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20 de jul de 2008

Por que a minha mãe matou meu pai com sal?

Para mim foi uma situação inusitada: quando meu pai sofreu o primeiro AVC (Acidente Vascular Cerebral), foi diagnosticado que ele era hipertenso. Como acontece normalmente nestas situações, os médicos prescrevem uma dieta hipossódica, ou seja, a comida deste tipo de paciente deve conter quantidades mínimas quantidade de sal de cozinha e devem ser restritos os alimentos industrializados ricos em sódio.

Para o meu espanto, nos anos subseqüentes a cada vez que visitei a casa dos meus pais, sempre tive que admoestar a minha mãe sobre a quantidade de sal que ela usava para temperar a comida. Ora, para uma pessoa hipertensa com prescrição médica de dieta hipossódica, ela exagerava acima do padrão normal da cozinha brasileira, considerado alto demais em comparação com os valores estabelecidos pela organização mundial de saúde. Infelizmente os brasileiros são uns dos maiores consumidores de sal do mundo.

O desfecho da história foi previsivelmente trágico. Por causa da falha na dieta alimentar, a hipertensão do meu pai teve que ser controlada precariamente com medicamentos e o quadro dele evoluiu até outro AVC, com infarto e finalmente a morte. Fiquei surpreendido com a atitude da minha mãe, achando que ela tinha conscientemente abreviado os últimos anos do meu pai.

Ledo engano, falando com um médico, ele me confidenciou que o meu caso foi a regra. Infelizmente os familiares de pacientes com patologias cardiovasculares não fazem o mínimo esforço para que os seus entes queridos tenham uma maior sobrevida. Cada familiar continua tocando a sua vida como era dantes, assim como fez minha mãe. A verdade é que as pessoas se recusando terminantemente a mudar os seus hábitos, desfazem toda e qualquer possibilidade do tratamento dar certo.

O amor que as pessoas sentem por seus parentes vai até o instante que elas têm que proceder uma mínima mudança de comportamento e se esforçar pela manutenção de uma simples dieta de redução de sal é um sacrifício que os familiares nunca estão dispostos a fazer. O que me consola atualmente é a descoberta de que a minha mãe não contribuiu voluntariamente para a morte do meu pai, ela apenas engrossou as estatísticas de familiares relapsos, que infelizmente são a maioria.

Leia mais sobre os males do sal à saúde:
Salgar faz mal à saúde?

Sal, hipertensão, dieta hipossódica, patologia cardiovascular

3 comentários:

  1. Não. Não concordo com você, com os médicos, com as estatísticas... ou pelo menos com a interpretação delas.
    O amor não funciona assim, não segue a lógica da ciência médica. O problema não é tão simples como mudar os hábitos alimentares. Vai além: é aceitar uma nova realidade que diz que a pessoa que você ama é vulnerável a uma pedrinha de sal, ou seja o que for.
    O que a sua mãe fez, e muita gente continuará fazendo, foi negar esta realidade. Foi dar ao seu pai a possibilidade de continuar sendo o que eles achavam que eram, o que nós achamos que somos - invencíveis. O que eu entendo que ela fez foi manter a qualidade de vida da rotina deles por um período menor que o que ele teria se limitassem sua dieta alimentar.
    E, pode ter certeza, seu pai não foi "vítima" e sim, "cúmplice".

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  2. Você está coberta de razão. Só me dei conta disto com o remédio para todos os males, o tempo.

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  3. Também tem uma coisa...
    Você já parou pra pensar em por quê seu pai não cozinhava sua comida separadamente?
    Ele também foi relapso...
    Notando que ela não mudou a dieta, poderia contratar alguém pra fazer a comida conforme a dieta/conversar com os filhos / ou ele mesmo preparar.
    O que ele fez?? Nada.
    Bom de qlqr forma o "nosso" tempo não é o tempo de Deus.
    Que ele descanse em paz, ao menos viveu bem enquanto em terra.

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