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3 de jul de 2008

O que é Inteligência Artificial?

Aviso: não há nada de exato na conceituação de inteligência, porque é ela falando dela mesma.

Começo este post com um aforismo da minha lavra:

“Um computador somente será inteligente quando não acreditar na existência do seu criador.”
O conceito de inteligência artificial é fruto de uma forma de ver o mundo nascida no Iluminismo, que deu origem ao Mecanicismo, inventor da metáfora cérebro-computador, que até hoje está em voga, apesar das muitas evidências colocarem em cheque os paralelismos entre o mecanismo chaveador e tosco chamado computador digital e a maravilha multidimensional, sede do ser cognoscente, chamada cérebro.

Dificuldades da metáfora cérebro-computador.
Fixo-me numa das grandes dificuldades para a metáfora cérebro-computador: o problema da compactação. A necessidade de compactar dados surgiu quando a quantidade de dados aumentou exponencialmente versus recursos físicos das mídias de armazenamento e limitações de largura de banda das transmissões.

Tal fenômeno se deu proporcionalmente a demanda por maior definição de imagens e áudio, que tornou imperiosa a necessidade de compactar as informações, para que pudessem trafegar nas supervias e ocupar menos espaço nos meios de armazenamento. Assim, surgiram os diferentes formatos de compactação de vídeo, fotos, áudio, textos, etc. Porém, por mais que os sistemas de compactação tenham sido otimizados, sua eficiência nem chega aos pés do que acontece na natureza em termos de armazenamento de dados.

Gravando dados no cérebro.
Por razões didáticas, vamos supor um vídeo hipotético de uma cena familiar que vá ser armazenado simultaneamente num dispositivo digital e num cérebro. O vídeo a ser armazenado digitalmente vai sofrer um processo de compactação e vai ser gravado numa mídia qualquer e guardado num lugar. Ele se transforma numa “coisa”, que para ser resgatada precisará de um aparato eletrônico que leia a mídia, decodifique a informação compactada e processe o conteúdo (descompactação) para que possa ser exibido.

O cérebro trabalha com paradigmas radicalmente diferentes. Na medida em que a cena familiar vai sendo memorizada, são estimulados conjuntos de redes neuronais impressionados pelas as imagens, sons, odores, sensações tácteis, etc, amalgamados com as memórias emocionais que acodem naquele momento. Cada rosto familiar, ao provocar reações boas e más com base em vivências anteriores, dispara critérios hierarquizantes para a gravação da fita, fazendo com que o resultado final seja não-linear, onde várias partes do vídeo simplesmente sejam suprimidas, enquanto outras se tornam superdimensionadas.

Tempestades em redes neuronais recortadas contra o céu noturno.
O resultado final da gravação cerebral é uma tempestade de redes neuronais que se ligam e desligam irradiando clarões como se fosse um tormentoso céu noturno. Contudo, tais encadeamentos sinápticos são efêmeros, pois a sua fidedignidade se circunscreve ao tempo em que foi feita a gravação. Ao longo dos anos, a luz vívida das redes evocadas pelas imagens da cena familiar vão se apagando e sendo substituídas por outras redes mais recentes, até que uma fagulha daquilo tudo se decanta na memória como uma simples recordação.

As recordações são o resultado da hiper-ultra-super-compactação criada pela natureza, porque elas guardam apenas um bilionésimo da informação armazenada no dia da gravação. Algo é guardado, uma fração, um elemento disparador que a ciência ainda não desvendou, mas que é responsável pela restauração das redes esquecidas. Porém, quando as lembranças são rememoradas, elas não mantêm a mesma fidelidade do momento em que foram geradas, perdem o seu viço, quer seja pelo envelhecimento e conseqüente adulteração, quer seja pela introdução de elementos novos provindos de memórias mais recentes, que distorcem a memória original.

O cérebro não trabalha com memórias estáticas.
Portanto, a inteligência natural é alimentada com memórias estáticas, obrigando o processamento cognitivo de recriação contínuo da base de dados, partindo dos vestígios armazenados na forma lembranças. Assim, um dos principais atributos da inteligência pode ser resumido no seguinte aforismo:

“Inteligência é a ação de criar e recriar continuamente.”

Quando a máquina conseguir duvidar, ela passará a existir, logo ela poderá possuir inteligência.
A máquina ainda tem um longo caminho de autonomização pela frente e, quando ela for capaz de recriar e inventar as suas próprias memórias, então terá dado o passo decisivo em direção à postura ateísta referida no aforismo inicial, que comprovará a presença de duas coisas fundamentais na gênese da inteligência: livre arbítrio e dúvida.

Assim, este artigo encerra à moda descartiana enfatizando que somente existe quem duvida da própria existência e somente quem duvida, pode ser considerado aquinhoado por inteligência, sem exceções à regra, como se fosse um axioma a fornecer firmeza à inexatidão movediça do assunto.

Leituras interessantes:
10 Importantes Diferenças entre Cérebros e Computadores
Inteligência Artificial, qual é a tua?

Metáfora cérebro-computador, inteligência artificial, compactação, base de dados, memória, lembranças, cognição, Descartes

4 comentários:

  1. Um aforismo interessante, e provavelmente será citado em referência futura. Vamos ao que interessa.

    A metáfora do cérebro computador é uma das coisas das quais, acredito, a pesquisa de IA deveria se afastar. Como tentarei deixar claro na segunda parte do texto sobre IA, máquinas devem ser máquinas, não gente. Além disso, a memória humana é falha, e o raciocínio não-determinístico. Características muito interessantes em atividades criativas, mas indesejáveis para tarefas lógicas em geral, nas quais a checagem seria impossível devido à incerteza inerente. Isso seria um problema nas mãos da humanidade, como os autores de FC não cansam de tentar nos mostrar...

    E, encerrando com filosofia, não seria o próprio "axioma da dúvida" um tanto, como direi, duvidoso? ;)

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  2. RAFAEL GABAS31/10/2009 19:14

    O que é informação? É um conceito, uma noção, uma ideia. Por definição, uma informação só pode existir em uma mente. Sem pensamento, não há dados informativos. Não existe inteligência artificial, assim como não há máquinas processadoras de informação.

    O que os computadores fazem é apenas uma manipulação de sinais. Eles recebem impulsos elétricos, enviados pelo teclado e outros dispositivos de entrada, e geram imagens e sons, seguindo os padrões com que foram programados por uma mente humana.

    A máquina, que não possui capacidade de percepção, se limita a receber inputs e convertê-los em outputs. O conjunto de símbolos gerados por ela, conforme as regras pensadas por um programador humano, só se tornam informação ao serem interpretadas por um observador humano. Assim, um computador recebe um determinado estímulo (um toque no teclado ou um movimento em frente à tela), e, conforme sua programação, apresenta uma forma visual.

    Uma pessoa, ao ver a imagem, a compara com suas ideias, e entende que o referido símbolo (que nada mais é, senão um conjunto de impulsos elétricos) indica uma paisagem, uma letra, uma cidade, uma música, uma pessoa, etc, e afirma que o computador é “inteligente”, pois gera “informações”.

    Contudo, as informações, sendo conceitos, não estão nos sinais gerados pelo computador, mas nos pensamentos da mente que os percebe e lhes confere sentido. O computador não conhece, não pensa e não entende. Seu procedimento, longe de equivaler a uma inteligência artificial, é uma simulação artificial de inteligência natural, adaptada a nosso uso.

    A grosso modo, dizer que o computador processa informações, ou realiza pensamentos, seria igual a declarar que as plantas pensam ao converterem gás carbônico em oxigênio, e que isso é algo inteligente; ou que nosso organismo processa ideias ao digerir alimentos, e que ele mostra entendimento ao aproveitar os nutrientes e expelir os dejetos.

    Assim como plantas e intestinos não entendem e não sabem nada, de modo que suas atividades só têm um significado que seja atribuído por uma mente, máquinas processadoras de sons e imagens se limitam a seguir comandos cegamente, sem nada de abstrato que possa ser chamado de pensamento.

    Mesmo uma máquina criada para jogar xadrez, por exemplo, não executa nada que possa ser chamado de inteligente, senão num sentido comparativo. Um computador que joga xadrez, ou que cria imagens que parecem possuir vida própria, limita-se a captar movimentos e obedecer aos padrões eletrônicos com que foi produzido. Sem um observador com capacidade para interpretar as ações da máquina, todos os seus movimentos, sons e imagens não têm significado.

    A ideia de que o movimento de uma peça seja um xeque-mate não está no computador; a ideia de que alguns pixels seja uma pessoa dançando não está na máquina. O processador não contém informações sobre uma pessoa dançando, ou sobre as regras de xadrez. Ele apenas emite impulsos elétricos que produzem sinais visuais e movimentos mecânicos que, do ponto de vista humano, se parecem com pessoas dançando e jogos de xadrez. Com certeza, uma mosca diante do computador não entenderia os pixels como figura de uma pessoa.

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  3. Rafael,
    Compartilho com suas ideias, o único problema é que os mecanicistas se aferram à tese do fantasma na máquina DEUS EX MACHINA. Num evento altamente improvável, mesmo assim não impossível, uma espécie de "inteligência" poderia se apossar de um cérebro mecânico de forma a dotá-lo de uma "consciência". Até hoje isso não ocorreu, mas é algo esperável dentro da janela de possibilidades.

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  4. Concordo com o Rafael.Computadores sempre serão máquinas burras,à espera de um comando nosso.

    Na minha humilde opinião de estrume,talvez,um dia a ciência chegará em níveis computacionais a desenvolver uma programação que chegaria vagamente ao instinto artificial ao nível das formigas por exemplo,jamais em Inteligência,conceito esse que até pra nós é vago e metafísico como exposto acima.

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