcluirAuto-preservação é uma característica dos seres vivos, mas nem sempre, como você ressalta, pelo menos quando o assunto é sexo.
A sua postura é a negação da dicotomia, a minha é aceitá-la e assim nascem novas reflexões do pensamento divergente, conforme Thomas Khun.
Puxa, não li a novela do Asimov, um pecado mortal! Foi bom teres lembrado.
Gosto do conceito de Deus Ex Machina aplicado ao fantasma da máquina. Um bom filme que aborda a minha perspectiva é o 13º andar.
No mais, esteja à vontade para endireitar os pontos tortos e aparar as arestas bruscas, ter um leitor assim engrandece qualquer blog e assino embaixo, este comentário faz parte do próprio post, me atrevo a dizer que às vezes os comentários se tornam mais importantes do que o texto original. Descobri isto pesquisando no Google, quando encontro a informação que quero indexada pelo Googlebot num comentário.