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16 de jul de 2008

Michael Jackson e Amy Winehouse são robôs?

O conceito de robô autônomo(1) implica em dotar um constructo de alguma capacidade de “tomar decisões” próprias. Ele recebe informações do meio, não precisa de interferência humana, consegue se deslocar entre dois pontos sem orientação alheia, evitar perigos, etc. Por outro lado, a construção de um ser animado e capaz de tomar decisões, implica na dotação de um certo grau de inteligência, que para diferenciar da humana, considerada natural, convencionou-se denominar de Inteligência Artificial. Tal assunto foi brilhantemente contemplado por Bruno Guedes em seu artigo “Inteligência Artificial: de Turing à Matrix” (2), do qual tirei algumas inspirações.
Os Ícones Eletrônicos Michael Jackson e Amy Winehouse quase podem ser classificados como robôs autônomos, por terem corpo e se movimentarem automaticamente, mas pecam em termos de independência da intervenção alheia, pois vivem cercados de gente a lhes determinar onde ir e o que fazer. Destarte, eles entram na categoria de robôs autômatos quase autônomos. Cito estes dois personagens para pintar um quadro bizarro da medida do grau de mecanicidade que o ser humano pode atingir – o que torna bastante questionável o conceito de inteligência como uma primazia essencialmente humana.

Em época de miniaturização de componentes eletrônicos, computação quântica e nanotecnologia, a discussão sobre as possíveis conseqüências do desenvolvimento de uma inteligência artificial é apaixonante, quando se trata de avaliar o grau de “inteligência” que uma máquina pode desenvolver. Porém, a situação não é tão pacífica assim, porque se os quesitos de avaliação de inteligência forem aplicados aos próprios humanos, os resultados podem ser estarrecedores.

Bill Gates e George Bush não passam no teste de Alan Turing.
Vamos imaginar que um determinado humano fosse submetido ao teste de inteligência semelhante ao proposto por Alan Turing (2), onde o examinador questionasse um personagem desconhecido oculto numa sala. Se tal personagem fosse o Bill Gates, haveria possibilidade de diferenciá-lo de uma máquina – levando-se me conta o seu comportamento coloquial normal absolutamente maquinal? Outro personagem que deixaria o examinador em dúvidas é o George Bush.

As dúvidas sobre a inteligência natural de Michael Jackson e Amy Winehouse é que ambos não atendem a primeira definição do Homo Sapiens Sapiens: eles não têm o sentido da auto-preservação. Jackson mutilou seu corpo na busca insana da brancura do gesso e da eterna juventude Peter Paniana, enquanto Winehouse destroça o seu através das drogas e do álcool.
É logicamente admissível que quem destrói o próprio corpo comporta-se mais como robô insensível do que um espécime Homo Sapiens Sapiens dotado do sentido da auto-preservação.

A dicotomia Descartiana alma/corpo
O ponto chave da discussão se estabelece quando o Bruno (2) se posiciona filosoficamente sobre a questão Descartiana da dicotomia alma/corpo: “não creio que haja nada mais do que matéria no corpo”. Ora, se o ser humano é o resultado da soma das suas partes materiais, então a Inteligência Artificial é viável, possível e será só uma questão de tempo para o lançamento dos primeiros robôs dotados de inteligência.

Se René Descartes estiver certo, a soma dos componentes materiais do ser humano não é igual ao todo, devido à existência de algo supra-sensível, algo que pode ser denominado de consciência, então os robôs realmente inteligentes, no sentido do Filme Matrix, deverão esperar até ser possível embutir na maquinaria aquilo que extrapola a mera materialidade do corpo humano.

Dúvidas sobre a dicotomia.
Por outro lado, se é tão fácil admitir a existência de seres humanos aparentemente desalmados tais como Michel Jackson, Amy Winehouse, Bill Gates e George Bush, porque não admitir a possibilidade de que acidentalmente um impulso supra-sensível se aposse de um robô, tomando-o como seu corpo, e passe a residir nele numa reminiscência do Deus Ex Machina(3) grego?

Se esta situação bizarra se concretizasse, seria a consumação da máxima do gênero Cyberpunk, ou seja, a robotização do ser humano e a humanização da máquina, como no filme “O Homem Bicentenário” (4), onde o robô personagem central (Robin Willians) sofre vários ritos de humanização até chegar ao corpo humano feito de próteses, que atualmente já compõem o corpo das celebridades e se banalizam nos anônimos.

Se a barreira final para declarar Inteligente uma máquina é ela questionar o ser, na inexistência ainda de tais artefatos, podemos nos consolar em declarar alguns humanos como máquinas, a exemplo de Michel Jackson e Amy Winehouse, que além de não possuírem emoções e não questionarem a própria existência vivem vidas de fachada.


(1) Robô Autônomo – Definição na Wikipedia
(2) Inteligência Artificial: de Turing à Matrix – Artigo de Bruno Guedes
(3) Deus ex machina
(4) Filme - O Homem Bicentenário


Referências:
O que é Inteligência Artificial?

Inteligência Artificial, IA, Alan Turing, René Descartes, alma, robô, celebridades, Deus Ex Machina, Amy Winehouse, Michael Jackson, robótica

2 comentários:

  1. No mais, o texto tem a alta qualidade de sempre, e não, não vou tocar no assunto novamente. Talvez algum dia, quando Korso falar de ficção científica. Alguns comentários rápidos:

    - Auto-preservação não é uma característica ausente na natureza também. O ritual de acasalamento dos peixes guppy envolve ver qual macho é o mais corajoso e se aproxima mais de um predador por mais tempo. Não preciso dizer onde isso leva...

    - Apenas um parêntese filosófico: se a dicotomia existe, existem exceções do lado "de cá" e podem haver do lado "de lá". Entrementes, minha Navalha de Occam diz que seria mais simples admitir que ela simplesmente não existe.

    - Talvez ainda melhor seria citar o conto de Asimov "O Homem Bicentenário", que eu diria que é bem melhor que o filme e carrega basicamente a mesma mensagem. Acredito, até, que tenham superhumanizado a história no filme, mas tenho que reler pra lembrar.

    - "Deus Ex Machina" é outro conceito que acho que está com um sentido que eu nunca vi. Até onde sei, é um recurso extremamente forçado de resolver a trama, e sua origem vem das peças gregas onde um sujeito, no papel de um deus, desce de uma máquina do topo do cenário e ajeita as coisas quando a história foge do controle, mas nunca o vi associado a IA...

    E é isso. Tenho que parar de escrever comentários enormes...

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  2. Por favor, você não pode parar de fazer comentários enormes! Também me empolgo no seu Blog e acabo escrevendo posts dentro dos posts, mas taí a grande sacada dos blogs, os leitores podem dar o direcionamento que quiserem no cumprimento da máxima dos 1001 gatos "A mídia tradicional envia mensagens, Blogs iniciam conversações".

    Auto-preservação é uma característica dos seres vivos, mas nem sempre, como você ressalta, pelo menos quando o assunto é sexo.

    A sua postura é a negação da dicotomia, a minha é aceitá-la e assim nascem novas reflexões do pensamento divergente, conforme Thomas Khun.
    Puxa, não li a novela do Asimov, um pecado mortal! Foi bom teres lembrado.

    Gosto do conceito de Deus Ex Machina aplicado ao fantasma da máquina. Um bom filme que aborda a minha perspectiva é o 13º andar.

    No mais, esteja à vontade para endireitar os pontos tortos e aparar as arestas bruscas, ter um leitor assim engrandece qualquer blog e assino embaixo, este comentário faz parte do próprio post, me atrevo a dizer que às vezes os comentários se tornam mais importantes do que o texto original. Descobri isto pesquisando no Google, quando encontro a informação que quero indexada pelo Googlebot num comentário.

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